No dia do desfile da Chanel, Patricia Carta relembra Karl Lagerfeld

Leia na íntegra a carta da nossa publisher na edição de março da Bazaar

by redação bazaar
Karl Lagerfeld - Foto: Divulgação

Karl Lagerfeld – Foto: Divulgação

Por Patricia Carta

Enquanto novos hábitos de consumo e propostas inovadoras se desenham no mundo da moda, graças à tecnologia e à sustentabilidade, só para citar dois pilares que ganham cada vez mais relevância, os resquícios da moda do século 20, com a recente morte de Lagerfeld, recebem a última pá de cal.

Perde-se uma instituição. Ganha-se um legado. A trajetória de seis décadas de trabalho de Karl pontua os momentos mais importantes da história da moda até aqui. Visionário, contribuiu para mudanças importantes de mercado, ressignificou o glamour e o poder de marcas.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Karl Lagerfeld fotografava boa parte das campanhas das grifes que comandava - Foto: Divulgação

Karl Lagerfeld fotografava boa parte das campanhas das grifes que comandava – Foto: Divulgação

Soube ser abrangente, liderar o topo e se fazer desejado pela massa, graças à venda de sonhos e não só de peças de vestuário. Reinventou-se mil vezes e atuou em toda a cadeia do processo criativo. Avançou muito além dos croquis e do corte e costura. Foi também ilustrador, fotógrafo, galerista, figurinista e, claro, um grande diretor criativo.

Fez collabs – bem antes de virar tendência -, introduziu o jeans na passarela em uma parceria com a Diesel, em 2002, e criou cases de sucesso que não cabem aqui. Um gênio da imagem, do branding, das colaborações e do marketing. Um estrategista de mão cheia. Utilizava-se de extravagâncias e decisões inovadoras para fazer reverberar seus produtos, suas ideias.

Inés de la Fressange na passarela da Chanel - Foto: Getty Images

Inés de la Fressange na passarela da Chanel – Foto: Getty Images

Assim que se tornou diretor criativo da Chanel, em 1983, tratou de providenciar uma musa e modelo exclusiva, que remetesse, na aparência, à fundadora da marca. Tiro na mosca: Inés de la Fressange ressuscitou mademoiselle! Assim como no desfile de estreia, a releitura que fez dos anos 1920/30, tempos áureos da maison, tirou-a do estado moribundo em que se encontrava.

Karl lançou bandas em seus desfiles (lembra da Vive La Fete?), introduziu elementos do street style. E trocou, no tempo certo, obviamente, a elegância da musa pelas midiáticas divas do showbiz.

Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

Mas a maior extravagância ainda estava por vir, a mudança de endereço dos desfiles. Em 2006, passaram a acontecer no Grand Palais. O emblemático museu art nouveau, a cada temporada, era revestido ao bel prazer do kaiser, segundo indiscutíveis statements fashion. Coube aos cenários nababescos desmontarem e desmistificarem a roupa de luxo, ao mesmo tempo em que o gênio Karl, contraditoriamente, posicionava a marca como símbolo de poder absoluto.

Supermercado, iceberg, praia e aeroporto provavam que tailleurs de tweed, camélias, pérolas e sapatos bicolores, entre outros signos da marca aos quais Karl se manteve fiel até o fim, podiam ser usados em qualquer situação. Não à toa, o próprio dizia que trendy é o último passo para o kitsch.

Sim, como não ser? Lembra da coleção verão 2019 que usava muito plástico nos acessórios e em detalhes fazendo alusão ao futurismo espacial do final dos anos 1960? Nada mais natural para o kaiser que o pano de fundo fosse uma floresta tropical com direito a cascata, onde, afinal, elementos plásticos poderiam ser muito úteis. Não? Karl dava vida a fantasias, contos de fadas e histórias em quadrinhos. Melhor exemplo?

O chaveiro Karlito na Fendi - Foto: Getty Images

O chaveiro Karlito na Fendi – Foto: Getty Images

A milionária gata Choupette existe, não é um cartoon! E todas as bizarrices em torno da felina são reais. Ele se divertia, certamente e sabiamente não se levava a sério, apesar do ar pomposo e cheio de empáfia. E já que era assim, não se deu por rogado e, na coleção de chaveiros que criou em 2014 para a Fendi, entre pompons e monstrinhos fofos, também tinha a versão Karl, o Karlito. Quer mais pop?

Assumidamente um personagem, não alterava o traje, assim como super-heróis não mudam! Sempre de colarinho sufocante, terno preto, luvas e rabo-de-cavalo. Esteve na forma mais magra em 2001, quando se deu conta de que, para ser jovem, era preciso vestir os ternos près du corps da Dior assinados por Hedi Slimane.

Rapidamente perdeu 42kg e transformou-se em um aspargo. Lembro-me perfeitamente do furor causado. O exagero, a excentricidade e exuberância mais que justificam que o kaiser tenha cometido gafes e pedido desculpas por elas, como manda o figurino.

Claro que se enroscou em citações nada adequadas para a etiqueta atual e preconceitos explicitados criaram polêmicas e deram o que falar. Por essas e por outras, sempre considerou boring atitudes e pessoas politicamente corretas. Eu entendo, Karl. Tamo junto!

Leia mais:
Comunicado da Chanel lamenta a morte de Karl Lagerfeld
Karl Lagerfeld morre em Paris aos 85 anos
Famosos lamentam a morte de Karl Lagerfeld

Karl Lagerfeld escolhe Olivia Palermo para colaboração
Karl Lagerfeld e Carine Roitfeld se unem para nova collab
Relembre 10 comentários polêmicos feitos por Karl Lagerfeld

10 macacões da alta-costura de verão 2019 para usar já!
Pela primeira vez, Karl Lagerfeld não encerra desfile da Chanel
Revolucionário e controverso, Karl Lagerfeld deixa um vazio criativo gigante na moda