Por Luigi Torre

Talvez pela mudança de locação ou falta de um QG específico, como o Lincoln Center, em temporadas mais recentes, e as tendas do Bryant Park, mais antigamente. Talvez pela simples evolução (ou sobrevivência). Fato é que havia algo de novo sobre essa recém-terminada NYFW. As apresentações espalhadas por lugares inusitados, marcas europeias armando verdadeiros espetáculos, shows (quase) abertos ao público e toda uma nova leva de estilistas e marcas responsáveis pelas mais autênticas e relevantes forças criativas da moda neste século 21. A seguir, listamos os principais desfiles, tendências e acontecimentos que marcaram este início temporada internacional de verão 2016.

DESFILES

Givenchy
De cara e logo no segundo dia, era evidente que seria difícil bater a apresentação que celebrava os 10 anos de Riccardo Tisci à frente da Givenchy . Porém, muito mais do que uma das suas melhores coleções em anos – espécie de síntese de todos os principais pontos de seu trabalho, mas com olhos voltados para o aqui e agora –, foi a primeira vez em que um desfile de moda não pareceu alienado aos ataques de 11 de setembro, dia em que aconteceu o show. Ao final, eram roupas que falavam sobre amor, família e importância de quebrar barreiras.

 

givenchy

 

Marc Jacobs
Outro grande espetáculo da semana, desta vez ambientado num cinema de verdade, o Ziegfeld Theater, um dos mais antigos de Nova York. Também com olhar para o próprio legado, Marc Jacobs vai além e faz uma excelente análise sobre a relação entre moda, culto de celebridades e a indústria do entretenimento. Tudo isso, claro, com algumas das mais exuberantes e brilhantes roupas desta fashion week. Moda com conteúdo e para todos os gostos – e, com a incorporação da linha Marc by Marc Jacobs, para todos os bolsos.

Marc Jacobs verão 2016 - Foto: Getty Images
Marc Jacobs verão 2016 – Foto: Getty Images

Proenza Schouler
Em tempos em que styling se destaca mais do que design, Jack McCollough e Lazaro Hernandez, da Proenza Schouler, se destacam no line-up de marcas da NYFW pelo imenso esforço e talento depositado em todas as etapas de produção. Das ideias e referências à escolha e manipulação de tecidos até execução. Desta vez, é com toque espanhol que os estilistas trabalham noções de desconstrução em roupas que parecem caindo sobre o corpo, ainda que com extrema sofisticação e finesse. Vide os laços e recortes que revelam o ombro e delineiam o corpo de forma inovadora, as fendas e tiras soltas em saias e até os babados em sua forma tradicional ou em versões inusitadas.

Proenza Schouler Verão 2016 - Foto: Getty Images
Proenza Schouler Verão 2016 – Foto: Getty Images

ESTREIAS

Monse
Fernando Garcia e Laura Kim são os estilistas responsáveis por uma das estreias mais comentadas da semana: a Monse. Para coleção de estreia, a dupla, que tem know-how e técnica de sobra (foram anos na equipe de estilo da Oscar de La Renta), é toda focada em reinterpretações de camisaria – em tomara que caia com amarrações, macacões, até longos supervolumosos. O resultado são peças ao mesmo tempo impactantes na passarela e prontas para o dia-a-dia, e ainda com proporções e silhuetas bastante inovadoras. Bazaar já está de olho!

Coach
Não é exatamente uma estreia, mas o primeiro desfile propriamente dito. Até então realizando apenas apresentações no showroom da marca, Stuart Vevers armou o primeiro show da Coach numa locação próxima ao High Line, e toda decorada para lembrar as pradarias do centro-oeste americano. Na passarela, os casacos e jaquetas que eram destaque das coleções passadas, agora, ficam em segundo plano e dão lugar a leves vestidos de estampas florais, de referências 70’s, refrescando o repertório da marca além do mundo dos acessórios.

TENDÊNCIAS

DIRETO DA CAMA
O pijamismo está de volta, mas com algumas novidades. Sim, as blusas de seda soltinha e as calças fluidas seguem em alta, mas a principal novidade para o verão 2016 são os vestidos-camisola, de preferências com corte em viés e detalhes de renda, bem como pede o momento 90’s da moda

LA VIE BOHÈME
É verdade, os anos 1970 perderam considerável força nesta temporada, mas ainda há ecos desta década nas passarelas. Sua melhor representação? Nos vestidos com estampa e tingimento tie-dye.

ALONGUE-SE
Continuação de tema importante do inverno 2015, as listras ganham sobrevida nesse verão, mas agora multicoloridas e verticais. Perfeito para quem quer looks de silhueta esguia.

DÊ DE OMBROS
Ombros são a nova zona erógena do momento. Seja por meio de recortes, decotes ombro a ombro ou tomara que caias, o importante é deixá-los sempre visíveis – imagem que combina bem com a leveza e feminilidade predominante nos desfiles de Nova Yokr.

VAI SER BABADO
Sim, eles estão de volta, mas não daquela maneira feminina ou girlie como de costume. Os babados que vimos nas passarelas noviorquinas trazem um quê de desconstrução, com aspecto meio amassado e aplicados de maneira pontual nos looks.

AMASSADINHO
Outros aspecto recorrente nos desfiles americanos: roupas que parecem já ter sido usadas, que carregam histórias. Vem daí os tecidos texturizados, como que amassados pelo tempo de uso, qualidade que confere espécie de conforto essencial às peças do verão 2016.

TUDO-CAMISA
Peça-chave da estação, a camisa apareceu em praticamente todas as coleções de peso, tanto em sua forma mais tradicional, como em inúmeras variações: como vestidos, desconstruídas, alongadas, oversized e até em proporções reduzidas.

ORANGE IS THE NEW BLACK
Laranja foi a cor que mais apareceu nas passarelas da semana de moda de Nova York. Intenso e levemente ácido, o tom foi essencial para romper com o domínio do preto & branco de temporadas passadas

POLÊMICA
Kanye West, novamente, causou certa comoção, quando anunciou, no meio da semana de moda, que realizaria o segundo desfile de sua Yeezy – marca que assina em parceria com a Adidas -, em plena quarta-feira, mesmo com o calendário já fechado. O que se viu na passarela-palco foi um pouco mais daquela apropriação de roupas esportivas e utilitárias que marcou sua primeira apresentação. Mas se no quesito moda a coleção deixa a desejar, em performance este segundo ato foi um pouco mais bem-sucedido. Em parceria com a artista Vanessa Beecroft, West soltou sua modelos marchando, sob comando quase militares, e divididos em grupos divididos por cor de pele. As roupas também acompanhavam as etnias, sendo os brancos, com suas roupas em padrões algo convencionais, conformados com as regras, e os negros mais ousados e relutantes em seguir o status quo. Um claro comentário sobre os conflitos racistas tomando conta não só dos EUA, como do mundo todo.

ABERTO AO PÚBLICO
Ou pelo menos quase. Com os recursos de live streaming já se tornando corriqueiros em desfiles, marcas como Givenchy e Marc Jacobs resolveram dar um passo além e abrir parte de suas apresentações para o público em geral. Tisci disponibilizou 1000 convites online, além de convidar estudantes e professores de moda locais. E Jacobs, por sua vez, fez com que suas modelos andassem pela calçada do cinema, onde aconteceu seu show.

NOVA GERAÇÃO
Há uma nova leva de designers e marcas, que cresceram já imersos na cultura digital sempre colaborativa, mudando o cenário underground de Nova York e devolvendo um pouco da energia cool à essa semana de moda. Com Hood by Air e Eckaus Latta como as duas principais expoentes deste novo movimento. São marcas que criam olhando para membros de suas próprias gangues. Gangues aqui no sentido de amigos que compartilham do mesmo estilo de vida, frequentam as mesmas festas e, não raramente, trabalham juntos em projetos multimídias (moda, cinema, arte, música, literatura etc), propagando mensagens sobre pontos de vistas frequentemente ignorados pelo mainstrem. São tribos urbanas que convivem online e offline, dividindo tudo e todo tipo de input e output criativo. Criam e vivem em ambientes colaboração e criativa em múltiplas plataformas e verdadeiramente conectados às necessidades e vontades daqueles grupo – sem qualquer pressão comercial. O resultado são roupas que expressam identidade individuais e coletivas ao mesmo tempo. Moda no seu melhor e mais autêntico sentido de espelho de uma socidade.