O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário
Looks da coleção “Ruta” da paulistana Anacê, marca que se destacou no line-up da SPFW: foco no agênero – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Logo no começo do vídeo da coleção “Ruta”, que foi apresentado no SPFW N51, o clima é de androginia. E apesar de ser uma marca nova (o lançamento foi em abril de 2019), a Anacê já tem o histórico de algumas coleções lançadas nas quais, desde o começo, o foco estava em alfaiataria e nesse agênero.

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“Gênero já não era mais uma questão quando começamos a criar”, conta Ana Clara Watanabe, uma das metades da dupla por trás da nova label quente, destaque do line-up do evento. “Nunca tivemos esse apelo da silhueta feminina ou masculina. Sempre pegamos roupa dos nossos pais, compramos na seção masculina. Acreditamos que cada vez menos as marcas vão criar pensando nessa distinção de silhueta no vestuário. Estamos vendo movimentos nesse sentido, como Palomo Spain”, exemplifica a sócia Cecília Gromann.

E Ana ainda alerta: “Gênero é muito amplo, não é só o que a gente vê por aí em lojas com duas seções. É muito complicado abordarmos a roupa nessa temática binária, sendo que existem tantos outros gêneros no mundo.”

O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário
Looks da coleção “Ruta” da paulistana Anacê, marca que se destacou no line-up da SPFW: foco no agênero – Foto: Divulgação

Só que, quando uma marca se autodeclara agênera, muitas vezes isso significa apenas “roubar” símbolos do guarda-roupa tradicional masculino para o cotidiano da mulher. Isso é apenas um dos elementos que realmente ocorrem na Anacê por causa da questão da alfaiataria, que é ponto de encontro na criação de ambas as estilistas (está presente tanto no estilo pessoal, um visual “office desconstruído” nas palavras de Cecília, quanto no know-how dela no trabalho anterior).

O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário
Looks da coleção “Ruta” da paulistana Anacê, marca que se destacou no line-up da SPFW: foco no agênero – Foto: Divulgação

Só que a costura é mais embaixo, para ficar em uma metáfora mais fashion: “Quando a gente entrou na questão do agênero, um ponto muito forte foi a modelagem em si. É muito fácil você vir com um macacão largo ou com uma camiseta branca e falar que ele é agênero. O nosso grande diferencial foi um estudo, criamos uma tabela de modelagem que vestisse bem todos os tipos de corpo”, explica Ana. “E nunca pensamos em ser uma marca com esse rótulo agênero. É que achamos que no futuro essa distinção não vai existir, mesmo”, a sócia complementa.

A história da marca

O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário
Looks da coleção “Ruta” da paulistana Anacê, marca que se destacou no line-up da SPFW: foco no agênero – Foto: Divulgação

Cecília e Ana Clara se formaram na FAAP juntas. Começaram o projeto da Anacê (junção dos nomes das fundadoras Ana e Cê) em 2018, penúltimo ano do curso de moda – na época, Ana Clara trabalhava com figurino na Record e Cecília estava na equipe de estilo da ShortsCo, focada em, adivinha, alfaiataria e camisaria.

“Sempre tivemos vontade de fazer algo juntas. Ana Clara gostava do jeito que eu via as coisas e vice-versa. Nossa ideia inicial era criar uma coleção-cápsula em parceria com foco para mídia, pensando em produção, posicionamento de imagem. Só que, quando começamos a desenhar, tivemos muita vontade de que isso fosse uma marca, com mais coleções posteriores”, relembra Cecília.

O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário

O papo com Bazaar aconteceu logo depois da apresentação virtual da label na Fashion Week paulista, ainda naquele calor de mais uma conquista. E é importante dizer que elas se sentiram em casa nesse formato digital do evento: “Achamos bacana estrear assim porque a Anacê é uma marca que nasceu nesse meio. Trabalhamos com conteúdo digital antes e abrangemos um público que é millennial e geração Z, superconectado o tempo todo. Por um lado, conseguimos entender melhor a dinâmica de uma semana de moda digital. Por outro, conseguimos criar um conteúdo legal para esse cliente que já está habituado com a marca no ambiente digital e sabe que vamos lançar algo naquele meio, independente de estarmos no SPFW”, pondera Cecília.

O agênero de verdade: Anacê quer desconstruir seu guarda-roupa binário
Looks da coleção “Ruta” da paulistana Anacê, marca que se destacou no line-up da SPFW: foco no agênero – Foto: Divulgação

A Anacê também tem um case digital na bagagem – foi uma das primeiras a criar um modelo de campanha feita à distância. Elas mandaram as peças do outono-inverno 2020 para a casa de influenciadores, amigos próximos da marca, logo no começo da pandemia, e os deixaram livres para registrar a roupa da maneira que preferissem.

O mesmo Guilherme Oshida que dirigiu o fashion film da “Ruta”, também uniu essas visões diversas em um vídeo. O resultado marcou a entrada da Anacê nas plataformas online Gallerist, Shop2Gether e Not Just a Label. E acabou virando um formato muito apreciado. Tanto que foram chamadas por outra marca para produzir uma campanha nesse modelo.