Por Luigi Torre

Nesta temporada, o diretor de criação Alessandro Michele convidou o artista plástico Trouble Andrew, o Gucci Ghost (que ganhou esse nome por sua obsessão em se apropriar do famoso logo dos Gs invertidos em seus grafites), para interferir em algumas bolsas do inverno 2016 da Gucci. Mais do que uma parceria de sucesso – e uma que já promete repercussão equivalente àquela da Louis Vuitton com Setphe Sprouse –, a colaboração (mais um intercâmbio criativo, na verdade) serviu para atualizar o modus operandi da marca e seu estilista e injetar referências street em sua imagem.

Jaquetas bomber, perfecto e saia de couro matelassê, trench-coat branco com mangas, moletom oversized com estampa de pantera, e uma bem-vinda sensualidade em transparências e fendas são alguns dos itens que tiram um pouco do peso histórico e intelectual das referências tão caras à Michele. É fato, foram elas que mudaram o rumo desta casa – e da moda – há algumas temporadas, mas também já começam a dar sinais de cansaço.

Moda, afinal, é sobre o novo ou, pelo menos, sobre mudanças. Vem daí toda essa nova atitude. Um jeito um pouco mais atual e, por vezes, mais bem resolvido de mostrar o que o estilista já vinha desenvolvendo desde sua primeira coleção como diretor de criação: a ideia de adaptar a moda de luxo à realidade de uma geração mais influenciada por seus amigos e o que se usa nas ruas do que só pelas passarelas, tapetes vermelhos e capas de revistas.

O processo de criação, aliás, é emblemático desse novo momento: um clash e combinação aleatória de elementos tão díspares quanto as imagens projetadas ao fundo da passarela do desfile de hoje. Elementos descontextualizados e reconectados para ganhar novo sentido. É assim que babados e mangas infladas dos anos 1980 se combinam a silhueta e detalhes renascentista à la Catherie de Medici, ou os ternos 70’s à detalhes medievais ou da antiguidade.

Mas buscar a origem ou alguma conexão entre os vários elementos desta coleção é perda de tempo. O grande de trunfo do diretor de criação Alessandro Michele está justamente na desconexão – e reconexão. Como nossas timelines – e nossas vidas.