Desfile The Row - Foto: Reprodução
Desfile The Row – Foto: Reprodução

Por Luigi Torre

Luxo, por definição, diz respeito a tudo aquilo que se passa por caro e raro. Ou melhor: dizia. Determinar o que torna um produto luxuoso é, hoje, tarefa das mais complexas e vai além de pontos técnicas ou materiais. Passa por valores emocionais, culturais, pessoais e até éticos e morais.

Com o livre fluxo de informação pela internet, e com o crescente poder e presença global dos conglomerados de luxo, a moda se democratizou: o que antes era escasso e exclusivo, deixou de ser. Toda moeda tem dois lados. Assim, enquanto mais pessoas têm acesso a essa fatia do mercado, há uma crescente demanda por produtos ainda mais preciosos, com qualidades de difícil reprodução e, muitas vezes, perceptíveis apenas para seu proprietário.

Em termos práticos, trata-se de uma evolução do conceito de quiet luxury, movimento que, há algumas temporadas, limpou a moda de seus excessos extravagantes e ostensivos. É o primeiro passo do que se entende por novo luxo. Um luxo não apenas visual e de fácil reconhecimento, mas de relações e experiência estritamente pessoais e, portanto, únicas.

Desfile Bottega Veneta Milão 2014 - Foto: Getty Images
Desfile Bottega Veneta Milão 2014 – Foto: Getty Images

 

Pense em BottegaVeneta, Hermès, Brunello Cucinelli, Salvatore Ferragamo, Delvaux e até em novatas, como a The Row. São marcas mais conhecidas por sua máxima discrição do que pelo lançamento de tendências. Marcas cujo produto não grita por atenção, ainda que confeccionados quase que 100% artesanalmente, às vezes, até com técnicas da alta-costura, e com materiais da mais alta qualidade. Dizer que o luxo está nos detalhes já não é suficiente. Está, acima de tudo, no toque. O novo luxo não tem cara definida, pois é moldável a várias identidades.

Nesse contexto, novas marcas, como a francesa La Contrie, já chegam ao mercado oferecendo produtos totalmente customizáveis. Pode-se optar por modelos já existentes e, a partir daí, o tipo de couro, cor, forro e até detalhes como botões, zíperes e costuras, ou criar algo completamente novo. Serviços similares também se encontram em maisons mais tradicionais, como Hermès e LouisVuitton.

Hermès Paris Fashion Week 2014 - Foto: Getty Images
Hermès Paris Fashion Week 2014 – Foto: Getty Images

Mas o novo luxo extrapola o produto em si. De acordo com o Boston Consulting Group, experiências e valores emocionais são responsáveis por 55% do total de compras de tal mercado. Alta qualidade, acabamento precioso e exclusividade já não bastam. Desde a crise financeira de 2008, se questiona se a simples acumulação e o consumo garantem a felicidade. Há uma crescente preocupação com a forma como consumimos e os impactos socioambientais de tais práticas. Abordagens éticas e ecológicas são, então, elementos centrais neste momento.

Foi nesse contexto que a Kering anunciou, neste ano, planos de tornar o conglomerado de luxo mais sustentável. Reforçando esse esforço, a Bottega Veneta – grife pertencente ao grupo – foi a primeira marca de luxo a receber o certificado Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), pela construção, com mínimo impacto ambiental, de seu novo ateliê, em Montebello Vicentino, na Itália. Tradução quase literal do que se prega por consumo consciente.

Salvatore Ferragamo Milão 2014 - Foto: Getty Images
Salvatore Ferragamo Milão 2014 – Foto: Getty Images