
Victor Collor tem delicadeza e precisão em seu olhar artístico, disruptivo e atemporal
Florença não é apenas cenário, mas parte ativa do percurso do fotógrafo Victor Collor. Presente na cidade há anos, ele acompanha a Pitti Uomo a partir de dentro, circulando entre amigos, convites, desfiles e encontros que ultrapassam o calendário oficial e revelam camadas menos óbvias. Com o tempo, Victor se tornou uma das presenças brasileiras mais reconhecidas durante o tradicional evento de moda da Toscana, transitando com naturalidade entre diferentes universos da moda masculina internacional. Essa convivência contínua com a cidade e com a Pitti molda um olhar desacelerado, atento aos gestos, aos detalhes, às roupas e ao modo como elas são realmente usadas. Algo que se traduz diretamente em suas fotografias.
fotógrafo conversou com a BAZAAR e fala sobre como Florença influencia seu ritmo de fotografia, a diferença entre vestir e performar moda e por que a Pitti continua sendo um espaço onde o tempo, o comportamento e o uso real da roupa seguem no centro da construção do estilo masculino. Leia a matéria completa:

Foto: Victor Collor
HARPER’S BAZAAR BRASIL – A Pitti acontece em Florença, uma cidade profundamente marcada pela história, pela arquitetura e pelo artesanato. Como essa atmosfera específica influencia o seu olhar como fotógrafo durante a semana?
VICTOR COLLOR – Florença impõe uma escuta mais atenta. A cidade carrega camadas de tempo muito visíveis na arquitetura, na luz e nos materiais, e isso inevitavelmente desacelera o olhar. Fotografar na Pitti não é apenas reagir ao que passa, mas observar como as roupas dialogam com o espaço, com a história e com o gesto de quem as veste. O cenário convida a um olhar mais preciso, menos impulsivo. É como se a cidade estivesse vivendo a moda com mais intensidade… não é que os homens se vistam para aquele dia… o estilo é algo perene no ano inteiro. Há, sim, o ‘show off’, mas ele se incorpora ao dia a dia.

Foto: Victor Collor
HBB – Você viaja o mundo cobrindo moda. O que você sente de diferente na Pitti em relação a outras semanas, especialmente no modo como as roupas são usadas, vistas e vividas fora das passarelas?
VC – Na Pitti, a roupa parece mais vivida do que performada. Existe menos necessidade de espetáculo e mais atenção ao uso real, principalmente nas temporadas de inverno. Importa como o tecido cai, como a peça envelhece no corpo e como as ruas se transformam em desfiles de verdadeiras joias do vestuário vintage. Fora das passarelas, a moda se mostra menos como imagem e mais como comportamento – e isso muda completamente o tipo de fotografia de uma cidade durante a semana em que a moda é pauta.

Foto: Victor Collor
HBB – A Pitti é frequentemente descrita como um espaço onde a moda masculina é pensada com mais tempo e menos urgência. Isso muda a forma como você fotografa os looks e as pessoas?
VC – Sim. Quando a moda não está pautada pela urgência, o fotógrafo também pode respirar. Os enquadramentos ficam mais silenciosos, há poesia no grão e no desfoque, os detalhes ganham importância e o gesto cotidiano passa a ser mais relevante. A Pitti permite fotografar com mais paciência e menos necessidade de síntese imediata.

Foto: Victor Collor
HBB – Em comparação com Milão e Paris, que costumam ser mais espetaculares e industriais, onde você acha que a Pitti se posiciona hoje no discurso da moda masculina?
VC – Acredito que a Pitti Uomo ocupa um lugar quase contracorrente. Enquanto Milão e Paris operam em uma lógica mais global e espetacular, Florença propõe uma conversa sobre permanência, tradição e refinamento de nicho. Ela não compete em volume ou impacto visual grandioso, mas nos detalhes.

Foto: Victor Collor
HBB – Quais marcas ou designers chamaram sua atenção nesta edição?
VC – Mais do que nomes específicos, me interessam marcas que trabalham bem a ideia de tempo. Alfaiatarias que valorizam construção e matéria, projetos que respeitam o ritmo do corpo e do tempo, e designers que pensam a roupa como continuidade e longevidade. Muitas vezes, isso não está necessariamente na Fortezza da Basso, onde a feira acontece, mas nos diálogos corriqueiros. Há um leque de personagens e marcas como Max Poglia e sua nova Smoked Bone, Alessandro Squarzi com a Fortela e seu vasto acervo de conhecimento sobre o universo vintage, além de Matt Brown e Yolanda Edwards, da WM Brown e do Yolo Journal.

Foto: Victor Collor
HBB – Que tipo de energia você sente na cidade durante a Pitti e como isso afeta sua forma de observar e registrar a moda?
VC – Existe uma energia concentrada, quase contemplativa. A cidade não se transforma em palco – ela segue sendo Florença, só que habitada por pessoas que observam mais e passam a tratá-la como palco. Isso cria um campo muito fértil para a fotografia. Basta sair com a câmera na mão para encontrar cenas bonitas a cada esquina.

Foto: Victor Collor
HBB – Como fotógrafo, você sente que em Florença o olhar desacelera? Existe algo na cidade que te faz enxergar a moda masculina de maneira mais sensível ou menos óbvia?
VC – Sem dúvida. A cidade educa o olhar. A luz, as texturas e o silêncio entre um movimento e outro fazem com que a moda masculina seja vista de forma mais sensível, menos literal. É um convite a enxergar as nuances dos detalhes e dos bons caimentos – e, se eu enxergo, eu fotografo.

Foto: Victor Collor
HBB – Se a Pitti não fosse um evento de moda, mas um estado de espírito, como você descreveria essa sensação?
VC – Seria um estado de atenção. Um lugar onde o tempo não pressiona, onde o vestir é uma escolha consciente – pode ser até para se divertir – e onde a moda existe mais como linguagem do que como regra. Esta Pitti Uomo me pareceu menos sobre aparecer e mais sobre permanecer.

