
Dior Men, Pre-Fall 2026 (Foto: Divulgação)
Há algo terrivelmente tedioso na Dior de Jonathan Anderson. Uma simplicidade tão tenebrosa que, por sorte e misticismo (será que estava no tarô?) acaba virando poesia. Sua moda é “bobinha” como primeira impressão e só mesmo nos detalhes tem algum tipo de forma… poderia, enfim, vestir um anônimo – mas não qualquer anônimo. Esse é o tal flâneur, aquele andarilho curioso (“botânico de asfalto”) celebrado pelo poeta Charles Baudelaire e que procura, em passeios sem rumo, algum tipo de curiosidade para fugir do spleen, mistura de tédio, melancolia, tristeza e desânimo que persegue o homem desde a Grécia Antiga.
Mas o que o pai da poesia decadentista tem a ver com “la mode Dior” de Anderson? Foi o estilista, afinal, quem decidiu clicar sua nova coleção masculina (pre-fall 2026) nos salões do Hôtel de Lauzun, mansão parisiense espremida na Île Saint-Louis que, na década de 1840, serviu de casa para Baudelaire. E foi ali, também, que com Dumas, Hugo, Gautier e Balzac, existiu o “Clube do Haxixe”, reunião de artistas para se inspirar com drogas. Hoje, o que pode ser mais inspirador do que a droga de Anderson na Dior?
A beleza, segundo o poeta, não é única e nem uniforme. Precisa ser uma composição das surpresas e horrores escondidos no caos urbano e descobertos, apenas, ao flanar por aí. São as flores do mal… um “paraíso artificial” muito bem editado. Nesse mesmo sentido, o homem de Anderson não é necessariamente especial, mas especialmente necessário. Com jeans, suéteres e camisas básicas, está mais preocupado em procurar beleza do que em ceder ao clichê de representá-la. Ainda assim, carrega algumas afetações irresistíveis: veste jaquetas acinturadas (o tailleur Bar!), bermudas cargo volumosas (silhueta Delft, de 1948) e brasões medievais enormes, arrastando a história pela rua.
Preciosista, também está coberto por insetos, como besouros e abelhinhas (símbolo da maison) brilhantes. Baudelaire acharia graça: via a natureza como um fenômeno impertinente e preferia ter os “bichinhos” como alegorias simbolistas de mortalidade, corrupção e tormenta interior. Ai, Jonathan! Ai, Dior! Como a estética é sofrida…

















