Clô Orozco - Foto: Harper's Bazaar-Reprodução
Clô Orozco – Foto: Harper’s Bazaar-Reprodução

por Sylvain Justum

Daí você acorda na véspera de feriado de Páscoa com a trágica notícia da morte de uma das mulheres mais chics, cultas e talentosas da moda brasileira. Para quem trabalha no meio, a perda de Clô Orozco é um golpe duro, muito duro. Sobretudo quando se sabe que o cenário – criativo e econômico – do nosso setor enfrenta um de seus momentos mais delicados. Clô se destacava da mesmice fast-fashion por se manter fiel a um DNA único, reconhecível à distância – ainda que, nos últimos anos, estivesse mais envolvida na direção geral e administração da empresa, depois de passar o bastão criativo da Huis Clos para Sara Kawasaki, em 2007, e dividir o da Maria Garcia com Francesca Torello, a partir de 2010.

Seu minimalismo intelectualizado, sempre elegante e com exercícios inteligentes sobre a alfaiataria, rendeu imagens memoráveis ao longo dos mais de 35 anos da grife. Clô Orozco tinha a tal da identidade, esse Santo Graal que a moda brasileira tenta desesperadamente encontrar há tempos. Assistir a um desfile da Huis Clos era garantia de enriquecer seu repertório fashion, lapidar o olho para o novo e escapar do óbvio. Visitar seu imponente show-room de linhas fifties, no bairro da Barra Funda, equivalia a entrar num oásis dentro da arquitetura pasteurizada de São Paulo. Respiros que sempre buscamos quando falamos de moda.

Mas, se o valor criativo da Huis Clos/Maria Garcia seguia inabalável, o mesmo não acontecia com o outro fantasma que assola o segmento: números. Em dificuldades financeiras, Clô vinha fechando lojas e buscando alternativas para manter acesa sua chama no mercado. Não viveu para ver a recompensa do esforço. Clô foi encontrar o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre, outro talento, que emprestou o nome de uma de suas peças de teatro para batizar a grife da estilista. Uma das frases mais célebres do texto de “Huis Clos” (Entre Quatro Paredes), dizia que “o inferno são os outros”. Sábia Clô.