Francisca Parodi - Foto: Divulgação
Francisca Parodi – Foto: Divulgação

Por Adriana Lerner

Quando tinha 12 anos, Francisca Parodi foi desafiada pela avó a recuperar uma chemise. O estímulo expandiu-se para hobby e se uniu a outra paixão: a de colecionar itens raros da história da moda. Paquita, como é conhecida, detém uma das coleções mais exclusivas e históricas, focada nos últimos dois séculos. A máquina do tempo da Parodi Costume Collection reúne mais de cinco mil artigos, entre vestidos icônicos de Charles Frederick Worth, Mariano Fortuny, mais de 400 modelos dos anos 1920, além de underwear, roupas de crianças, vestes de noivas, bolsas e acessórios – tem até tecidos do século 14.

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A coleção é organizada por épocas: Império, Vitoriana, Eduardiana, anos 1920, e segue dividida por décadas até as criações recentes. Sua peça mais antiga é datada de 1820. Oscar de la Renta é o designer com o maior número de itens: são mais de 100. Assinado por Charles Frederick Worth (fundador da House of Worth), um vestido criado especialmente para a inauguração da Torre Eiffel, um dos marcos de Paris, faz parte do arquivo. “Worth foi o primeiro designer a assinar uma peça de roupa. Ele costurava para toda a realeza europeia”, narra Paquita, mostrando o vestido-xodó.

Lanvin, 1926 - Foto: Divulgação
Lanvin, 1926 – Foto: Divulgação

Além do grande número de peças singulares, os visitantes se espantam com o estado de conservação, organização do espaço e a paixão com que a colecionadora mostra, pessoalmente, sete décadas de buscas e restaurações em sua impecável congérie. Ao longo dos anos, Paquita viajou pelo mundo garimpando itens.

Elsa Schiaparelli, 1930 - Foto: Divulgação
Elsa Schiaparelli, 1930 – Foto: Divulgação

Desbravou toda a Espanha e os Estados Unidos e esteve em cidades como Londres, Paris, Montevidéu e Buenos Aires. Ela frequentava leilões, mercados de pulgas, vendas imobiliárias e todos os locais em que pudesse colecionar novidades para seu tesouro. Quando visitou o Brasil, há cerca de 20 anos, levou consigo uma bolsa francesa de um designer desconhecido, a restaurou e guarda com afeto até hoje. O arquivo continua crescendo por meio de novas buscas e aquisições ou de doações.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Apesar de a casa não estar aberta para visitação pública, a colecionadora tem paixão em compartilhar suas técnicas de restauração com pesquisadores, estilistas, curadores e alunos de moda. Durante a visita, pessoalmente e com muito orgulho, Paquita mostra cada setor. Até as roupas íntimas têm um espaço dedicado e são extremamente bem cuidadas e catalogadas.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

O prazer no garimpo está também na paixão por buscar o tecido perfeito e idêntico ao do original para a restauração. “Quando não encontro na mesma cor, tinjo a peça”, celebra. A restauração é feita 100% à mão, outro enfoque do trabalho meticuloso da colecionadora. Seu ateliê não tem máquinas de costura. Esta é a grande habilidade dela, cuja paixão é repassada aos discípulos.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Além de cuidar da restauração, Paquita exibe, com orgulho, parte da coleção, com sua própria curadoria, em impecáveis mostras temáticas temporárias (1920, Entrando, na Era Moderna, os anos 60 da Pucci, os Anos 50 da Dior), a retrospectiva da carreira completa de Oscar de La Renta, bem como Frederick Worth e a coleção: A Century 1890-1990). A ideia, agora, é atrair mais gente, inclusive a atenção do governo, para que o Parodi se transforme em um museu de verdade, já que não há nada nesse estilo em Miami. “Seria o ideal. Não quero que isso se perca no tempo, quero que mais gente tenha acesso às diferentes épocas da história da moda”, pontua. Hoje, o acesso ainda é restrito a amigos, convidados e estudiosos.

A história de Paquita

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Nascida em Madri, Espanha, Paquita passou a infância navegando pelas lojas de antiguidades do distrito El Rastro, onde descobriu a riqueza de padrões da filigrana presentes nas roupas de renda da era eduardiana e nas peças de crochê irlandês. Sua obsessão inicial com desenhos geométricos experimentados em tecidos reapareceu durante o curso de Belas Artes, onde aprofundou seu conhecimento dos estilos mourisco e islâmico em Arte e Arquitetura.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Na década de 1960, começou a usar roupas vintage, que ecoavam seus próprios designs em cerâmica como um amuleto de boa sorte durante as aberturas de suas exposições. Essa prática logo se transformou em uma pequena coleção pessoal e, junto com ela, os desafios da conservação. A pequena costureira ressurgiu como uma bela artista que se reinventou em colecionadora, curadora e restauradora da história da moda. Paquita deixou Madrid com sua família em 1960, para Caracas, Venezuela, a caminho dos Estados Unidos. Em Caracas, ela conheceu Gonzalo Parodi, um italiano, com quem se casou.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Após algumas mudanças entre Miami, Caracas e Madri, um casal de filhos, e estúdios particulares onde ensinou conservação e restauração, a família mudou-se permanentemente para Miami em 1994. Em 2012, Paquita decidiu dar uma dimensão pública à sua coleção a fim de promover a discussão, pesquisa, educação e conservação da história da moda. Para isso, em 2012-2013, foi criado um arquivo digital da coleção e, em 2015, um novo laboratório de conservação com espaço de exposição foi concluído.

A sede

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

Desde 2015, o museu ocupa dois edifícios em um terreno de 1115 m² em Miami e inclui um maravilhoso jardim zen. Um dos edifícios é dedicado à conservação e armazenamento das peças e o outro, de dois andares, as salas de exposição. Foi originalmente construído em 1919, ano de criação da Bauhaus. Por este motivo, quando restaurado, homenageou o estilo em sua arquitetura, comemorando o modernismo e o papel das mulheres designers na Bauhaus – como Gunta Stolzl, Otti Berger, Benita Koch-Otte, Anni Albers, etc.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação

As áreas internas e a biblioteca exibem obras de artistas contemporâneas, que usam materiais relacionados à moda em seu trabalho: Doris Salcedo, Gego, Anna Maria Maiolino e Lygia Clark. Essas obras pertencem à coleção da família Parodi e são substituídas a cada três meses por obras de outras artistas mulheres, como Manon De Boer e Regina Silveira. Impressionantes livros de moda estão à disposição dos visitantes na biblioteca do espaço e, com orgulho, Paquita exibe um dos vestidos da Lanvin de sua coleção que está em destaque no livro “Robe de Style”.

Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação - Foto: Divulgação
Coleção pessoal: Parodi Costume Collection. Visitas sob consulta e aprovação – Foto: Divulgação