Desfile da coleção de Karl Lagerfeld para Riachuelo, na edição passada do SPFW. A primeira experiência de de see now, buy now do evento - Foto: Agência Fotosite
Desfile da coleção de Karl Lagerfeld para Riachuelo, na edição passada do SPFW. A primeira experiência de de see now, buy now do evento – Foto: Agência Fotosite

Por Luigi Torre

Quem gosta de acompanhar as semanas de moda sabe bem que os ventos de mudanças se intensificaram na mais recente temporada internacional. O see now,buy now, que já vinha sendo discutido desde o começo do ano, finalmente foi posto em prática (a capa desta Bazaar, inclusive, é fruto do novo sistema, já adotado pela Burberry). Só para situar, trata-se de estratégia para colocar à venda, momentos após o desfile, tudo aquilo que acaba de cruzar a passarela. E, a partir de 25 de outubro, é a vez da nossa própria fashion week dar mais um passo rumo às novidades imediatistas. “Moda é um processo vivo, dinâmico, e suas mudanças surgem todo dia”, diz Paulo Borges, sobre as alterações no SPFW. “O fato é que, há algumas temporadas, já estamos vendo isso acontecer. A cada edição, coleções são vendidas mais rapidamente, o que tem feito grifes e estilistas mudarem suas estratégias, aproveitarem o momento e experimentarem novas práticas com seus clientes.”

A grande transformação será só em 2017, quando o SPFW mudará para fevereiro e julho (atualmente, é realizado em abril e novembro). Mas, segundo Paulo, nesta 42ª edição já teremos várias coleções disponíveis quase imediatamente ao consumidor.“O mundo como um todo está vivendo um momento de transição”, continua ele, sobre o caráter transi- tório de seu evento nesta temporada.“Há tempos a moda vem revendo suas práticas e processos, procurando absorver, da melhor maneira, as mudanças de comportamento, que, de forma geral, impõem uma atenção cada vez maior ao consumidor final.” Daí o tema a ser trabalhado nesta estação: SPFWN42TRANS – “Queremos pautar uma discussão mais ampla para o mercado daquilo que está e estará na cabeça de todos nos próximos meses e anos. O futuro agora é de curto prazo. Essa visão de construção do futuro se dá olhando para mais perto, de forma mais real.”

Proximidade é palavra-chave neste momento. Desde que passamos a ver, entender, desejar e consumir moda pelas telas de nossos gadgets, a relação marca-consumidor tornou-se de máxima intimidade. Foi devido às mudanças trazidas pelas mídias digitais que começamos a não tolerar os meses de espera entre um desfile e o momento em que podemos comprar os itens de nossas wish lists.“O fato é que todo esse processo se dá diante do empoderamento do consumidor. Nesses últimos anos, por meio das redes sociais, o mercado tem pro- curado se adaptar aos novos tempos, ditados por essa capacidade de ver tudo muito rápido e simultaneamente.”

As mudanças, como explica Paulo, são mais operacionais do que estéticas. Poderão ser sentidas, por exemplo, nas novas locações do evento, que se dividirá entre uma tenda no Parque Ibirapuera, reservada aos desfiles, e o shopping Iguatemi, que além das apresentações,terá uma programação paralela com workshops, palestras, festas e exibição de filmes que marcaram a história com seus figurinos.“O Iguatemi, assim como nossos principais parceiros, participa das nossas discussões estratégicas, e trocamos sempre nossas impressões e direcionamentos”, diz ele.“Sem dúvida, neste momento, a grande discussão que se trava na moda tem a ver diretamente com o varejo. O acesso imediato das informações nas mãos do consumidor aumenta o protagonismo deste e, sem dúvida, torna essa relação e parceria mais sinérgica e estreita.”

Se funciona para todo mundo? “Cada marca deve ficar atenta às suas necessidades, ao seu modelo de negócio e, principalmente, ao seu consumidor”, aconselha Paulo. “Essa distância mudou e encurtou. Caso a caso, cada um fará um pouco do seu jeito, à sua necessidade, e isso é o mais importante.” Segundo ele, a produção não deve se alterar tanto.A diferença será mais na data em que as roupas serão apresentadas ao público – este cada vez mais composto por consumidores e não apenas compradores e imprensa.“Voltamos para o formato em que nasceu o SPFW, com suas datas próximas ao varejo”, relembra Paulo.“A grande mudança está nisso e, claro, no aproveitamento das novas tecnologias que favorecem a grande divulgação da informação, criando um desejo de moda mais imediato.” Já do ponto de vista da imagem de moda, veremos desfiles mais precisos, mais focados nas vontades do momento.