Poiret - Foto: Divulgação
Poiret – Foto: Divulgação

O revival de antigas marcas parece ser um dos temas recorrentes da cena fashion atual. Falta de talentos criativos ou apego ao storytelling fácil dessas belas adormecidas? O fato é que elas vêm e vão, muitas vezes sem garantia de sucesso.

A começar pelo costureiro francês Paul Poiret (1879-1944), intitulado “o magnífico” pela América do começo do século 20, foi um dos primeiros a revolucionar o diktat da época, acabando com os opressores espartilhos. Vanguardista e liberador dos bons costumes, Poiret fundou sua marca em 1903, para inventar a silhueta vague, vestidos fluidos de cintura alta e saia até os tornozelos, além da famosa saia-calça.

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Poiret - Foto: Divulgação
Poiret – Foto: Divulgação

Fechada em 1929, a maison reaparece 90 anos mais tarde, sob a tutela do gigante de distribuição coreano Shinsegae e comandada pela CEO belga Anne Chapelle. À frente da criação está a franco-chinesa Yiqing Yin.

“Comecei do zero, primeiro pelas equipes. Quando olho para trás, me dou conta de que não existia absolutamente nada”, conta a estilista. “Mergulhei nos arquivos, documentos, além de visitas a museus como o Metropolitan, Musée des Arts Décoratifs e Palais Galliera”, relembra.

Os fundamentos que a marca promovia no passado ainda são muito importantes nos dias de hoje. “Liberar a mulher do espartilho foi também a libertação do espírito e do imaginário feminino da época, ainda muito questionáveis atualmente”, acrescenta.

Poiret - Foto: Divulgação
Poiret – Foto: Divulgação

A primeira coleção da estilista à frente da etiqueta centenária aconteceu em março. Uma sensualidade sutil, com silhuetas oversized, ricas em estampas e inovações nos tecidos, tomou conta da passarela. A Poiret ainda não tem loja própria, está à venda em multimarcas. Um teste para ver se a tacada dará certo? É o que veremos no próximo ano, quando a marca promete lançar uma linha de cosméticos e apostar em collabs.

Um outro mito do começo do século 20 é o francês Jean Patou (1887-1936), o primeiro costureiro a enxergar a mulher como consumidora de trajes esportivos. Ele fundou a marca homônima em 1910, quando já mostrava a inclinação por looks fáceis e leves – muitas vezes em comprimento mídi – para o dia e mais trabalhados, com plissados e bordados, para a noite.

Em 1921, ele deu liberdade à jogadora de tênis Suzanne Lenglen, criando o conjuntinho de saia plissada e suéter sem mangas, além de faixa no cabelo. Revolução para a época, ele também vestia as cantoras e dançarinas Mistinguett e Joséphine Baker, sendo ainda precursor da logomania.

Jean Patou - Foto: Divulgação
Jean Patou – Foto: Divulgação

Adormecida há 31 anos, a maison foi despertada, há alguns meses, a partir da venda majoritária de suas ações para a LVMH. Por enquanto, a Jean Patou permanece no anonimato, a não ser pelo anúncio de seu novo diretor artístico, Guillaume Henry, ex-Nina Ricci e Carven.

Fará ele uma releitura fiel desse personagem extravagante da moda, com seus desfiles com mais de 200 looks, convidados circulando entre bandejas de foie gras e taças de champanhe, presenteados com cigarros cor-de-rosa?

Rudi Gernreich - Foto: Divulgação
Rudi Gernreich – Foto: Divulgação

Politicamente incorreto nos dias de hoje… Um nome mais recente, mas com a mesma vontade de mexer nos códigos de conduta, ajuda a movimentar a cena dos revivals: o do austríaco Rudi Gernreich (1922-1985). O designer, naturalizado americano após escapar do nazismo ainda criança, inovou a cena fashion ao lançar o monoquíni – maiô com os seios à mostra -, dando origem ao topless alguns anos depois.

Sua marca, lançada em 1952, foi considerada moderna e rebelde para a época. Muitas das tendências que conhecemos hoje, como color blocking, mistura de estampas e beachwear com recortes, Rudi fez primeiro. Trinta e três anos após sua morte, sua marca está de volta às prateleiras da 10 Corso Como, Opening Ceremony e Communitie Marfa, além do site da label.

Graças ao novo CEO, Matthias Kind, que vem de um background nas artes, e às designers Camilla Nickerson e Neville Wakefield, a nova coleção de Rudi Gernreich reaparece numa época em que o feminismo e as denúncias de abuso sexual vão de vento em popa.

“Existe certa urgência em redescobrir algo novo na moda. As roupas precisam refletir o zeitgeist e Rudi fez isso de um jeito engajado e divertido. Trouxe à tona a discussão sobre mudança, liberdade e igualdade de sexos, tornando os temas não apenas desejáveis, mas palpáveis”, diz Matthias. “Acreditamos que essa geração é a primeira que pode realmente entender os princípios de Rudi e suas visões futuristas.” Prova de que o passado nunca esteve tão presente.

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