Por Silvana Holzsmeister

Karl Lagerfeld em ação - Foto: Divulgação
Karl Lagerfeld em ação – Foto: Divulgação

QUANDO Karl Lagerfeld começou a colaborar com a Fendi, em 1965, impôs uma missão: revolucionar o uso da principal matéria-prima da marca italiana para transformar roupas e acessórios em indiscutíveis produtos de moda. Desafio aceito, ele passou a reinterpretar a pele como se fosse qualquer outro tecido luxuoso. Nascia o conceito de fun furs, traduzido no F duplo que virou a cara da grife.

Corta para julho deste ano, quando o diretor criativo introduziu um novo capítulo ao minucioso trabalho dos ateliês,ao criar flores e confetes tão coloridos quanto sua caixa de crayons e que, de longe, mais parecem uma tela do pós-impressionismo. “Nesta coleção, a inspiração era sonhar com flores de outro mundo, de onde emerge uma beleza estranha e etérea num jardim verdejante”, conta Lagerfeld à Bazaar. Para transformá-la em realidade, foi criada uma verdadeira força-tarefa envolvendo o ateliê da marca, em Roma, e o parisiense Lemarié, ambos famosos pelo ultrassofisticado trabalho manual. Foram cerca de 500 horas de dedicação para criar campos floridos de vison, organza de seda e penas em efeito tridimensional, como no vestido burgundy de Lexi Boling, que abriu o desfile de Haute Fourrure Collection Inverno 2017/18, no ambiente art déco do Théâtre des Champs-Élysées.

Coleção da Fendi - Foto: Divulgação
Coleção da Fendi – Foto: Divulgação

Seguindo o preciosismo dessa primeira sequência entrava em cena o vestido cocoon, inteiramente coberto com confetes, formando uma paisagem “pixelada”, que recorda o pontilhismo. Lagerfeld conta que foram usados 10 mil recortes minúsculos de mink em 22 cores diferentes no mosaico costurado à mão sobre uma base de tecido extremamente delicado. Esse processo minucioso dá ideia do nível de rigor e sofisticação das oficinas comandadas pela marca.“É um ateliê único.Artesãos treinados internamente estão aqui há mais de 30 anos, e trabalham ao lado de uma nova geração, garantindo a continuidade do domínio artesanal”, explica o kaiser.

Técnicas meticulosas aparecem,ainda,na renda de couro,no jacquard texturizado e em intársias formando desenhos sutis. É preciso observar atentamente para decifrar o material, como numa pelerine salpicada de tufos de pele formando uma renda etérea. Touché! Não foi sempre essa a intenção de Lagerfeld? Ele explica que, para colocar em prática esse exercício, foi preciso ir além do Palazzo della Civiltà – o prédio de 1940, conhecido como Coliseu Quadrado, foi transformado em sede em 2015, quando a Fendi completou 90 anos,e abriga boa parte dos artesãos da marca.

Foto: Divulgação
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Há o ateliê e escola de couro e peles Scuola di Pelletteria, em Bagno a Ripoli,região daToscana,e,em Casperia – cidadezinha com pouco mais de mil habitantes na região de Rieti –, a marca é parceira da Accademia di Sartoria Maria Antonietta Massoli, que treina a próxima geração de costureiras e alfaiates de alto luxo.“Cultivamos, em todas as etapas, o que há de mais sofisticado em know-how local para criar os melhores produtos de luxo. É um savoir faire único”, destaca o diretor criativo.

Foto: Divulgação
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Já em 1926, quando a Fendi foi criada por Adele e Edoardo Fendi, estava no DNA da marca fugir do óbvio. Foi de Adele, por exemplo, a ideia de usar tiras de pele de cordeiro para criar bolsas macias e flexíveis quando modelos rígidos dominavam as vitrines. Já nos anos 1950, quando as cinco filhas do casal ingressaram na label, a inovação foi entrelaçar pele e fitas de veludo. Lagerfeld in- crementou essa fórmula a partir da década seguinte.

E a chegada de Silvia Venturini Fendi, em 1994, tratou de acrescentar ainda mais fôlego a esse propósito – quem não se lembra da Baguette, a primeira it-bag? A Haute Fourrure, transformada em desfile couture em 2015, sela com o símbolo máximo do luxo a herança cultural da Fendi sem perder de vista os caprichos da moda.