Gigi Hadid na passarela de Tom Ford - Foto: Agência Fotosite
Gigi Hadid na passarela de Tom Ford – Foto: Agência Fotosite

Por Luigi Torre

Podíamos começar com o desfile polêmico de Kanye West e sua Yeezy, mas não é bem o caso. Quem acompanha as semanas de moda sabe bem o quanto demora para aquilo que tanto desejamos na passarela – ou no nosso feed do Instagram – chegar às lojas. São, em média, seis meses. Até uns anos atrás, esse intervalo nunca incomodou ninguém. Pelo contrário, fazia bastante sentido, já que as marcas sempre precisaram de antecipação e planejamento para produzir e entregar o que foi comprado pelas lojas do mundo durante as fashion weeks. Corta para hoje – ou melhor, para quando nossas vidas passaram a ser mediadas pelas redes sociais. O que antes era restrito para alguns poucos convidados, imprensa e compradores, virou um acontecimento global. Todo mundo tem acesso ao que acontece nas salas de desfiles e backstages, via Twitter, Facebook, Instagram e Snapchat. E aí, a espera que antes era tranquila, ficou demorada demais.

Vivemos em tempos imediatos. É tudo para já. E como a moda é reflexo das nossas vontades (ou de uma sociedade em determinado contexto histórico), em fevereiro passado, Burberry, Tom Ford, Tommy Hilfiger, Vetements, Diane Von Furstenberg, Ralph Lauren e tantos outros anunciaram mudanças – a partir desta temporada. Nascia assim o see now, buy now, que, como o próprio nome indica, sugere a venda imediata (ou apenas horas depois) daquilo que é apresentado.

Na noite de quarta-feira (07/09), por exemplo, momentos após o desfile-jantar de Tom Ford, em Nova York, suas roupas – todas elas, não só uma pequena seleção – já estavam à venda em suas lojas, e-commerce e multimarcas. Isso só foi possível porque, enquanto as demais grifes realizam seus desfiles como de costume, no início do ano, o estilista apresentou sua coleção de inverno 2016 apenas para compradores. Fator surpresa garantido.

Quanto às roupas, elas seguem a estética que Ford vem lapidando e adaptando desde sua saída da Gucci. A seu legado sexy e glamouroso agora se somam referências do estilo americano, uma certa ostentação luxuosa na medida, algo nostálgico, ainda que atual. Os anos 70 são imperativos e dão o tom da coleção. Na porção mais diurna, saias de veludo ou couro logo abaixo do joelho, blusa soltinha acinturada por cintos tipo harness, jaquetas com ombros levemente marcados, maxicolares e arremates dourados. Para noite, longos esguios de gola alta em preto e branco ou versões disco, cobertas de plumas e paetês. E para quem acha tudo meio “luxo antigo”, não custa lembrar que o público alvo aqui definitivamente não são os millenials.

E aí voltamos à questão que dá título a esse post. Em tempos imediatistas, quem dá as cartas, mais do que nunca, são os consumidores. Com livre acesso à informação (obrigado, internet), o diálogo entre marca e cliente é direto. O que explica um pouco do sucesso da incursão fashion de Kanye West, mesmo a contragosto de players mais conservadores do metier. No quarto desfile de sua marca Yeezy (feita em parceria com a Adidas), as redes sociais foram tomadas por comentários revoltados de jornalistas e editores que tiveram que passar cerca de 1h num ônibus rumo ao desfile, mais 45min esperado a abertura do espaço e mais outra hora até o começo oficial da apresentação (teve ainda desmaio de modelo na performance, sol a pino e um calor mortal).

Kendall Jenner, Kim Kardashian e Kylie Jenner - Foto: Getty Images
Kendall Jenner, Kim Kardashian e Kylie Jenner – Foto: Getty Images

Tudo isso para ver roupas, convenhamos, bem corretas para o aqui e agora: aquele mix de streetwear deluxe, com jaquetas e moletons oversized, parkas esportivas e vestidos de tricô sexy-práticos — qualquer semelhança com os looks de Kim Kardashian não é mera coincidência. Agrega algo de novo nosso repertório? Não, é verdade. Mas embaladas por discursos de inclusão racial, por toda uma atitude de rua/real tão desejável no momento, por preços não exorbitantes, mais apoio de boa parte da indústria pop, reverberam com sucesso entre aqueles que mantém a máquina girando.

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