Ponto Firme, verão 2020 - Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 – Foto: Nicolau Spadoni

O Projeto Ponto Firme apresentou sua coleção de verão 2020 no SPFWN47 e emocionou os fashionistas com suas peças. A maestria do trabalho em crochê enriqueceu o evento paulistano, provando a necessidade que ainda temos em apostar no feito à mão. O artesanal e a precisão de cada look desfilado na passarela proporcionam força para o universo da moda.

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Ainda mais com todo o conceito do projeto e seus artesãos. São os detentos e ex-detentos da Penitenciária II Desembargador Adriano Marrey quem produzem as peças coordenadas por Gustavo Silvestre. A penitenciária fica em Guarulhos, e é apenas masculina.

“Chegou um momento que a moda convencional não fazia mais tanto sentido para mim. E aí surgiu o crochê na minha vida. Foi algo meio natural, e ele foi deixando só as relações humanas, a beleza da ancestralidade e o poder do feito à mão”, conta o designer.

O estilista procurava por outras técnica, e queria fazer algo contrário ao fast fashion. Então a técnica do crochê apareceu dentro da questão do slow fashion e do artesanal, aspectos da moda pelo qual Gustavo sempre foi apaixonado e que sempre existiram em suas criações.

Nessa fase da sua vida, surgiu a proposta de dar aula na penitenciária em Guarulhos. Alguns dos detentos já sabiam fazer o crochê, mas tinham pouco repertório para desenvolver o trabalho. “Eu achava que seria só um workshop, desses que eu do por aí, no Sesc, no Senac… e quando eu cheguei lá, me deparei com aquela situação do cárcere, de ver aquelas pessoas muito empolgadas e muito envolvidas com o curso. Então fui ficando, o projeto foi crescendo, mais alunos foram entrando na oficina e eles foram aprendendo”, resume Silvestre sobre sua surpresa ao entender que aquelas aulas teriam futuro.

Ponto Firme, verão 2020 - Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 – Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 - Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 – Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 - Foto: Nicolau Spadoni
Ponto Firme, verão 2020 – Foto: Nicolau Spadoni

Empolgado e animado com seu trabalho, Gustavo contou como percebeu a vontade de seus alunos em se empenhar naquele projeto: “No primeiro dia em que eu fui dar aula, um aluno levantou a mão e perguntou: ‘Professor, o que já fizeram no mundo de crochê que está no Guiness Book?”. Nessa pergunta o estilista enxergou a vontade de crescer. “Naquele primeiro dia, essa pergunta mudou a minha vida”.

Sobre o processo de criação, o estilista disse que tudo é feito lá dentro da penitenciária. Existem cinco ex-detentos que já cumpriram sua pena e, assim, o ajudam com o projeto em liberdade. “Os que estão agora em liberdade possuem muita força. Porque agora eles têm mais tempo disponível para trabalhar”, comentou Gustavo.

Penitenciária II Desembargador Adriano Marrey - Foto: Reprodução/Instagram
Penitenciária II Desembargador Adriano Marrey – Foto: Reprodução/Instagram

É importante que todos que participam do Ponto Firme vejam o resultado final. Por isso, Gustavo organiza uma edição de desfile dentro da penitenciária, com direito a modelos, maquiagem e passarela. “É lindo, porque as famílias dos detentos são convidadas, e eles podem realizar esse sonho, não é? Eles podem ver que o trabalho deles tem um resultado e um resultado incrível”, fala o estilista sobre a apresentação final. E neste mês de maio, o verão 2020 será desfilado na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey.

“A moda precisa disso. Quando eles começaram a fazer roupa, pensei ‘só tem um jeito de mostrar essa roupa’. Com desfile, com modelos! O SPFW é uma ótima oportunidade para apresentar tudo isso para o mundo”, comenta Gustavo Silvestre sobre o evento.

Silvestre também agradece a penitenciária, que abriu as portas para o projeto: “foi inexplicável, porque não é um ambiente para isso. Mas essa penitenciaria em especial já tinha um processo mais artístico, de teatro, de música, com processos mais humanos. E foi o que permitiu ter essa flexibilidade, de levar algo inédito, para dentro de uma penitenciaria masculina”.

Depois de entrarem em um acordo, os detentos decidiram que o lucro dessas peças serão divididos entre os membros do projeto que estão em liberdade, por igual.

Sobre toda experiência, Gustavo diz: “eu fico muito feliz de poder ser essa ponte. Porque eles estão fazendo coisas bonitas e alguém precisa levar, trazer, ensinar, e mostrar para as pessoas. O SPFW é um lugar em que todas as pessoas podem ter contato com esse trabalh”.

Para o futuro, o estilista pensa em como ressocializar seus alunos em liberdade. “Como gerar renda, como será essa primeira etapa, para a construção de uma vida. Eu não quero que eles fiquem aqui comigo, quero que cuidem dos projetos pessoas e dos sonhos de vida. Quero que o crochê sirva como uma ponte para esse primeiro momento e que ajude eles a trilharem esse caminho,” encerra.

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