A modelo Edie Campbell - Foto:Linda Brownlee/ reprodução
A modelo Edie Campbell – Foto:Linda Brownlee/ reprodução

Por Edie Campbell

A crítica mais frequente dirigida à moda e a seus discípulos é a da superficialidade. Para defender a moda dessa acusação, créticos e criadores acrescentam dimensões intelectuais, históricas e políticas à nossa maneira de vestir o corpo. Dessa maneira, começamos a nos distanciar da imagem de beleza superficial e seguir rumo à ideia de que as roupas têm o poder de causar impacto – ou, pelo menos, de tecer comentários – sobre questões sociais reais, bem como de levar a mudanças pessoais. O desejo de dar profundidade ao fascínio, usando história e política, parece ter surtido efeitos particularmente intensos na moda britânica, no trabalho de Alexander McQueen, John Galliano, Hussein Chalayan e Vivienne Westwood, entre outros.

As coleções de verão 2014 estão repletas de exemplos dessa tendência, e os observadores falaram na utilização do “DNA da marca” e de seus acervos. Houve perguntas do tipo “como se desenvolveu o trabalho do estilista?” ou “ele está assimilando o zeitgeist?” ou “como a coleção trata as questões de gênero?” ou “…de raça?”. E, assim, o debate avança, surgem as polêmicas, e a moda se torna relevante, necessária, potente e – mais importante – deixa de ser superficial.Mas por que temos de insistir em dizer que a moda tem profundidade, relevância ou algum tipo de objetivo? Será que a beleza superficial não pode ser tão significativa e importante quanto a moda sustentada por história ou política?

A top em sua casa, em Londres - Foto:Linda Brownlee/ reprodução
A top em sua casa, em Londres – Foto:Linda Brownlee/ reprodução

Na condição de modelo – de uma modelo com história acadêmica –, acredito na intelectualização da moda. Entretanto, nos bastidores de um desfile quase não há tempo ou desejo de discutir a coleção com maior profundidade. Por isso, qualquer reação intelectual ou esotérica à coleção é impossível nesse momento; a essa altura, as roupas estão despidas de significado. As modelos jamais usam as peças por mais do que uma hora, e num único dia trocamos de roupa várias vezes. Em um desfile, a natureza superficial das roupas é enfatizada; elas são tiradas com a mesma velocidade com que as vestimos, e as modelos passam boa parte do tempo de calcinha, em pé, esperando para serem vestidas – para que sua superfície seja adornada.

Mas as melhores roupas se sobressaem. Elas fazem mais do que simplesmente ficar sobre a pele, como um objeto inanimado. E, ao fazê-lo, operam uma transformação bem mais profunda sobre a pessoa que as veste. Durante a semana de moda de Paris para o inverno 2014, houve dois momentos de transformação particularmente memoráveis.O primeiro ocorreu no desfile da Saint Laurent. As coleções de Hedi Slimane para a marca quase sempre são avaliadas em relação a Yves Saint Laurent, a seu parceiro Pierre Bergé, à história e aos arquivos da casa, ao trabalho de Slimane na Dior Homme e ao interesse do estilista por música e contracultura. Críticos e jornalistas parecem ter a necessidade de colocar o trabalho do estilista num contexto mais amplo, de avaliar sua relevância – e tudo indica que, com frequência, o trabalho de Slimane deixa todos paralisados. Um jornalista de moda disse não ter entendido o objetivo da coleção de Slimane nesta temporada.Talvez, porém, não seja preciso ter um objetivo. Sou modelo e, para mim, o objetivo é simples: quero ser aquela mulher, e essas coleções me fazem sentir como ela. Elas me transformam: me sinto poderosa, carismática, intrigante, sexy sem ser prosaica.

Foto:Linda Brownlee/ reprodução
Foto:Linda Brownlee/ reprodução

O simples ato de adornar minha superfície causa uma mudança potente e profunda na maneira como me vejo. Isso não deve ser tomado como uma confissão de que o valor que dou a mim mesma depende da minha aparência externa, e, sim, de que a profundidade pode depender mais da nossa superfície do que gostaríamos de admitir. Talvez, para encontrar um objetivo,não seja necessário ir além desse tipo de reação primitiva ou instintiva às roupas – e talvez fosse melhor permitir que as roupas preservassem sua função fundamental a de enfeite.

A roupa que usei para o desfile de despedida de Marc Jacobs para a LouisVuitton era puro enfeite:nada de panos, apenas tinta, purpurina e cristais, com um imenso enfeite de cabeça feito de penas, criado por Stephen Jones. O adorno do corpo se transformou no tema principal; em vez de fazer com que eu me sentisse nua, bastou para me vestir. Não sou exibicionista nem tampouco uma atriz nata. De alguma forma, porém, o adorno (com seus detalhes e sua beleza) foi suficiente para me vestir e me transformar – dessa vez, numa showgirl.

Nesse contexto, a história da Roupa Nova do Rei parece especialmente pertinente. À semelhança da criança na multidão, responsável por finalmente dizer que o rei está nu, será que devemos confessar que, a rigor, eu estava nua? Ou devemos nos deixar levar pelo show, nos sentir emocionados sem a necessidade de questionar ou intelectualizar? Evidentemente, essas duas formas – mente X emoção – não são excludentes e, com frequência, caminham de mãos dadas. Mas a natureza superficial da moda não deve ser diminuí da na tentativa de arrastá-la para o território de grande arte. As roupas não podem se dissociar do corpo que enfeitam, e nossa reação a elas pode muito bem ser emocional ou instintiva. Nos comentários sobre seu desfile, Marc Jacobs escreveu: “Quando olho em volta em Paris, o que me deixa sem fôlego não é a profundidade da cidade; o que ofusca é a decoração. A questão não é pensar, é sentir.Talvez essa seja a sensação mais profunda que existe”.

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