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Quimonomania: conheça o projeto A + Arteira

Seguindo movimento iniciado entre jovens japoneses, os trajes vintage ganham as ruas fora do contexto tradicional. Cintia Zullino capta a tendência em sua nova empreitada

by Silvana Holzmeister
Cintia Zullino com manto de casamento uchikake, de 1890  - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Cintia Zullino com manto de casamento uchikake, de 1890 – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Cintia Zullino sempre foi meio arteira desde criança. Inquieta, está em uma fase de criatividade à flor da pele e com antenas conectadas com o mundo. Não à toa, a internet é a janela que possibilita fazer descobertas do outro lado do planeta. Foi assim que o que ela mais ama fazer virou business: garimpar antiguidades. Entre elas, quimonos orientais e obis confeccionados nos dois últimos séculos. Ela tem vários no closet.

A sacada foi transformar em negócio seu hábito de trazer as peças vintage para o dia a dia, incorporadas aos mais diversos looks urbanos. Formada em design gráfico na The Art Institute, em Fort Lauderdale, ela é dona de uma personalidade exuberante e chique, expressa tanto no visual quanto na decoração da casa.

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Quimono feminino formal, furisode, usado com obi de algodão sobre vestido - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Quimono feminino formal, furisode, usado com obi de algodão sobre vestido – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

A sintonia é tão estreita que os dois mais suntuosos entre os mais de 30 que vem selecionando, desde o ano passado, são perfeitos para dar um toque oriental à casa. “São uchikakes, casacos longos usados sobre quimonos de casamento”, explica.

Segundo ela, ambos foram confeccionados no final do século 19. “Por causa dos bordados, são extremamente pesados, o que torna seu uso bem mais difícil. Por isso, os considero obras de arte”, diz Cintia, que conseguiu um efeito deslumbrante na ambientação da sala de estar, dando a um deles status de escultura de parede.

Quimono japonês furisode, que tem mangas longas. Tradicionalmente, é o modelo mais formal usado por uma jovem solteira. Este faz parte do acervo da artista Cristina Sá - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Quimono japonês furisode, que tem mangas longas. Tradicionalmente, é o modelo mais formal usado por uma jovem solteira. Este faz parte do acervo da artista Cristina Sá – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Fazem parte, ainda, de seu acervo peças usadas em cerimônias mais simples, como a do chá, e versões leves, como as de verão, vindas do Japão, China e Malásia. “”O bacana é descontextualizar e incorporá-las ao visual próprio”, explica Cintia, que adora usar os seus sobre vestidos e outras roupas confortáveis. “Ficam lindos até mesmo com roupas esportivas, para ir e voltar da academia”, acrescenta.

Já os obis podem virar tops modernosos. Por isso, vale apostar na imaginação para criar laços e nós ou reproduzir amarrações orientais mais tradicionais. Encontrar novas maneiras de usar um quimono é movimento que está conquistando cada vez mais espaço entre jovens orientais desde o início do século 21, segundo artigo do museu londrino Victoria & Albert.

Biombo, peça em estilo furisode, o mais formal usado por uma mulher solteira - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Biombo, peça em estilo furisode, o mais formal usado por uma mulher solteira – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

O visual acabou conquistando também ocidentais. De quebra, contribui para resgatar a importância da peça, inclusive no Japão. Por lá, o quimono vinha sofrendo processo de desvalorização cultural desde o final da Segunda Guerra Mundial, por ser visto como símbolo do passado feudal do país e de opressão das mulheres.

Fora do contexto habitual, os quimonos viraram peças fashionistas. Atentas a esse renascimento, várias marcas têm incluído modelos nos mais diversos materiais em suas coleções. “Mas uma peça vintage é especial, tanto pelo tecido e trabalho manual quanto pela sua história”, defende Cintia, que ganhou o primeiro quimono do pai quando ainda era criança e começou a desenvolver, na adolescência, o apreço por roupas confortáveis e impactantes.

Silvia Furmanovich com modelo iromuji, dos anos 1930, utilizado na Cerimônia do Chá  - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Silvia Furmanovich com modelo iromuji, dos anos 1930, utilizado na Cerimônia do Chá – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

E ela não está sozinha. Várias amigas compartilham do mesmo gosto. A joalheira Silvia Furmanovich, que tem no closet vários exemplares comprados em viagens ao exterior, conta que adora usá-los como vestido longo, bem próximo da maneira tradicional, e complementa o visual com acessórios modernos. Entre os seus preferidos estão os yukatas, como são conhecidas as versões mais leves, perfeitas para os dias quentes de verão.

Marina Bueno usa quimono masculino chinês de seda adamascada, dos anos 1940, e saia de couro. No lugar do obi, cinto Off-White (acervo pessoal).  - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Marina Bueno usa quimono masculino chinês de seda adamascada, dos anos 1940, e saia de couro. No lugar do obi, cinto Off-White (acervo pessoal). – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

“O que me atrai são a estética e o corte perfeito”, diz ela, que está dando toque oriental à nova coleção de joias, com lançamento previsto para abril. “São maravilhosos. Dão ar descolado e elegante”, festeja Marina Bueno, que elege as “jaquetinhas” haori suas preferidas. “São mais fáceis de usar. Vão bem com shorts, calças e saias”, enumera, acrescentando que reserva os longos para a noite ou, se o momento pedir, como saída resort, sobre o biquíni. “Eles costumam ‘causar’”, diverte-se.

Atriz por formação, para ela quimono tem a ver com liberdade e expressão pessoal. “Remetem a uma sensação de fantasia, pois trazem um quê de mistério, elegância e sedução.”

Carol Cleto usa como vestido um quimono de casamento kakeshita, da década de 1950, que tem bainha ligeiramente acolchoada - Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Carol Cleto usa como vestido um quimono de casamento kakeshita, da década de 1950, que tem bainha ligeiramente acolchoada – Foto: Christian Maldonado, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Outra entusiasta é a artista Cristina Sá, que cedeu seu ateliê, Cré Sá, para as fotos da Bazaar. Com o garimpo que está longe de acabar e o suporte das amigas, Cintia acaba de inaugurar o projeto A + Arteira, que tem como canal de vendas principalmente o Instagram (@amaisarteira) e é desdobramento do seu outro perfil, @artanythingperiod, pelo qual comercializa objetos de arte, de design, joias e outras relíquias.

A meta é, em breve, apresentar criações próprias utilizando tecidos orientais vintage e o resultado de várias collabs. Já engatilhadas estão as parcerias com as empresárias Sandra Valente (leques europeus e orientais datados de 1780 a 1960) e Romina Habermann (quimonos assimétricos contemporâneos). Já com a estilista Fernanda de Goeye, a ideia é transformar obis em várias outras peças. Coisa de gente arteira.

Veja o making of do shooting em vídeo:

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