Por Sylvain Justum

A missão de Raf Simons era ingrata, convenhamos. Assumir o estilo de uma grife do porte da Dior, com toda a carga de expectativa criada depois da saída de John Galliano, precisando corresponder ao ansioso mundo da moda – incluindo aí, claro, a própria Maison, preocupada em virar a página manchada pelo imbróglio anterior, e a sempre afoita crítica especializada – e pegar, logo de cara, uma coleção Couture pela frente.

Justamente quando se esperava algo apoteótico, Simons preferiu o play safe. Seu début, no desfile de hoje de manhã, em Paris, foi discreto.

O belga escolheu a alfaiataria e silhuetas clássicas cinquentinha, com clara referência ao New Look, como cartão de visitas da nova fase, reacendendo, de quebra, o debate sobre o papel da alta-costura na moda hoje em dia.

As tendências do momento, normalmente destinadas ao prêt-à-porter, cruzaram a fronteira e se meteram na passarela – armada em um hotel da Avenue d’Iéna e não mais no Musée Rodin de outrora. Calças cigarretes, cinturinha marcada, (muitos) decotes tomara-que-caia, terninhos a go-go, casacos-vestidos, silhueta maximizada ou ampulheta, tudo o que você anda vendo (e lendo) por aí, enfim.

Não deixa de ser uma ousadia trazer tudo isso para o universo dito “de sonho” da alta-costura, e há de se reconhecer que os minivestidos abajur bordados, usados com calça de alfaiataria por baixo, são um sopro de modernidade no antes empoeirado repertório da grife.

Porque, afinal, com o que sonham as cerca de 30 clientes de Couture salpicadas pelo planeta? Com vestidos impossíveis de usar, que serão pendurados para todo o sempre no gigacloset de cada uma depois da primeira festa? Ou será que os looks mais práticos (mas não menos sofisticados) vistos esta manhã não se encaixam melhor no cenário global de hoje? Tem para todas. Sim, porque se Raf Simons abre o desfile com um singelo terninho preto, pontua também a apresentação com delicados vestidos de cintura marcada e saia armada que certamente aparecerão nos próximos red carpets.

O sonho da Dior, hoje, talvez esteja mais para agradar ao seleto grupo de compradoras –estreitando a transição para o mais lucrativo prêt-à-porter – do que para flashes em estrelas de Hollywood.