Por Luigi Torre

Enquanto o see now, buy now tomou conta dos assuntos nas semanas de moda de Nova York e Londres, em Milão a discussão foi um pouquinho diferente: entender, fidelizar e despertar desejo de compra nos millennials. Quem deixou isso claro foi ai Dolce & Gabbana, com uma primeira fila repleta de influencers, como Lucky Blue Smith, Luka Sabbat, Cameron Dallas e Sofia Richie, entre 15 outros. Na passarela, além das já conhecidas referências aos ícones da cultura italiana, dos shapes anos 50, das rendas e de um glamour à la Dolce Vita, o que chamou atenção foi uma renovada atitude jovem, com jeans superdecorados, jaquetas militares ou de toreador com perfume couture, camisetas de souvenir e acessórios luminosos.

A imagem lembra a Dolce & Gabbana de anos atrás, principalmente do fim dos anos 1990 e começo dos 2000, mas agora em contexto um tanto diferente. Se naquela época esse mix & match e opulência decorativa era tendência, agora é a forma como toda geração de consumidores busca dar cara própria ao que colocam no corpo. Identidade aqui é tudo. O que explica porque a Gucci de Alessandro Michele se tornou, em pouquíssimo tempo, uma das marcas mais influentes do momento. Basicamente, por perceber que hoje estilo próprio vale mais do que macrotendências.

Gótico, vintage, romântico, esportivo, geek, roqueiro, todos os estilos encontram espaço no mundo criativo da Gucci, de Michele. Mas se a cacofonia estética e pluralidade de referências já não causam espanto (pense em vestidos de festa à la anos 80, ao lado de looks quase religiosos, ternos 70’s, estampas renascentistas e até elementos de costumes orientais), o modo como o estilista faz tudo isso fazer sentido na passarela é o que dá frescor ao seu trabalho a cada nova coleção. Nesta, aliás, com um trabalho artesanal e de tecidos nobres ainda mais intenso, mas apresentado de maneira rápida e de fácil assimilação para consumidores mediados pelas telas de seus celulares.

Para quem está chegando agora, o termo millennial se refere mais a uma nova forma de pensar e entender o mundo do que a uma geração propriamente dita. Embora muito de seus membros tenham entre 18 e 35 anos, tem mais a ver com o jeito como esses indivíduos (e preste atenção nesta palavra, porque ela é essencial aqui) se enxergam e se relacionam com a sociedade em que vivem. É tudo sobre o modo como eles se firmam, se posicionam e comunicam em determinado contexto. De forma bem resumida, são atitudes e pensamentos baseados em seis princípios: presença social, conectividade, inovação, confiabilidade, propósito e acessibilidade.

Valores, convenhamos, nem sempre muito bem vistos e trabalhados pela moda – meio que sempre preferiu seus pequenos grupos, portas bem fechadas e discursos nem sempre tão alinhados aos de maior engajamento social como os de hoje em dia. Daí a dificuldade em se adequar aos novos tempos. Tarefa que ninguém soube exatamente como executar, sem abdicar totalmente de sua essência e história, mas que já se mostram promissoras para algumas marcas.

Melhor exemplo, talvez seja a Versace. Um ano após apresentar coleção superengajada, Donatella Versace retoma seu discurso feminista num verão quase todo baseado em alfaiataria e elementos esportivos – liberdade de movimento e praticidade são qualidades indispensáveis para a sobrevivência nos dias de hoje. “Este é um desfile para a mulher livre”, dizia a trilha. E que mulher é essa? Uma que combina seu terno com flatform, transforma sua parka de náilon em vestido e acessoriza seus conjuntos de tricô plissado com correntes de metal e bolsas cobertas de tachas. Sim, são roupas sexy para a mulher poderosa a qual a marca sempre se dirigiu. Mas agora esse poder vem menos do sexo e mais da auto-confiança.

Na Bottega Veneta, o diretor de criação Tomas Maier também aborda temas relevantes para o momento: igualdade. Embora aqui as peças sigam uma unidade maior do que em desfiles, como Gucci e Dolce Gabbana, as saias e calças amplas e de cintura alta, os casacos de couro nappa ou de avestruz, as jaquetas de seda com aparência de sarja e os tricôs superfinos e ajustados, servem mais como plataforma para a personalidade de quem os veste. São eles os protagonistas e não as roupas, dotadas de extrema discrição e simplicidade. Filosofia de design que a marca cinquentenária investe com muito sucesso. Ah, e agora com homens e mulheres de idades e perfis diferentes na mesma passarela.

De novo, questão de identidade. Acontece que, muito frequente, identidade se confunde com individualidade, o que, por sua vez, pode levar ao isolamento e alienação. É por aí que Miuccia Prada começa a narrativa de seu verão 2017. Uma coleção extremamente simples, composta de looks compostos por básicos revisitados (nunca mais de três peças numa mesma modelo). Junto com o desfile, telões suspensos sobre a passarela de metal exibiam fragmentos do curta Past Forward, de David O. Russel – pequenos clipes aleatórios em repetições de mulheres e homens em situações e cenário algo futurista, numa verdadeira colagem futurista.

Na passarela, a imagem não é retrô nem futurista. É ambos. Como que isolada do tempo e do espaço. Ao mesmo tempo em que recupera elementos históricos (tecidos, estampas, silhuetas e modelagens), também os projeta no futuro. Há uma constante sensação de déja-vu (alguns Pradismos voltam com força total, como os pijamas a estética ugly chic, e o minimalismo), sempre acompanhada do desconforto do novo e do desconhecido (ou pelo menos diferente). É como se a Miuccia aplicasse as ideias de deslocamento, fuga e viagem das coleções passadas, sobre o tempo. Ou então, como se aquela viajante tivesse, finalmente, encontrado seu destino e, a partir do passado, começasse a construir seu futuro.