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Rose Benedetti abre acervo de acessórios vintage Yves Saint Laurent

A coleção está sendo negociada com dois museus internacionais

by Silvana Holzmeister
 Rose usa top Egrey, colar com pedras e pulseira entrelaçada YSL, de 1982 - Foto: Christian Maldonado

Rose usa top Egrey, colar com pedras e pulseira entrelaçada YSL, de 1982 – Foto: Christian Maldonado

Com edição de moda Rodrigo Yaegashi

Era 1970, quando, depois de correr toda a Rua Augusta, onde se concentrava o comércio elegante de São Paulo, Rose Benedetti telefonou para a mãe para perguntar onde poderia comprar alicates próprios para bijuterias. Recebeu indicação do Rei das Tesouras, no Centro, onde talvez pudesse encontrar o que queria. Achou, comprou dois e seguiu para a Ladeira Porto Geral, para garimpar contas. Gastou o equivalente US$ 70, dos US$ 100 dados pelo marido, Ricardo Benedetti.

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A ideia era ter um hobbie, quem sabe vender algumas peças para as amigas, mas ela virou referência em bijuterias de luxo no País. Uma década depois, fabricava 7.500 peças por mês e comandava 7 lojas – ela chegou a ter 12 endereços pelo Brasil, incluindo franquias.

Até mesmo Yves Saint Laurent confiou no seu talento. “Hoje, olhando para trás, imagino como teria sido minha trajetória sem ele”, diz Rose sobre o estilista francês, um dos mais importantes nomes da moda mundial no século 20.

Pulseira vermelha e colar amarelo, ambos de tramas de vidro, e colar Triângulos, tudo YSL, de 1985 - Foto: Christian Maldonado

Pulseira vermelha e colar amarelo, ambos de tramas de vidro, e colar Triângulos, tudo YSL, de 1985 – Foto: Christian Maldonado

Em 1974, recebeu, direto de Paris, o convite para reproduzir, no Brasil, as famosas bijoux YSL. “Tudo era feito aqui. Comprava as originais e fazia idêntico, pagando royalties”, recorda. Esse formato lhe rendeu um acervo de quase 400 peças originais, de coleções icônicas, que ela começa a compartilhar.

Entre os interessados estão o Musée Yves Saint Laurent Paris e o The Metropolitan Museum of Art. Ambos os acordos estão em negociação. “Ofereci meu acervo para a curadoria do YSL, que deverá escolher algumas peças para a unidade de Marrakesh”, explica Rose, sem esconder a felicidade.

Já o MET está interessado em réplicas, para serem vendidas na loja do museu. “Em setembro, viajo para Nova York para conversarmos pessoalmente.” Além deles, conta que já presenteou netas e noras, e tem disponibilizado pequenos lotes em vendas especiais.

Conjunto de pulseiras em resina e anel Rose Benedetti - Foto: Christian Maldonado

Conjunto de pulseiras em resina e anel Rose Benedetti – Foto: Christian Maldonado

Já foram dois eventos, disputadíssimos. Neste mês de junho, faz o terceiro happening, na feira Sala de Visita, em São Paulo; em outubro, participa da feira A Current Affair, no Brooklyn, em Nova York. De tudo que colecionou, entretanto, não abre mão das bijuterias de moeda da coleção “Le Maroc de Delacroix” (1978) e os corações em filigrana de 1980, mesma época em que Saint Laurent e Pierre Bergé compravam a Villa Oasis e o jardim Majorelle, em Marrakesh. “São as minhas preferidas”, conta ela, rodeada de acessórios, fotos e livros, no escritório montado em um dos quartos do seu apartamento, nos Jardins.

É de lá que ela continua conectada ao mercado. Desde que fechou a última loja, no shopping Ibirapuera, há três anos, tem feito linhas especiais, a exemplo da Rose Benedetti para Gregory, além de coleções para várias marcas, como MOB e Le Soleil D’Eté, e de consultoria para novas marcas.

Em quase 50 anos de carreira, Rose acumulou desafios e méritos de desbravar um universo da moda que não existia no Brasil. Desde sempre apaixonada pelas criações de Coco Chanel, a primeira a perceber o potencial das bijuterias de luxo e a decretar que as joias deveriam ser guardadas para momentos especiais, e Yves Saint Laurent, ela conta que, quando começou, só havia bijoux na Casa Sloper.

Rose usa top e calça Egrey, colar YSL, de 1982, pulseiras e anel Rose Benedetti - Foto: Christian Maldonato

Rose usa top e calça Egrey, colar YSL, de 1982, pulseiras e anel Rose Benedetti – Foto: Christian Maldonato

Mesmo assim, eram peças bem simples. Damas da sociedade preferiam opções preciosas. Foi por isso que, quando apareceu em uma festa usando um brinco de sua autoria, despertou a atenção das amigas. No mesmo dia, vendeu um igual para Mariana Trussardi Pauline.

Nessa fase, ela morava em um sobrado na Alameda Lorena, e passou a receber várias encomendas para fazer réplicas de joias, que pudessem ser levadas em total segurança em viagens. Com os dois filhos pequenos, ela passava horas torcendo arames. Mas estava radiante.

Quando era solteira, o pai, Fuad José Gebara, dono da antiga empresa têxtil Santa Catarina, não a deixava trabalhar. Agora, via seu talento ser reconhecido e podia cuidar, ao mesmo tempo, das crianças.

Conjunto de colares YSL, de 1981 - Foto: Christian Maldonato

Conjunto de colares YSL, de 1981 – Foto: Christian Maldonato

Seu primeiro grande momento foi quando Clodovil, que ela conhecia desde os 14 anos e já havia assinado vários de seus vestidos, inclusive o de noiva, a convidou para arrematar com suas criações a nova coleção, que seria desfilada em breve.

Rose relembra que passou bastante tempo desenvolvendo peças que combinassem com cada um dos looks. Ao final do show, Clodovil lhe deu o crédito e duas poderosas editoras foram ao camarim à sua procura. Eram Costanza Pascolato, da “Claudia”, e Regina Guerreiro, da “Vogue”, que pertencia à Carta Editorial.

As reportagens que saíram desse dia e as muitas peças desenvolvidas exclusivamente para editoriais, daí para a frente, ajudaram a tornar seu nome famoso. Até hoje, ela guarda várias das encomendas feitas por Regina. Mas o coração disparou mesmo quando conheceu Yves Saint Laurent pessoalmente.

Pulseiras e anéis em resina translúcida Rose Benedett - Foto: Christian Maldonato

Pulseiras e anéis em resina translúcida Rose Benedett – Foto: Christian Maldonato

“Foi no mesmo ano em que a marca me contatou. Fui a Paris para ver o desfile e me apresentaram a ele. Tremi. Ele estava sempre com um gato no braço. Era um charme”, recorda.

Em 15 anos de parceria, viriam muitos outros encontros, já que deveria ir à capital francesa periodicamente, para a maison aprovar seu trabalho – feito em fábricas montadas especialmente para dar forma a ferragens e passamanarias – e adquirir novos exemplares originais.

Esse ciclo foi interrompido quando o Brasil iniciou o processo de abertura econômica e liberou as importações. Mesmo assim, Rose já havia construído um nome forte o bastante para continuar, sozinha, um caminho de sucesso.

Hoje, com ritmo reduzido, mas sem pensar em aposentadoria, ela não só resgata sua trajetória com Yves Saint Laurent como vê seu acervo vintage causar frisson.

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