Safári urbano: alfaiataria e utilitarismo são aposta certa no verão 2020

Depois de 50 anos, a saharienne de Yves Saint Laurent inspira o visual utilitário que tem na jaqueta a conexão com o desejo por uma vida mais simples

by Silvana Holzmeister
Foto: Divulgação

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Você acorda e as mídias sociais já estão bombando. É muita informação rodando em segundos. Sobre todos os assuntos. De trivialidades a decisões políticas. A vida off-line não fica atrás. Está todo mundo correndo, e muito, para dar conta de agendas cada vez mais apertadas. Não é à toa que ansiedade e depressão invadiram a nossa praia. Parece, mesmo, haver um caos instalado.

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E, como resposta, surge um desejo cada vez maior por uma vida descomplicada, como protesto contra o sentimento de too much. Mais uma vez, a antena sensível de Miuccia Prada traduz em coleção o que está no inconsciente global. Esse discurso em torno da simplicidade começa no resort 2020 da Prada e está conectado, inclusive, ao visual do atual inverno europeu. Em comum, há uma alfaiataria com imensos bolsos utilitários, que nos leva direto ao look safári e que tem como highlight a jaqueta.

E não há como falar desse assunto sem mencionar Yves Saint Laurent. Foi ele quem deu roupagem fashionista ao uniforme usado pela Afrika Korps, a força expedicionária da Alemanha durante a Campanha do Norte da África, na Segunda Guerra Mundial, e também ao visual clichê dos ocidentais em viagens exploratórias pela selva africana imortalizado pelo cinema.

A primeira jaqueta saharienne era uma peça one-off. Apareceu na passarela em 1967 e será lembrada para sempre na icônica foto com a modelo Veruschka, clicada no ano seguinte. Mas foi somente para o verão de 1969 que a peça ganhou uma versão ready-to-wear. Feita de gabardine de algodão cáqui, era perfeita para os dias quentes e incorporava o espírito de liberdade da década. Agora, 50 anos depois de aterrissar nas araras da boutique Rive Gauche, a peça está de volta, atualizada para os valores contemporâneos.

Chloé e Alberta Ferreti - Foto: Divulgação

Chloé e Alberta Ferretti – Foto: Divulgação

E Miuccia Prada não está sozinha no entendimento dos dias atuais e na busca de um visual centrado no que é essencial, que na sua concepção passa, por exemplo, pelo terninho utilitário em cores neutras ou em tecido precioso. Natacha Ramsay-Levi foi por caminho semelhante ao abrir o desfile da Chloé com uma jaquetinha de cetim matelassado e bolsos patch.

Modelagens secas e lineares combinadas a proporções easy-to-wear seduziram outra italiana, Alberta Ferretti, que incluiu em sua coleção, mostrada em Mônaco, um macaquinho com mangas compridas feito de algodão certificado. Praticidade e sustentabilidade também caminham juntas nessa nova abordagem.

Foto: Divulgação

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Já a Christian Dior, que levou seu desfile para Marrakesh – pensando no encontro entre África, Europa e Mediterrâneo como um destino de sonho para artistas, poetas, escritores e aventureiros –, misturou shapes simples e estampas artesanais. Dando continuidade à sua abordagem feminista, Maria Grazia Chiuri se debruçou sobre o conceito de união de ideias, um common ground como o descrito pela filósofa Naomi Zack: “Apesar de todas as diferenças, as trocas entre mulheres podem se materializar por meio de reflexão e ação.”

Daqui saíram as colaborações com a artista afro-americana Mickalene Thomas, com a pesquisadora e antropóloga Anne Grosfilley, especialista em tecidos e moda da África, e com a Sumano, uma associação que pretende reviver o artesanato tradicional das mulheres das tribos do Marrocos, que deram consistência cultural à coleção.

Dior, Fendi e Partow - Foto: Divulgação

Chanel, Fendi e Partow – Foto: Divulgação

Chanel, que criou um cenário de estação de trem pensando em um período pré-guerra, alongou a jaqueta e multiplicou os bolsos. A Fendi fez o mesmo, mas com um resultado final ainda mais soft, inspirada pelo look de Gena Rowlands no thriller Gloria, de 1980, enquanto a estilista Nellie Partow propôs uma versão tão urbana quanto a atmosfera de Nova York, pensada para uma mulher de 40 anos, para a sua marca, a Partow. A ideia de tantos bolsos é reduzir elementos, acomodar o essencial e deixar as mãos livres. Simples assim.

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