Lady Gaga e seu look Schiaparelli na cerimônia de posse de Joe Biden – Foto: Getty Images

Por Jorge Wakabara

O desfile de verão 2020 da Balenciaga foi recheado de ótimos looks, mas a imagem de moda que realmente ficou marcada em nossas mentes foi a da sequência final: aqueles vestidos monocromáticos com saias gigantes de baile, lembrando a silhueta que inspirava o fundador da maison no começo de carreira, ainda na Espanha.

O atual diretor de criação Demna Gvasalia fechou a apresentação com as estruturas de crinolina que, na época das infantas, também estavam relacionadas a ostentação e poder. A imagem ganhou um registro ainda mais potente no média-metragem de Pedro Almodóvar “The Human Voice”: o vestido vermelho da coleção é usado por Tilda Swinton em cena e aparece no cartaz de divulgação.

Valentino, alta-costura – Foto: Getty Images

Avancemos um ano. Na temporada de alta-costura do verão 2021, a saia gigante reapareceu e, agora, com destaque ainda maior. Ela pode ser leve, como em Giambattista Valli e seu romance flamenco cheio de babados. Ou como na Chanel, combinada com uma camisa branca. Estruturadíssima e fluorescente, equilibrando-se em uma plataforma na Valentino de Pierpaolo Piccioli. Estruturadinha, godê, terminando em franja na Dior de Maria Grazia Chiuri. Um pouco menos ampla, na Armani Privé. A mais-mais da festa? É uma questão de diâmetro. E ajuda ter uma voz bonita – e estar envolta em um look Schiaparelli no baile inaugural de Joe Biden, como Lady Gaga.

Os registros dessas saias enormes do passado chegam por meio de pinturas, em uma época em que ainda não existiam fotografias. Era o farthingale do século 14, uma estrutura circular ao redor da cintura escondida por baixo da roupa que fazia a saia ficar maior. Quem usava? De um lado, as nobres do Império Espanhol que inspirariam Balenciaga. Do outro, Rainha Elizabeth I e seu Império Inglês. E, entre elas, uma coisa em comum: o luxo como forma de demonstração de poder. Tecidos caros e raros, usados em quantidades exorbitantes.

Viktor & Rolf, alta-costura – Foto: Getty Images

O símbolo de prestígio ia além do exagero dispendioso – passava pelas técnicas de costura acessíveis apenas a alguns poucos. Nada muito diferente do mecanismo de hoje: a alta-costura é movida a técnicas caríssimas, que a elite veste e mantém como simbologia da sua posição social. Diz o coordenador do curso de moda da FAAP Fernando Hage: “Se era negado a mulheres da nobreza a escolha do próprio destino, era com as roupas que elas tinham momentos de se colocar socialmente. No baile, elas sentiam a necessidade de serem notadas, em contraponto ao apagamento que sofriam no dia a dia.” O exagero das proporções era a expressão de mulheres silenciadas.

Existe uma lenda de que esses vestidos gigantes reforçavam a distância obrigatória física. É interessante perceber a coincidência: um vírus que exige distanciamento social para não ser disseminado ameaça o mundo e essas saias ressurgem. “Existem várias opiniões e interpretações, dependendo do historiador. O que sabemos que existia era a ideia da mulher como propriedade do homem, um distanciamento que impedia outros de encostarem nela, mas não que a roupa tenha sido feita para esse fim”, Hage pontua.

Dior, alta-costura – Foto: Getty Images

Dá para apelidar de “saia do distanciamento social” mesmo assim, só pelo bom humor? O professor acredita que existe, na retomada das saias enormes, “a ideia de onipotência, da alta-costura reafirmando seu lugar de maestria, mas também tem esse lado onírico da moda. Estamos muito no moletom e na camiseta por conta da pandemia e sinto um movimento de volta para esse sonho que a gente perdeu com see-now-buy-now, com o digital, com a necessidade de resultados por parte da indústria.”

Mas fora os desfiles, será que vai ter tapete vermelho para a gente sonhar? O principal deles, o do Oscar, foi postergado para 21 de abril. Apesar de a campanha de vacinação acontecer a todo vapor nos Estados Unidos, é pouco provável que a cerimônia da academia se desenrole nos mesmos moldes de antes. A exemplo de outras premiações, o tapete vermelho pode acontecer, mas online.

Giambattista Valli – Foto: Getty Images

Por fim, fique com uma história contada no livro História do Vestuário no Ocidente, de François Boucher. Em 1728, aquelas estruturas laterais chamadas paniers eram tão exageradas que as princesas que, de acordo com o protocolo francês, deveriam ladear a Rainha Consorte Maria Leszczyska no teatro, acabaram por escondê-la com os seus vestidos largos. Cardeal Fleury, o primeiro-ministro, deu ordem para deixar um assento vazio de cada lado da rainha e, assim, destacá-la. As princesas protestaram e conseguiram os seus próprios assentos vazios nas suas respectivas laterais, e aí vieram as duquesas que ficavam ao lado das princesas a reclamar e… Se a moda pega e a cerimônia do Oscar voltar a ser presencial, pobre de quem ficar responsável pelo disputado sitting do Teatro Dolby.