Nesta segunda-feira (04.06), quando a Arábia Saudita começou a emitir as primeiras carteiras de motoristas a mulheres, lembramos do depoimento que a estilista saudita Honayda Serafi deu à Bazaar sobre as condições femininas em seu país.

“Faço parte da família real saudita, mas não gosto muito de tocar no assunto. Prefiro falar sobre meu papel na emancipação das mulheres em situação de  submissão em meu país. Nasci em Jidá há 36 anos e, felizmente, cresci em um ambiente privilegiado e cercado de arte, moda e beleza, o que me fez optar por um percurso criativo. Na minha família há grandes artistas. Minha mãe, minha maior inspiradora, é historiadora de moda e arte, e por isso  me especializei em Artes Islâmicas na Universidade Rei Abdulaziz. Me tornei escultora e poeta. Mas, algum tempo depois, a moda falou mais alto. Foi aí que decidi morar em Paris e seguir um curso na renomada Parsons.

A estilista saudita Honayda Serafi
A estilista saudita Honayda Serafi

De volta à minha cidade e movida pelas lembranças das primeiras viagens com meus pais pelos campos rurais humildes da Arábia, lancei minha marca, Honayda. Lembro até hoje como as mulheres do campo se vestem, com longas túnicas coloridas, bordadas, feitas à mão, de uma poesia e simplicidade incríveis. Para minha primeira coleção de verão, busquei inspiração nessa imagem lúdica. Quis mostrar que as sauditas não se vestem todas da mesma forma, que elas podem ser cheias de vida, muito diferente da austeridade da abaya, a longa túnica preta que vemos por aí. A mulher árabe não é apenas uma criatura escondida atrás de uma cabeça que censura seu rosto e suas formas, ela tem muito mais para expressar.

A situação das mulheres do meu reino progride pouco a pouco desde a posse do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, em 2017, mas a desigualdade entre os sexos continua grande. Temos muito o que construir e espero termos mais oportunidades daqui para a frente. Atualmente, ainda necessitamos da autorização prévia de um homem (marido, pai, irmão, filho mais velho ou alguém que tenha sua tutela) para casar, ir à universidade, viajar ao exterior, sair da prisão e até tirar passaporte. Quero que as mulheres se conscientizem de seus poderes e capacidades, que se expressem e encontrem o lugar que merecem na sociedade. Nós somos ambiciosas e competentes em vários campos, e o tempo vai mostrar isso.

Portanto, neste ano, “peguei carona” na nova lei estabelecida pelo príncipe, que permite que as mulheres dirijam e tirem suas carteiras de motorista – até então, elas precisavam de motorista particular ou um familiar homem que as acompanhassem em suas saídas, mesmo para o trabalho. Minha coleção de Inverno 2018, intitulada Driving Force, é uma homenagem aos símbolos de trânsito e de sinalização de estradas. Logo que comecei a desenhar a linha, ouvi essa notícia maravilhosa na televisão. Entre bordados inspirados em motivos milenares da minha cultura, inseri cintos de segurança, pedaços de faróis, couro e zíperes, símbolos da emancipação feminina. Para minha felicidade, consegui lançar a coleção em Paris durante a semana de moda e tive a presença em peso da imprensa internacional.

Look da atual coleção da marca Honayda, inspirada nos sinais de trânsito
Look da atual coleção da marca Honayda, inspirada nos sinais de trânsito

Também procuro empregar, na maioria, mulheres em meu ateliê e escritório. Se isso pode ajudá-las a progredir, ótimo! Além disso, selei uma importante parceria com a Unesco, que me permite realizar palestras sobre a afirmação das mulheres em todo o Oriente Médio. Fiquei radiante com o fato de terem adquirido o direito de participar dos Jogos Olímpicos, é uma enorme vitória, além de ocuparem cargos de confiança em nosso governo. Mas todo esse empenho em lutar pela liberdade e igualdade feminina não me impede de identificar preconceitos de quem não conhece meu país em profundidade. Os maiores erros são em relação às roupas e à educação. Temos excelentes escolas, um ensino exemplar. E muita gente não sabe que somos um país grande, com 13 regiões distintas, cada uma com seus trajes típicos. Outro engano é pensar que a Arábia Saudita é só deserto: temos o mar, paisagens incríveis, galerias de arte, uma natureza abundante.

Uma outra forma que encontrei para ajudar minhas compatriotas é encaminhar parte dos meus lucros para uma associação que as ajuda no processo de divórcio. Dou todo o apoio para obterem ajuda financeira e se tornarem autônomas. Também quero, no futuro, desenvolver o savoir-faire da costura em meu país. Não existe um alto nível de mão-de-obra feminina qualificada por aqui, tanto que mando fabricar minhas coleções no Líbano. A ideia é que as mulheres percebam que elas podem ser muito mais do que mãe e esposa. Sou mãe de três filhos e ainda cuido dos quatro outros de meu marido. Mas minha rotina nunca é a mesma: organizo a casa de manhã e, à tarde, vou ao escritório me inspirar nas coleções e nos trabalhos das mulheres do mundo. Tenho certeza de que, com a abertura que estamos tendo, tudo isso será possível em breve.”  (Depoimento a Cibele Maciet)

Look da atual coleção da marca Honayda, inspirada nos sinais de trânsito
Look da atual coleção da marca Honayda, inspirada nos sinais de trânsito