
Foto: Alex Costa
Na noite deste domingo (7.12), o designer amazonense Sioduhi volta à Casa de Criadores para sua segunda apresentação. Um marco que coincide com o momento em que seu nome ganha força dentro e fora da moda brasileira. Com Ahkó-Yakó, o legado da gente estrela, ele leva à passarela um recorte íntimo de sua ancestralidade: o sistema de constelações que orienta o território do Alto Rio Negro e estrutura a cosmovisão do povo Waikahna, sua origem.
Pela tradição, essas constelações são entendidas como seres e objetos que um dia viveram na Terra e que, reunidos, são chamados de Ñohkoa Diarã Mahsã (Gente Estrela Real). É a partir desse ponto que Sioduhi constrói um futurismo amazônico próprio, unindo tecnologia, biodiversidade e técnicas manuais.

Foto: Alex Costa
Entre experimentações têxteis e materiais biodegradáveis impressos em 3D, a coleção também marca os cinco anos da Sioduhi Studio e reforça a presença do designer como uma das vozes mais urgentes na discussão sobre identidade, clima e criação no Brasil — trajetória reafirmada por reconhecimentos recentes, como sua eleição como um dos líderes em sustentabilidade em 2025, sua entrada como única marca residente do Norte na Casa de Criadores (desde 2024) e o prêmio de personalidade do ano para o futuro da moda pelo Fashion Futures do Instituto C&A (2023).
Em entrevista à BAZAAR, Sioduhi fala sobre esse momento, sobre a nova coleção e o que significa ocupar a moda a partir de uma perspectiva indígena atual.

Foto: Alex Costa
Harper’s BAZAAR – Como essa cosmovisão se transformou em método de criação?
Sioduhi – A Sioduhi Studio, na coleção Ahkó-Yakó, mergulha no processo criativo ao estudar as 10 constelações mais importantes, os Ñohkoa Diarã Mahsã (Gente Estrela Real), valorizando o direito à memória. Em um contexto de emergência climática, a relevância dos calendários cosmológicos é acentuada. Para maximizar a imersão do público na origem da gente estrela, a marca utiliza materiais inovadores, tingimento natural, fibra de tucum e diferentes experimentos têxteis.
HB – Quais foram as técnicas ancestrais mais desafiadoras de adaptar para um contexto de moda contemporânea?
S – A fibra de tucum é milenar e possui uma textura naturalmente áspera. Vestir folhas é uma tradição ancestral indígena. Um dos nossos principais desafios é o processo de amaciamento, especialmente porque algumas das nossas peças são feitas 100% dessa fibra. Além disso, buscamos aliar essa matéria-prima a modelagens contemporâneas e atrativas, um objetivo que temos alcançado progressivamente em nossas criações. Para se ter ideia, com a técnica de construção das peças que estamos usando conseguimos produzir roupas de tamanho único capazes de se ajustarem a uma diversidade incrível de corpos.

Foto: Alex Costa
HB – As plumagens de tucum e o tingimento natural com crajiru seguem modos de fazer tradicionais. Como você preserva esses saberes ao mesmo tempo em que imprime um olhar futurista às peças?
S – A inovação na utilização da plumagem de tucum reside em um processo de desfilamento artesanal, similar ao desfilamento tradicional com pequiá (um bola cheia de espinhos), mas executado com agulha. Esta técnica, que separa a fibra fio a fio, garante leveza ao material e previne a quebra. Outro ponto crucial é o tingimento natural com crajirú, uma planta com propriedades medicinais e tintórias. Na Terra Indígena Alto Rio Negro, alguns povos transformam o pigmento desta planta em pó para pinturas corporais e faciais cujos grafismos são apreciados em cerimônias tradicionais. Incorporar esses saberes e materiais milenares é fundamental em um contexto de avanço de pigmentos sintéticos e do estímulo ao escalonamento da fibra de tucum sem o devido investimento no manejo sustentável da palmeira no território. É uma maneira de repensar e desenvolver criações de alto valor agregado, o que chamo de “Alta Artesania”.
HB – Você utiliza a fibra de tucum com ponto puçá e pequenos novelos gerados a partir do próprio resíduo. Como esse reaproveitamento se integra ao desenho final das peças?
S – Nesta coleção, os novelos foram incorporados diretamente às peças de vestuário pela primeira vez, ganhando um novo significado como “gotas de chuva” na coleção Ahkó-Yakó, reafirmando que somos um povo em constante transformação.Estes elementos são aplicados também em acessórios de cabeça, brincos, acabamentos de bolsas e outros itens. Na sua concepção, estes novelos são designados como “ovos de cobra”, uma referência à continuidade dos descendentes da Cobra Canoa da Transformação (Pamʉri Yuhkʉsʉ), que constitui a identidade pela qual a maioria dos povos indígenas do Alto Rio Negro é reconhecida.

Foto: Alex Costa
HB – Nesta temporada você expande sua pesquisa para materiais biodegradáveis por meio da impressão 3D. Quais foram as maiores descobertas e limitações desse processo?
S – O principal desafio consistiu em testar a resistência e a leveza dos materiais, buscando um acabamento acetinado. Apesar da automatização no processo de impressão, o acabamento final exigiu trabalho manual, realizado em conjunto pelas equipes Sioduhi Studio e Creaturae. Lembra muito o que fazemos há séculos com as miçangas, que possui uma parte de sua cadeia de produção automatizada em fábricas.
HB – As peças tridimensionais inspiradas nas formas triangulares do quartzo e nos peixes aracu carregam forte simbolismo. Como foi traduzir essas referências para um software e depois para um objeto físico?
S – Testamos e estudamos as formas. Na modelagem triangular inspirada na borboleta de quartzo, por exemplo, o desafio inicial foi alcançar um acabamento acetinado. Conseguimos isso após vários testes com impressão na base de vidro. Já com o peixe aracu, focamos em texturizar as escamas, mantendo simultaneamente a leveza e a resistência do material. Estes elementos desenvolvidos foram posteriormente transformados em acessórios, como colares max, brincos, aplicações diretas nas peças de vestuário e um par de óculos inspirado especificamente no peixe aracu (conhecido como peixe piau em outras partes do Brasil).

Foto: Alex Costa
HB – O trabalho com a Creaturae Tecnologia 3D marca uma colaboração entre criadores do próprio território amazônico. Como esse diálogo técnico influenciou o resultado final?
S – A Amazônia é um território rico em símbolos, muitos dos quais ainda são desconhecidos pelos brasileiros. A Creaturae me procurou para ser o primeiro designer de moda amazônida a experimentar suas tecnologias. O diálogo começou em maio de 2025, e a parceria se estendeu além do fornecimento de materiais, incluindo uma equipe dedicada ao desenvolvimento dos desenhos técnicos em 3D. Essa troca de conhecimentos resultou em criações belíssimas, mantendo a essência da Sioduhi Studio: uma linguagem futurista, ancestral e amazônica.
HB – Os bordados eletrônicos ilustram seres e objetos das constelações. Como você equilibra o digital e o manual dentro da mesma peça?
S – Como designer indígena, meu trabalho transcende as expectativas tradicionais da indústria da moda. Eu incorporo narrativas ancestrais milenares e as integro com técnicas contemporâneas.Minhas criações são um encontro de mundos: é possível ver bordado eletrônico representando constelações ao lado de tingimento natural, utilizando tecnologias como ManioColor e Crajirú. Elementos como “ovos de cobras” e texturas artesanais, como os banzeiros, também se fazem presentes. Dessa forma, busco transmitir que, apesar de todas as violências históricas e atuais, nós, povos indígenas, estamos em sintonia com o espírito do nosso tempo.
HB – Seu trabalho gera impacto socioeconômico real para as pessoas do território. Como as técnicas utilizadas na coleção envolvem — direta ou indiretamente — artesãos e comunidades locais?
S – Desde 2022, a Sioduhi Studio colabora com os coletivos Ínaru Eyawa (Novo Airão, AM), liderado por Anair Gonçalves (povo Tariano), e “Casa da Arte” (São Gabriel da Cachoeira, AM), com Janete (povo Tariano), no desenvolvimento de suas coleções. Ambos participam de todo o processo, do desenho técnico à finalização. A Sioduhi viaja aos locais a cada nova coleção. Cada coletivo tem de 5 a 15 artesãos, impactando indiretamente outras associações pela aquisição de insumos. O desafio é garantir a continuidade da produção além do ciclo das passarelas, pois sem impacto sustentável pós-desfiles, a iniciativa perde o sentido.
HB – Para você, qual inovação técnica desta coleção melhor representa o legado da “gente estrela”?
S – A impressão 3D, que reproduz borboletas de quartzo, e a joalheria milenar de diferentes povos do Alto Rio Negro me emocionaram profundamente ao vê-las materializadas e em movimento. A gente estrela, para nós, são seres celestiais que contribuíram para o manejo correto da terra, e este signo às exalta, celebrando seu legado e a sua presença constante no céu, nos acompanhando. Na noite do desfile, eu as trago simbolicamente para uma visita à sua antiga casa, a Terra.

