Look do inverno 2019 da Celine – Foto: Divulgação

Depois de uma estreia polêmica há dois anos na Celine, Hedi Slimane surpreendeu quando propôs para o inverno 2019 um mergulho profundo na trajetória da marca. Desde sempre obcecado pela cultura jovem, ele também mostrou que podia se reinventar.

O resultado foi o visual inspirado na burguesia parisiense dos anos 1970, centrado principalmente no skirt suit com saia-mídi de tweed, camisa, blazer, lenço e botas. Essa imagem, transmitindo poder e conforto, foi tão forte que alterou o curso do revival do tailleur, que começava a ser consolidado naquele momento.

O reflexo dessa reviravolta pode ser sentido nas coleções inverno 2021. A versão soft, com aparência mais descontraída, é perfeita para o retorno ao trabalho nesta fase de reabertura gradual da economia. É que, depois de meses dentro de casa e com muita gente intercalando escritório com home office, substituir a calça pela saia e arrematar tudo com um sapato flat ou com salto grosso, traz sensações de leveza e bem-estar, sem perder a ênfase na elegância.

Bazaar ama essa ideia que, além de tudo, é cool. Apesar de as referências atuais estarem centradas na década setentista, a junção de saia com um complemento de alfaiataria é bem mais antiga. No século 19, é creditado ao inglês John Redfern o surgmento do conjunto de duas peças que vestia mulheres modernas em atividades ao ar livre, de caminhadas a práticas de arco e flecha.

Em 1905, o traje ganhou espaço no dia a dia e, em 1910, com a versão saia-calça, para facilitar a movimentação durante mobilizações, acentuava o posicionamento feminista das sufragistas.

Chanel, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Até que, em 1914, Coco Chanel teve a grande sacada de criar o precursor, em jérsei, do que, em 1954, se transformaria no seu famoso tailleur, que agora chega com casaco mais longo e fenda na saia. Na década de 1940, o duo paletó e saia virou uniforme, não somente das mulheres que estavam no front, como das que substituíram os homens no mercado de trabalho. E também das rebeldes mexicanas pachucas, avessas ao ideal de que o lugar delas era em casa, cuidando dos filhos.

Vale lembrar que, resgatado nos anos 1970, o conjunto ajudou a moldar o visual feminino na conquista pelo mercado de trabalho na década seguinte.

Prada, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Essa evolução está conectada ao presente. Na narrativa de Miuccia Prada para o inverno 2020, o extenso exercício de estilo sobre o skirt-suit incluiu blazer com saia de franjas de fios de seda e até uma versão em nylon acolchoado em tons pastel para reforçar o posicionamento de que mulheres podem ser fortes e delicadas ao mesmo tempo.

Tory Burch, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Tory Burch seguiu caminho semelhante ao discutir o que o poder significa para mulheres, misturando tecidos masculinos com a leveza do tricô.

Valentino, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Pierpaolo Piccioli também teve um discurso social forte, de inclusão, envelopando looks econômicos em cor, usados com resistentes botas flat, na Valentino.

Maison Margiela, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Na Maison Margiela e na Louis Vuitton, experimentos com modelagens dialogam com o passado e também com o futuro. Para John Galliano, tem tudo a ver com desconstrução da alfaiataria e vocação da marca para o upcycling, com o lançamento do projeto Recicla.

Louis Vuitton, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Nicolas Ghesquière, ao provocar uma sensação de colapso do tempo com looks resgatando detalhes de séculos remotos, não poderia ter sido mais visionário sobre o mundo em 2020.

Celine, inverno 2021 – Foto: Divulgação

E Hedi Slimane, claro, não ficou de fora. Em mais um desdobramento da sua segunda coleção para a Celine, fixou o olhar sobre o unissex – e não o sem gênero – já introduzindo cenas dos próximos capítulos dessa estética. Mas, esta, é outra história.