A moda vintage pop da Gucci e a  nova geração de consumidoras - Foto: reprodução
A moda vintage pop da Gucci e a nova geração de consumidoras – Foto: reprodução

Por Luigi Torre

O fim das tendências é apontado como sinal dos nossos tempos. Na prática, essa morte ainda está mais para anunciada do que real, mas faz cada vez mais sentido, conforme a vida com um pé no freio passa a ser uma necessidade no lugar da rotina frenética. Prova disso é o sucesso de marcas que fizeram fama negando a lógica de renovação constante da moda. Céline, Givenchy, Marni, Saint Laurent e, mais recentemente, Gucci optaram pela contramão. Trocaram a adesão aos movimentos do mercado por imagens moldadas ao gosto e sensibilidade de seus diretores de criação. Tipo siga o mestre.

Suas coleções, mesmo com temas variantes, são espécie de works in progress. Continuação e evolução de uma mesma filosofia e estética, afirmação de uma identidade. Seus consumidores, por sua vez, são quase membros de tribos regidas por estéticas e valores em comum. Como as mulheres independentes e seus closets multifuncionais repletos de Céline; a nova geração, que se apaixonou pela Gucci de Alessandro Michele, mais interessada em roupas com história e excentricidade do que em looks calculados de celebridades; e as party girls, que não dispensam boa qualidade, mas detestam perfeição.

Sim, são indivíduos cada qual com seu estilo, mas que também pertencem a um mesmo grupo – sentimento (e necessidade) dos mais primitivos nos seres humanos e essencial à moda. Só que, aqui, com aquele gostinho de sociedade secreta ou clube fechado de difícil admissão.

“As grandes marcas sempre procuraram se manter fiéis às suas identidades”, pontua Sofia Martellini, expert do WGSN. “Com isso, o estilo das peças e as coleções costumam sempre seguir uma linha específica, mesmo que aderindo a tendências sazonais, mas isso realmente tem ficado mais forte.” De acordo com ela, os motivos para tanto vão desde a saturação do mercado, mudanças no padrão de comportamento dos consumidores, até a dança das cadeiras na direção das maisons de luxo.

Jovem em look all Céline - Foto: reprodução Bazaar Brasil
Jovem em look all Céline – Foto: reprodução Bazaar Brasil

“Estamos passando por um momento de instabilidade nas grandes casas de moda, com uma rotatividade enorme de diretores criativos – vide Alexander Wang, que ficou na Balenciaga apenas 3 anos, ou o extremo oposto, com Alber Elbaz, que saiu depois de 14 anos na Lanvin, além de outros, como Raf Simons, que deixou a Dior. “Com isso, os grandes grupos preferem investir no que é mais estável: a herança das marcas.”

Some aí a certa exaustão ao ritmo acelerado que já causa fadiga – na moda, no mundo e em nós mesmos. Do tempo de vida cada vez mais curto dos produtos e das tendências (principalmente com a ubiquidade do fast fashion), à rotina exaustiva das mentes criativas, que hoje chegam a produzir até seis coleções por ano. “É muito difícil uma marca se espelhar apenas nas tendências da temporada e, sinceramente, se o fizesse, teríamos um mercado repleto de grifes sem personalidade”, opina Sofia.

“A verdade é que a moda é um mercado complexo que, atualmente, comporta os dois movimentos simultaneamente – o de uma moda mais atemporal e o de fast fashion”, continua a especialista. “E muitos consumidores já não estão interessados em comprar uma peça que durará apenas alguns meses ou no máximo uma temporada, e, sim, em peças que são atemporais, que combinem com seu próprio estilo.”

Tudo isso faz surgir uma demanda no sentido oposto, de marcas que caminham guiadas por valores igualmente inversos. No lugar da aceleração, o pé no freio; da produção em série, o artesanal; da novidade pela novidade, toda uma filosofia de estilo. Como fez Phoebe Philo com seu minimalismo prático e alinhado aos valores femininos do século 21 ou Alessandro Michele, com sua moda vintage-moderna-pop. Pregam a individualidade, ao mesmo tempo em que criam sua própria comunidade. É o slowdown com sustância.

Assine Bazaar e receba seu exemplar em casa