Sol Alac e Marina Simão vestem as peças da collab - Foto: Mucio Ricardo
Sol Alac e Marina Simão vestem as peças da collab – Foto: Mucio Ricardo

Dividindo-se entre São Paulo e Buenos Aires, a multiartista argentina Sol Alac não consegue sossegar. Depois de vestir artistas da cena musical brasileira, como Maria Gadú e Criolo, para citar alguns exemplos – e até gringos (como as gêmeas cantoras Lisa-Kaindé e Naomi Díaz, da dupla franco-cubana Ibeyi, para um videoclipe de Emicida) -, sua marca de macacões, a Eyddos foi parar em uma galeria de arte. E não por causa da boa relação com a música. Mineira de coração, Sol ofereceu casacões e jumpsuits para se transformarem em telas de pintura em uma collab com a Galeria Mendes Wood DM, de São Paulo.

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Artistas brasileiros e argentinos assinam coleção-cápsula de pouco mais de 10 peças (únicas e numeradas). “Sempre falo que Eyddos é a arte de vestir. O que estamos propondo não é moda, mas outra coisa. Não a vejo à venda em loja de shopping”, argumenta Sol, em conversa com Bazaar, em São Paulo, no apartamento-ateliê da artista Marina Perez Simão.

Detalhes das criações - Foto: Mucio Ricardo
Detalhes das criações – Foto: Mucio Ricardo

Também fazem parte desse experimento o brasileiro Paulo Nimer Pjota e os hermanos Juan Stoppani e Ines Raltieri. O ponto de partida foi a liberdade, uma tela em branco. “Como eles pegaram cores diferentes, cada um interpretou da melhor forma”, Sol gaba-se.

Paulo aplicou figuras do Renascimento e medievais – até de antes de Cristo – em impressões digitais, finalizando com minuciosos detalhes. Artista visual, escultor e cenógrafo, Stoppani replicou técnicas que utiliza em suas pinturas e azulejos às vestes. Ele finaliza as obras aplicando botões pretos em pontos focais.

Detalhes das criações - Foto: Mucio Ricardo
Detalhes das criações – Foto: Mucio Ricardo

Ines usa estampas coloridas e, depois, borda os detalhes à mão. O motivo que fez Marina embarcar nesse projeto foi pela roupa ser genderless. “Adoro isso”, argumenta a artista, que, quando pequena, desenhava o próprio guarda-roupa. “Sempre tive poucas roupas. Poucas e boas, sabe? Em Minas, é comum ter costureira da família. As minhas pareciam um uniforme para transitar por todos os ambientes.”

E o mesmo acontece com os macacões, ultrapassando a dicotomia entre masculino e feminino. Resultado de uma brincadeira com dois personagens (o presidiário e o palhaço), Marina colocou listras bem diluídas na frente do primeiro. “Esse macacão me lembrou essas duas figuras, que são meio trágicas”, resume. “A segunda foi uma desconstrução do uniforme militar.”

Detalhes das criações - Foto: Mucio Ricardo
Detalhes das criações – Foto: Mucio Ricardo

Com fundo escuro, a terceira teve astronautas e Sistema Solar como inspiração. Em sua arte, Marina faz uma espécie de decantação. “Quero que completem o meu discurso”, reforça. “Estou contando uma história com tinta, forma, cadência e ritmos.” Ela também coloca “”prendas escondidas” em suas pinturas.

O grande marco dessas cocriações é pendurá-las na parede, como uma obra de arte (porque são!). Ou vestir para ir à melhor festa do mundo ou ao supermercado. “A vida é esse convívio, como o high-lo dessa coleção. Eu não tenho medo (dessa mistura). Eu me sinto muito afortunada em conseguir conviver com muitos universos”, comenta Sol, ao citar que trafega, ainda, entre o teatro e a música.

Sol Alac e Marina Simão vestem as peças da collab - Foto: Mucio Ricardo
Sol Alac e Marina Simão vestem as peças da collab – Foto: Mucio Ricardo

Sua filha Elisabetta, de 10 anos, já apareceu na TV cantando ao lado de Gilberto Gil. Até o futebol entra nesse campo. Ela é casada com o jogador argentino Juan Pablo Sorin, também conhecido como Juampi. “Não estou inventando uma coisa que não sou. A dificuldade está em quando se tenta criar uma coisa que não te reflete.” Sol dribla, chuta e cabeceia. “Quero que a pessoa que veste a minha marca seja ela mesma, consiga transmitir a sua essência. Eyddos significa forma (do grego), conceito e essência”, filosofa.

Obras da artista Marina Simão espalhadas em seu apartamento-ateliê, em São Paulo - Foto: Mucio Ricardo
Obras da artista Marina Simão espalhadas em seu apartamento-ateliê, em São Paulo – Foto: Mucio Ricardo

Ao produzir essas peças, ela ainda se preocupa com consumo por um viés mais sustentável. “A gente pesquisa sobre reciclados, usa tecidos reutilizados, eu faço esse garimpo, é tudo muito artesanal.”

Obras da artista Marina Simão espalhadas em seu apartamento-ateliê, em São Paulo - Foto: Mucio Ricardo
Obras da artista Marina Simão espalhadas em seu apartamento-ateliê, em São Paulo – Foto: Mucio Ricardo

Para ela, é como se fosse uma espécie de ativismo, pois consegue democratizar a arte por meio de outro selo, a Ey, focada em um público mais jovem, com pegada fun e flúo e preço mais acessível. Depois de pôr na rua a primeira parte dessa colaboração, que aconteceu no fim de novembro, ela pretende repetir a fórmula em galerias de arte de Buenos Aires e Nova York, sempre valorizando a cena de artistas locais. Em toda apresentação, ela faz uma performance artística com música. E não vai ser diferente em 2020!