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Poucas imagens do cinema do século XX são tão fáceis de reconhecer quanto a de Sophia Loren: olhos delineados, cabelos volumosos, cintura marcada, decote generoso. Mas reduzir a atriz a uma das grandes sex symbols de sua época é perder q história que torna sua imagem tão interessante.
Sophia cresceu em uma Itália devastada pela Segunda Guerra Mundial e começou a carreira quando o país ainda tentava reconstruir sua economia e sua cultura. Enquanto isso, do outro lado do mundo, Hollywood ditava os códigos de beleza que chegavam às telas (pelo menos até a chegada de Sophia Loren).
Carlo Ponti, produtor que se tornou seu mentor e, mais tarde, seu marido, teve um papel importante nessa história. Ele trabalhou para transformá-la em uma estrela internacional, inclusive negociando sua passagem para Hollywood. Em 1956, ele fechou um acordo com a Paramount para uma série de filmes protagonizados por Loren.
Da Itália do pós-guerra ao cinema
Nascida em Roma, em 1934, Sofia cresceu em Pozzuoli, perto de Nápoles, em uma família que enfrentava dificuldades financeiras. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região foi alvo de bombardeios por sua importância portuária e militar, e a família chegou a se mudar para Nápoles em busca de segurança, voltando a Pozzuoli só depois do fim do conflito.
No começo dos anos 1950, a Itália ainda carregava as marcas da guerra, mas também começava a experimentar uma nova fase, com o crescimento do consumo, do cinema e da vida cultural. Roma, em especial, ganhava fama como uma cidade moderna e animada, que anos depois foi resumida pela famosa expressão Dolce Vita.
Sophia estava no meio dessa mudança. Aos 15 anos, participou de seu primeiro concurso de beleza e, em 1950, chegou ao Miss Italia, onde recebeu o título de Miss Eleganza. Vieram os primeiros trabalhos, entre pequenos papéis no cinema e aparições em fotorromances. Foi nessa época que Carlo Ponti a conheceu, assinou um contrato de longa duração com ela e começou a orientar os rumos de sua carreira.
Até o nome entrou nessa construção. Sofia Scicolone passou por Sofia Lazzaro antes de se tornar Sophia Loren, uma escolha mais internacional para a atriz que Ponti queria apresentar a um público muito maior do que o italiano.

Carlo Ponti e Sophia Loren (Foto: Getty Images)
Uma nova ideia de beleza
Nos anos 1950, Hollywood vendia a ideia de feminilidade de um jeito bem específico: Grace Kelly, Doris Day e outras estrelas da época ajudaram a popularizar uma beleza mais polida, delicada e controlada. Sophia chegou com uma sensualidade mais direta, mais calorosa e mais ligada ao corpo.
Os quadris largos, a cintura marcada, busto evidente e sua postura segura a ajudaram a criar uma imagem inconfundível. Aos poucos, o corpo de Sophia passou a fazer parte do personagem que ela construía diante das câmeras.
O cinema italiano percebeu esse potencial antes de Hollywood. Em L’oro di Napoli (1954), dirigido por Vittorio De Sica, Sophia interpretou uma pizzaiola e começou a mostrar que podia fazer muito mais do que ser bonita. O filme ajudou a aproximá-la de uma imagem mais popular, sensual e profundamente ligada a Nápoles, que acabaria se tornando uma das bases de seu estrelato.

Foto: Getty Images
O decote como assinatura
Os decotes em coração e os modelos quadrados viraram presença constante no guarda-roupa de Sophia porque valorizavam justamente o que ela tinha de mais marcante: o colo, a clavícula, os ombros e, claro, as curvas. Em vez de esconder o corpo em vestidos largos, a roupa desenhava sua silhueta.
A cintura bem marcada, as saias amplas, corpetes e vestidos ajustados ajudavam a criar a famosa silhueta ampulheta, que logo passou a ser sua assinatura.
Mas nos anos 60, seu guarda-roupa começou a mudar: vieram os vestidos tubinho, os cabelos mais altos, os olhos ainda mais marcados e uma elegância mais próxima do novo momento da moda, com referências da Dior e os shift dresses entrando em cena.
De Roma a Hollywood
Depois de alguns sucessos no cinema local, Carlo Ponti começou a preparar a entrada de Sophia no mercado internacional. Antes de Hollywood virar o destino definitivo, vieram produções como “Boy on a Dolphin”, filmado na Grécia, “The Pride and the Passion”, na Espanha, e “Legend of the Lost”, com locações no Saara. Em 1956, o contrato com a Paramount deu o empurrão que faltava para transformar a estrela italiana em um nome mundial.
Mas a ideia não era só colocá-la em filmes norte-americanos. Ela precisava continuar sendo Sophia Loren com a imagem que ela já tinha criado até aquele ponto.
Nas telas, isso aparecia em vestidos de cintura marcada, decotes generosos, saias volumosas e joias chamativas. Fora do cinema, óculos escuros enormes, lenços, chapéus, bolsas e vestidos de noite faziam o resto. Cada aparição pública ajudava a reforçar a mesma personagem: uma estrela italiana que não precisava se moldar à Hollywood.

Foto: Getty Images
A moda italiana entra em cena
É nessa altura que a história de Sophia começa a se misturar com a própria ascensão da moda italiana no cenário internacional. Ela vestiu nomes como Emilio Pucci e Christian Dior, além de usar peças feitas especialmente para ela por Marc Bohan, que assumiu a direção criativa da Dior em 1960. Ao longo da década, também apareceram criações de Guy Laroche, bolsas Gucci e toda uma coleção de códigos do glamour italiano.
Mas, por mais sofisticado que fosse o guarda-roupa, Sophia nunca parecia ter deixado Nápoles para trás. Mesmo entre alta-costura, diamantes e grandes produções de cinema, ainda havia naquela imagem algo da mulher napolitana que o público conheceu nas primeiras comédias italianas.
Enquanto algumas estrelas norte-americanas eram vestidas para parecerem “bonecas de porcelana”, as roupas de Sophia tinham mais força e presença, mesmo quando feitas em sedas delicadas de Milão ou Roma.
Nos festivais e tapetes vermelhos, essa imagem ganhou o mundo ao mesmo tempo em que a Itália tentava se reconstruir depois da guerra. Sophia acabou se tornando uma das caras dessa nova fase do país, quando a moda, o cinema e o design começavam a mostrar uma Itália muito diferente daquela que existia anos antes.

Foto: Getty Images
Além do sex symbol
Sophia Loren, mesmo após tantos anos e tantos “novos rostos” que chegaram na cena do cinema, continua aparecendo como referência de moda.
Com seu olhar marcado, cintura bem desenhada e os decotes icônicos, ela mostrou que não precisava suavizar suas curvas para se vestir bem e ser considerada elegante.

Foto: Getty Images
Além disso, sua imagem também ajudou a mudar a forma como a própria Itália era vista pelo resto do mundo. Depois de anos de fascismo e guerras, o cinema, o design e a moda começaram a participar de uma nova fase cultural do país.

