Por Luigi Torre

Na passarela, era impossível distinguir o real do ilusório. Um vestido multicolorido parecia coberto de laços e babados; outro, transparente, era decorado apenas por um suposto cinto rosa; e até mesmo os tamancos e os mules aparentavam detalhes que, na verdade, não existiam. Eram bordados e estampas que simulavam e subvertiam a realidade, não muito diferente de como as obras surrealistas também transformavam o cotidiano entre os anos 1920 e 1940. O recurso se chama trompe l’oeil (ilusão de óptica, em tradução livre do francês) e é apenas uma das várias manifestaçães do surrealismo nas coleções internacionais de verão 2016.

O movimento artístico em questão é um dos mais influentes na moda de agora – e diz muito sobre os tempos em que estamos vivendo. Para entender o porquê, basta olhar para a pequena revolução iniciada por Alessandro Michele, diretor de criação da Gucci e autor das iluões descritas acimas. Antes dele, a regra era clara: mais praticidade e menos emoção.Vivíamos e vestíamos os básicos, cores neutras, peças lisas e as mais clássicas do guarda-roupa. Hoje, a profusão de estampas, texturas, cores e referências já é comum às principais passarelas do mundo. E a equação praticidade-emoção se inverteu. Mais voltou a ser mais.

Rebobine para 1920, quando o francês André Breton esboçou os primeiros traços do que viria a ser conhecido como surrealismo, e o cenário não era muito diferente.Traduzidas para as roupas, as imagens oníricas, absurdas e até perturbadoras eram um antídoto para o funcionalismo utilitário do modernismo. Na moda, estava Elsa Schiaparelli, italiana radicada em Paris, responsável por virar de cabeça para baixo os costumes da época. Ela transformou bolsos de tailleurs em gavetas, estampou com Salvador Dalí uma lagosta num vestido de festa e fez de seus suéteres de tricô com motivo de laço (seus primeiros trabalhos com trompe l’oeil) verdadeiro hit entre a alta sociedade e a classe artística da Europa pré-Segunda Guerra Mundial.

De volta ao presente, pode-se dizer que coube a Michele devolver o humor à moda – pelo menos de maneira absurdamente influente. Mas ele não está sozinho.Antes de sua nomeação na Gucci, Jeremy Scott já dava injeções pop-lúdicas em nossos guarda-roupas com suas coleções à frente da Moschino. Em Nova York, e com uma imagem mais sofisticada, mas não menos bem-humorada, Rosie Assoulin também recupera as proporções agigantadas e divertidas do surrealismo.A eles somam-se ainda estampas e bordados de olhos e bocas que aparecem em gravatas, vestidos e até no make da estação; motivos de comida e louças se transformam em decoração para terninhos e vestidos de festa; laços assumem tamanhos máxi; e a famosa estampa de lagosta, da maison Schiaparelli, ressurge sob direção criativa de Bertrand Guyon, agora em versão para o século 21.