Tá punk: movimento faz 45 anos e segue em alta na moda

O punk empresta spikes e outras ferramentas ao posicionamento crítico em alta na moda contemporânea

by Silvana Holzmeister
Elizabeth Hurley causou furor com este look Versace em 1994 - Foto: Getty Images

Elizabeth Hurley causou furor com este look Versace em 1994 – Foto: Getty Images

Era 1994 quando a atriz Elizabeth Hurley causou frisson na pré-estreia do filme “Quatro Casamentos e Um Funeral”, em Londres, a bordo de um tubinho preto da Versace, repleto de alfinetes dourados e maxidecote. Não era a primeira vez que as coleções flertavam com o punk mas, com certeza, ficou claro que a moda havia se apropriado de vez do movimento anárquico criado em 1974.

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Agora, 45 anos depois dos primeiros acordes do rock de protesto e das jaquetas de couro repletas de tachas, as passarelas voltam a reverenciar a atmosfera caótica que ganhou voz, principalmente, por meio de bandas, como Sex Pistols e The Clash, e do visual na cena underground de Nova York e Londres.

Além da data, é o atual cenário sociopolítico-cultural que abre, naturalmente, espaço para o resgate de elementos do punk. Há algumas temporadas, a moda tem-se declarado de maneira crítica sobre temas que vão do feminismo, discriminação e identidade a questões específicas como posse de armas e aborto. Posicionamento, aliás, bem próximo de questões que davam gás ao movimento que acabou virando statement cultural.

A nova interpretação para as passarelas está mais sutil. Não há roupas rasgadas e cabelos moicanos, mas sobram spikes e couro ao lado de uma alfaiataria precisa, ainda que ligeiramente desconstruída. Essa dicotomia surge porque há uma estética maior em alta, pregando a valorização da elegância. O que a gente vê é o resultado dessas duas forças. São ressonâncias que andam ganhando expressão há pouco mais de um ano.

Balmain - Foto: Divulgação

Balmain – Foto: Divulgação

A Balmain, por exemplo, começou seu flerte pelo verão 2018 masculino e estendeu a proposta ao feminino. O forte, aqui, eram e continuam sendo as jaquetas pesadas com jeitão roqueiro que Olivier Rousteing adora. Na coleção inverno 2019/20, ele cobriu várias peças de spikes, inclusive bolsas e sapatos. Correntes viraram headpiece, o jeans foi desfiado até se assemelhar a pelo e mangas vieram destacadas dos ombros, como se tivessem sido arrancadas à força. Tudo impecável para princesas-rebeldes que desafiam o status quo conectadas à preocupação de Rousteing de falar sobre expressão e autodeterminação.

Gucci - Foto: Divulgação

Gucci – Foto: Divulgação

Na Gucci, os spikes vieram gigantes, arrematando acessórios e roupas em um discurso cerebral que também passa por questionamentos acerca do indivíduo, em especial do jovem contemporâneo. O que ele pensa? O que ele quer? Quem está por trás da máscara social? Colocações que ajudam a reforçar seu diretor criativo, Alessandro Michele, como uma das mentes mais questionadoras da moda contemporânea.

Prada - Foto: Divulgação

Prada – Foto: Divulgação

Assim como Miuccia Prada. Cada um com sua estética. Na Prada, a imagem era a de uma vibe de bad romance inspirada em Frankenstein, de Mary Shelley. Isso na superfície, porque a marca sempre tem algo mais profundo que alinhava tudo. Nesta temporada inverno 2019, foi a visão crítica acerca dos conflitos na Europa, que inclusive trouxe para a coleção peças com inspiração militar.

Marni - Foto: Divulgação

Marni – Foto: Divulgação

A resposta da Marni ao presente meio dark traz um punk com pitadas de gótico. O diretor criativo da marca, Francesco Risso, não fez uma coleção fácil de ser digerida, mas propôs vários looks muito bons, dos vestidos com piercings a efeitos desabados.

Versace - Foto: Divulgação

Versace – Foto: Divulgação

Já na Versace, o diálogo foi com o grunge em uma série de looks mais fáceis de serem assimilados pela consumidora.

Alexander McQueen - Foto: Divulgação

Alexander McQueen – Foto: Divulgação

Pulando da Inglaterra para o Reino Unido, cenário clássico do punk, Sarah Burton foi primorosa na Alexander McQueen. O movimento entrelaça a coleção que fala de reaproveitamento de materiais e a tradição inglesa da alfaiataria.

Vivienne Westwood - Foto: Divulgação

Vivienne Westwood – Foto: Divulgação

E não há como deixar Vivienne Westwood de fora de uma história como essa. A mais anárquica das estilistas continua provocando polêmica, inclusive, sobre a qualidade do seu próprio trabalho.

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