PRETO-NOTA
Givenchy, Marc by Marc Jacobs, Alexander Wang e Marc Jacobs no inverno 2015 – Fotos: Agência Fotosite

Por Giuliana Mesquita

Existem duas formas de entender o preto: ausência de cor ou a soma de todas elas. Para os fins deste texto, vamos pensar nele da segunda forma. Afinal, ele é também combinação das principais ideias vindas das passarelas internacionais de inverno 2015: a opulência, a excentricidade de estilos e o fim do normcore. Aqui, porém, numa versão um tanto sombria, mas essencialmente romântica, numa soma de texturas na sua forma mais dark: uma sequência de brocados, bordados, jacquards, rendas, sedas, veludos, telas até o mais fetichista dos couros e vinis. Para quem escolheu o preto como estilo de vida, é a maior gama de opções que se pode ter. E, nesta temporada, está tudo lá, tudo junto e ao mesmo tempo.

É assim que a lição número 1 para qualquer adepto do once you go black you never go back assume posição de destaque nas produções desta estação. Apesar de aparentemente fáceis e práticas, composições monocromáticas padecem de monotonia. A melhor solução? Texturas ton sur ton – prova de que looks de uma única cor podem, sim, ser máxi e não míni(malistas). O que pede também uma boa atenção aos detalhes e adereços.

Diferentemente dos anos 1990, quando o preto se tornou uniforme oficial dos fashionistas e cor de preferência da revolução japonista na moda, o tom, agora, toma ares mais opulentos, como no exército gótico-punk de Alexander Wang para seu inverno 2015. Apesar de pretas, as peças eram feitas de couro, vinil e até com algumas padronagens bordadas em casacos alongados e vestidos curtos de mangas com detalhes em veludo e tachas. Já no desfile da Givenchy, Riccardo Tisci mistura rendas vitorianas em vestidos mídi, casacos de cintura marcada por estruturas de corset em couro e tomara-que-caia de veludo com o busto bordado – e a imagem é ainda mais forte com os piercings (pretos!) por todo o rosto. Na Marc Jacobs, a sexualidade velada de saias completamente transparentes, combinadas com casacos oversized fechados até o pescoço e vestidos longos, cobertos de cristais, criam uma atmosfera quase de luto, ao mesmo tempo em que retomam rituais da máxima elegância.

“No período em que a Europa e os EUA estavam em crise, vimos, como reflexo, os looks minimalistas nas passarelas”, conta Beatriz Modolin, gerente de conta e especialista em pesquisa de tendências da WGSN LATAM. “Agora que o hemisfério norte superou esse momento, vemos uma mudança na moda, que nas últimas temporadas tem apresentado coleções extremamente luxuosas e ricas em materiais e detalhes, mas sem perder esse lado mais intenso e sombrio.” O pós-crise acarreta ainda um sentimento de melancolia romântica, que é traduzido em roupas de luto, ainda que luxuosíssimas, e uma glamurização da decadência. Algo como não se desprender do luxo mesmo em tempos difíceis. Esse mesmo sentimento foi explorado na exposição Death Becomes Her: a Century of Mouning Attire, de outubro de 2014, no Metropolitan Musem of Art, toda focada nos códigos de vestimenta fúnebres das eras vitoriana e eduardiana, entre 1815 e 1915, principais pontos de referência para as coleções total black.