Look de Jal Vieira – Foto: Divulgação

Por Eduardo Viveiros

No último SPFW, um backstage chamou atenção por fugir do padrão do que sempre foram as semanas de moda brasileiras. Angela Brito, que acabara de desfilar, liderava casting e equipe de profissionais negros. Todos comemorando uma ocupação política daquele espaço por meio de seus trabalhos.

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A estilista é uma das tantas mulheres que têm aproveitado a moda para despertar discussões. Um movimento que vai para além das camisetas com slogan e que vem usando do poder feminino para fazer diferença dentro dos seus universos. Bazaar apresenta três delas para comemorar o Dia Internacional da Mulher, neste domingo (08.03):

Angela Brito

Look de Angela Brito – Foto: Divulgação

Cabo-verdiana, Angela é radicada no Rio de Janeiro há 25 anos. É do ateliê, em Botafogo, que saem suas coleções, calcadas em alfaiataria, que sempre dizem muito sobre o que se passa na sua realidade – de mulher, negra e imigrante. Mas ela quer levar a discussão para outro patamar. “Me incomoda ser colocada sempre nesse lugar de personagem, pois parece que as pessoas não estão interessadas no seu trabalho e ficam só na superfície da pele”, conta. “Gostaria que minha cor não falasse tanto. Jura que ainda precisamos discutir raça em 2020?”, questiona. Mas não se priva de trazer para perto quem vive esse legado, usando a passarela para levantar questões raciais ainda inevitáveis: “Tento criar essa empatia de forma sensível”. Da sua faceta estrangeira vem a reflexão da próxima coleção – que ela guarda a sete chaves, mas pincela: “A história da minha vida é a do não-pertencimento. Sou estrangeira aqui e na minha terra, e me vi estrangeira no SPFW. Então acabei voltando para o que veio antes de mim”.

Jal Vieira

Looks de Jal Vieira – Foto: Divulgação

“Só trabalho com mulheres pretas na passarela, porque eu sou uma e quero me ver representada”, diz, calmamente, Jal Vieira, uma das últimas boas entradas da Casa de Criadores. Jal representa muito do personagem de um novo Brasil que tomou seu espaço nos anos 2000: é mulher, negra, filha de nordestinos e cria da periferia barra pesada paulistana, onde viveu boa parte da vida. Entrou na faculdade Belas Artes via Prouni e, na moda, caiu por “um tropeço”. “Sempre tive talento para desenho, mas odiava moda. Tudo porque eu não me via lá dentro. À distância, era um mundo que não me pertencia. Não havia pessoas negras como referência.” A mudança veio por meio da formação e de seis anos como assistente na Amapô. Sua marca, entre idas e vindas, está aí desde 2011 – sempre trabalhando temas afro e brasileiros, aplicada no trabalho manual com matérias-primas não convencionais e rodeada por mulheres. “Estou aproveitando esse espaço. Se nossa presença está incomodando, estamos no caminho certo.”

Daspu

Performance na apresentação da Daspu – Foto: Sato do Brasil

A Daspu não é novata. Está aí há 15 anos resistindo off-passarela, nas ruas. Não por força de expressão: a marca, fundada pela ativista Gabriela Leite como um braço de uma ONG em defesa dos direitos das prostitutas, usa da moda para movimentar a mídia sobre o assunto, além de fazer conexões entre a arte e a discussão da liberdade sexual e de gênero. Para 2020, com apoio do edital tocado pelo Fundo Elas e Instituto C&A, preparam uma coleção feita em mentoria com dez residentes da Casa Florescer, centro de acolhida a travestis e mulheres transexuais de São Paulo. “Queremos que elas possam colocar nessa criação o que de fato tem a ver com esse estigma da ‘puta’ e com a moda que ainda reforça violências ligadas a gênero”, conta Elaine Bortolanza, diretora criativa da Daspu, apontando que a passarela mainstream tem se aproveitado dessas personagens, mas sem trazê-las para perto. “A criação tem de reverberar nesses corpos. Se não, apenas inventa-se uma moda que não leva em conta essa subjetividade”.