Dior, verão 2019 - Foto: Divulgação
Dior, verão 2019 – Foto: Divulgação

Por Julia Lopes

Quem que estaríamos assistindo, nos tempos em que ainda vivemos, à volta tão rápida do desejo pelo sonho depois de cairmos na real em tênis e camisetas de protesto? A própria Dior de Maria Grazia Chiuri, que apresentou a t-shirt feminista, trocou de sintonia e trouxe a teatralidade, a dança, o drama na coleção verão 2019, reforçada ainda mais na coleção de alta-costura, com referência circense.

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Burberry, verão 2019 - Foto: Divulgação
Burberry, verão 2019 – Foto: Divulgação

Volta a alfaiataria clássica da marca, volta o ar de superioridade criado nas imagens de Richard Avedon dos anos áureos. A estreia de Riccardo Tisci na Burberry vem com lenços suntuosos, mangas bufantes que tomam conta de ares nem mais tão urbanos.

Balmain - Foto: Divulgação
Balmain – Foto: Divulgação

A volta da Balmain para a alta-costura, 16 anos depois, em uma tentativa de Olivier Rousteing de recuperar o sonho perdido. Seria muito mais fácil simplesmente olhar as passarelas e imagens, choramingar o fim da era da moda street e preparar os pezinhos para voltar ao salto agulha.

Mas pensar moda faz parte. E, convenhamos, elegância é tão relativa quanto os termos que deram origem à palavra. Elegância vem do latim elegantia. Palavra que deriva do verbo eligere. O verbo já significava, antes de estar conectado com qualquer ideia proveniente de estilo, o ato de eleger, de separar o “bom” do “ruim”.

Não é difícil, contudo, imaginar a transposição desse sentido de seleção e curadoria para o mundo da moda, originariamente conhecido como o mundo dos “escolhidos”. Os elegantes são, então, aqueles que sabem escolher, que têm “bom gosto”. Mas, pera lá… O que seria bom gosto mesmo? É sabido que, como todas as opiniões e adjetivos, como bonito, feio, sofisticado, moderno, o conceito de elegância acompanha o espírito do tempo. O que seria “uma mulher elegante” nos anos 1980? Certamente uma que usava sutiã com ombreiras para ter um contorno de silhueta mais masculino e poderoso, como bem pedia a luta das mulheres por um lugar ao sol do trabalho e do dinheiro. Totalmente o oposto da mulher elegante dos anos 1990 – que era superminimalista! Nem sombra de ombreiras nessa proposta. Tudo fluido, effortless, sem make, com cabelo bagunçado, sem adornos, sem enfeites.

Então, como podemos dizer, como está no título deste artigo, que “a elegância voltou”? De que elegância estamos falando? Podem ser muitas, mas vivemos no século 21 e vamos ter de encaixar esses novos modos no nosso lifestyle. A elegância de que estamos falando é o de “se arrumar”. Como classicamente conhecemos. É pensar no valor mais standard da moda, que exibe riqueza com volumes, enfeites, abundância de tecidos, de produção.

Dior e o New Look - Foto: Getty Images
Dior e o New Look – Foto: Getty Images

Exatamente o que aconteceu com o New Look de Dior. Que chegou nos anos 1950 varrendo a escassez das guerras e trouxe o glamour de uma cinturinha marcada, saia rodada, muito tecido. Pura pose. Talvez um conceito mais firme e menos mutável que o da elegância seja o do dress up.

A moda é também um eterno alternar de montar e desmontar. O dress up está no montar. É positivo. É para cima. Se olharmos para as décadas, o mood geral passa por essas alterações. O mood da década de 1950 era montar, dress up, para cima, positivo, no sentido mais visível da palavra. Também era o mote da década de 1980. O elaborar, o enfeitar-se.

Foto: Reprodução/ NowFashion
Foto: Reprodução/ NowFashion

Depois de um período down, a moda ficou na moda no começo dos anos 2000 e tivemos tanto romantismo… Aí chegou o street com Vetements, Gucci e marcas esportivas ditando luxo. E, pronto, novamente, voltamos ao dress up! Por vezes o conceito esbarrou na praticidade – hello, saltos altos!

Não à toa, quando a moda quis buscar praticidade e “vida real”, a vida nas ruas, a vida móvel, focou de cara nos sneakers. Na Burberry de Riccardo Tisci ainda encontramos território bastante favorável a um meio-termo entre o street e o impecável que está por vir.

Londres é a cara desse lugar na nossa memória de moda que mistura o podrinho com o superhigh. Primeira imagem que vem à mente é a de Sid Vicious, punk star do Sex Pistols, em styling elegante de blazer e calças brancas cantando “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, no final dos anos 1970.

Ele transforma a música tradicional e high society num deboche punk. No final do clipe, saca uma arma do bolso e atira na plateia, senhoras e senhores em roupas cerimoniosas, colares, blazers, looks elitistas e antiquados. Estamos hoje neste mesmo limbo, mas no caminho inverso: o rebelde sai das ruas para sentar-se nos salões.

Pode ser que não abandone de cara sua bomber jacket, nem seu par de sneakers. Mas o penteado está milimetricamente grudado na cabeça, e as mangas bufantes serão de algo que lembre tafetá. Está mais, digamos, arrumadinho. Voltou o sonho, o descanso das ruas e do real. A moda tem um baú cheio de referências para revisitarmos e, quem sabe, nos divertir um pouco. Vamos em frente.

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