Foto: divulgação
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Por Cibele Maciet

Faltam cinco dias para o desfile de verão 2016 de alta-costura da Chanel e, a 15 quilômetros de Paris, numa antiga fábrica de fósforos, em Pantin, as silhuetas com miçangas, paetês e canutilhos de madeira ainda estão nas mesas sobre as quais se debruçam quase 70 petites mains, como são chamadas as delicadas e habilidosas mãos que dão vida à couture. Estamos na maison Lesage, histórico ateliê de bordados, criado em 1858 e comprado pela Chanel em 1992. O clima é de um silêncio zen, interrompido, vez ou outra, por explosões de risadas. Ao contrário do que se imagina, quando se fala em técnicas artesanais centenárias, não há nada de velho ou antiquado aqui. Os rostos são jovens, braços cobertos de tatuagens e cabelos coloridos.“A faixa etária vem diminuindo cada vez mais”, diz Florian Heulin, o assessor de imprensa que recebeu a Bazaar para um tour. Segundo ele, muitos dos funcionários têm entre 23 e 35 anos, e novos cargos são criados anualmente. É que a recente movimentação para trazer a alta-costura para o século 21 vai muito além da passarela. No caso, bem antes dela.

Desfiles seguem como a principal vitrine, mas não é só o produto final que importa. O processo é tão importante quanto. Reflexo de uma mudança de pensamento que se preocupa, cada vez mais, com como, onde e por quem o que consumimos é feito. Ok, aqui esse consumo é exclusivíssimo, mas nem por isso menos relevante. Showman sem igual na moda de hoje, Karl Lagerfeld sabe disso – e orquestra, com maestria, todo o aparato de luxo ao seu dispor para alinhar a tradicional couture parisienne ao zeitgeist do aqui e agora. Para o desfile de verão 2016, apresentado em janeiro, por exemplo, ele transformou o Grand Palais numa espécie de oásis ecoconsciente. Construiu uma imensa casa de madeira com inspiração no design escandinavo e a rodeou de jardins orientais – tudo sob tranquilizante céu azul (falso, mas com efeito real, num dia frio e cinzento). De lá saíam suas modelos, vestidas em tailleurs e vestidos de silhueta alongada e decorados com bordados de madeira, cortiça, papel reciclado e uma infinidade de tecidos 100% orgânicos. “Eco-couture”, nas palavras de Karl.

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E apenas uma semana depois de a Conferência Mundial de Mudanças Climáticas da ONU dar novo fôlego às discussões sobre sustentabilidade e reciclagem. Temas antes impensáveis para um segmento preocupado com luxo máximo e satisfação única de sua seleta clientela. Mas, há tempos, a moda não vive numa bolha e está em constante sinergia e sintonia com as principais forças que movem o mundo. Na verdade, não seria em nada descabido pensar na alta-costura como o braço da produção de moda com menor impacto ambiental da indústria.Tudo é feito manualmente, com horas e mais horas de trabalho, e o produto final, para durar uma vida toda.

Vide o casaco de mangas bufantes e plissadas, com borda- dos tridimensionais de madeira no busto – foram necessárias mil horas de trabalho para sua finalização. Na capa e no vesti- do coberto por filetes de madeira, desfilados por Gigi Hadid, foram 800 horas. O longo vestido preto com pequenas abelhas feitas de pluma de ganso demorou 340 horas de trabalho, entre a pintura a mão das plumas e sua costura no tule. E o vestido de noiva com jaqueta tipo hoodie consumiu 50 metros de renda branca (cortada em pequenas tiras e amassada para formar as flores costuradas manualmente), mais 2 mil cristais, 950 pedacinhos de couro, 2.500 pérolas nacaradas, 2 mil canutilhos e 2.500 pérolas de madeira. No total, mais de mil horas de produção.

Na oficina de Lemarié, fundada na época da Belle Époque, plumas e mais plumas, de todas as formas e tonalidades, ocupam espaço nas mesas. Desde os anos 1950, a marca trabalha para as melhores casas de couture, bem como o Lesage.“Cada ateliê tem seus próprios clientes, não existe só a Chanel. Trabalhar para marcas diferentes permite que elas se desenvolvam, criem novas técnicas e produzam mais”, explica Florian. Mas não há como negar que é a Chanel a principal responsável pela preservação e sobrevida das tradições da alta-costura. Desde os anos 1990, a marca passou a comprar uma série de ateliês, alguns dos quais com grande dificuldade em se atualizar e acompanhar o ritmo do mercado. Hoje, eles são 11: Desrues (de botões e aviamentos de fine jewelry), Lemarié (de plumas e flores de tecido), Massaro (de sapatos), Lesage (de bordados), Goossens (de joias e bjioux), Maison Michel (de chapéus), Guillet (de tiaras e acessórios floridos), Montex (de bordados também), Causse (de luvas), Barrie Knitwear (de tricôs e cashmere) e Lognon (de plissados). E, para homenagear esses verdadeiros artistas, Karl criou o desfile Métiers d’Art, em 2002, no qual exibe a excelência de seus artesãos, inspirando-se, cada ano, em uma cidade diferente.

Cinco dias depois, terminado o desfile no Grand Palais, a maison Massaro, em Aubervilliers, a 9 quilômetros de Paris, está em clima de festa.“Estamos satisfeitos com o resultado”, comemora Tom Chardin, chefe do ateliê. A marca, fundada em 1894, ganhou, desde cedo, os pés de estrelas como Marlene Dietrich, Elizabeth Taylor e Romy Schneider.Criados sob medida, eles estão com a Chanel desde 1957, época do lançamento do famoso slingback bicolor da marca, mas que só foram comprados pela grife em 2002.“Nesta última coleção, criamos mais opções para nossas clientes. Elas podem pedir a mesma sandália de cortiça em um salto menor, em outra cor e tecido”, conta Tom. “Aqui está o resultado de mais de cem anos de trabalho”, sorri, em frente ao seu impressionante arquivo de diferentes moldes de sapatos.

“Desenvolvemos tudo, desde a medição do pé da cliente, a elaboração da forma em madeira, a costura, tudo. Só temos um inimigo, o tempo”, reclama ele, que confessa ter terminado todos os modelos do desfile na véspera, às 18h.“Levamos 35 horas para conceber cada par da coleção. Eles foram elaborados em cetim preto, tweed e fios de ouro, ráfia e pérolas nas pontas”, explica.“Mas fiquei com medo dos vãos do chão. Algumas modelos não estavam muito à vontade com eles”, revela Tom, ao lado de Jacques, contre-maître da label há 35 anos.“Adoro fazer sapatos para mulheres, me entendo melhor com elas”, brinca o libanês, que faz todos os calçados da Chanel desde a chegada de Karl. “Tenho medo de não conseguir transmitir meu savoir-faire. Há poucos jovens interessados na profissão de sapateiro. Comecei aos 13 anos,no Líbano,e demorei quatro para começar a aprender qualquer coisa”, resume Jacques, com um sorriso de quem conseguiu driblar o tempo.

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