Modelo posa com itens da collab de Urs Fischer com a Louis Vuitton – Foto: Divulgação

Não é de hoje que a Louis Vuitton convida artistas para dar sua interpretação a baús, vitrines e lojas da marca. Entre as mais fabulosas coleções estão a de Takashi Murakami e Yayoi Kusama. Este ano, o artista Urs Fischer empresta seu savoir faire para uma collab que estampa objetos de couro, ready-to-wear, sapatos e acessórios.

Ele estilizou o monograma florido e as iniciais da LV, dando o nome de memory sketches. Esses esboços da memória, no bom português, foram aplicados às peças nas tonalidades preto e vermelho e preto e branco. Com tamanha devoção, conceito e técnicas, os itens podem, sim, ser chamados de obras de arte. “Mas o que é arte?”, brinca o sueco tentando nos confundir, direto do jardim de sua casa em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Urs Fischer – Foto: Divulgação

Ao recriar o monograma da LV, Fischer explica que recorreu às lembranças de sua infância e foi desenhando até chegar ao conceito final. “Essa ideia de distorção por meio da memória é fascinante para mim e achei que era uma boa maneira de criar uma nova camada de mitologia em torno do monograma.”

Desde pequeno, ele via o símbolo da marca, mas ainda não entendia o desejo em torno de seu legado. Foi absorvendo ao longo dos anos e, talvez, tenha conseguido entender as motivações de ver arte estampando um produto depois do japonismo de Murakami com a mesma Louis Vuitton, em 2003. “Aquele pensamento abriu um diálogo entre fashion e arte, que sempre foram tabu.”

O ateliê de Urs Fischer – Foto: Divulgação

A inspiração de Fischer para a parceria deste 2021 vem do universo colorido e de personagens ficcionais de seu trabalho em outras plataformas. “Quando você usa animais e formas não humanas para comunicar algo, consegue uma licença poética”, conta o apaixonado por fábulas. Nas fotos da coleção (e até mesmo vitrines da LV pelo mundo), é possível vislumbrar personagens como uma minhoca saindo da boca de um peixe, um gato dormindo em uma banana, uma pomba equilibrando um pêssego, entre outros beliscos, como ovo e abacate. “Avocado é uma coisa estranha. Quando nasci, não era algo que a gente esbarrava por aí. Ou pelo menos não era popular, onde nasci (Suíça). Mas ele foi introduzido na nossa vida, lá nos anos 1980, possivelmente com a Jane Fonda”, ri.

O maior desafio para o artista era conseguir botar em prática as ideias e visões que tinha em seu estúdio, em Nova York. “Não sabia como executar porque não sou do universo da moda. Então, conversávamos com o time da Louis Vuitton com experiência em habilidades manuais e que faz isso há centenas de anos”, reforça.

A bolsa Speedy 25 – Foto: Divulgação

Para as bolsas, por exemplo, queria que o monograma tivesse uma sensação tátil, gostoso para descansar as mãos. Para isso, o ateliê desenvolveu uma técnica de tuffetage, usando material parecido com veludo e textura macia, como se fosse um ursinho de pelúcia. Sobre as cores da coleção, mais memórias. “Sempre gostei da dança flamenca. Tem uma sinergia com a música, que praticamente nos recarrega. Um elemento preto com uma pequena dose de fogo e paixão.”

Quando coloca alguma inspiração nova no mundo, Fischer gosta de conflitar sonho e realidade. E, com isso, fazer com que as pessoas se divirtam, admirando suas obras. Impossível não fazer essa associação com as peças que levam seus traços – e que já estão à venda.