Por Lucas Boccalão

Hoje, ninguém mais fica escandalizado se você sair na rua, sem-vergonha, com uma gargantilha sadomasoquista (elas estão até nas passarelas!), anéis massageadores (íntimos) e grampos de mamilo. Mas há males que vêm para o bem. Essa,digamos,“apatia” também abriu caminho para o que antes era restrito às íntimas quatro paredes. É nesse cenário que a designer Betony Vernon saiu do underground e ganhou as prateleiras de lojas como Colette, Dover Street Market e Opening Ceremony com suas joias eróticas.

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“O corpo, o prazer e o desejo – desejo de se sentir linda, sexy, empoderada e poderosa. Desejo move tudo”, diz Betony, sobre o ponto de partida de suas criações, em entrevista à Bazaar. Aqui, o design segue a máxima da forma e função. Os desenhos das peças são extremamente funcionais, e o objetivo é tão estético quanto sensorial – cada joia é acompanhada de uma espécie de manual de instrução sobre seus diferentes usos. Dos mais leves aos mais pesados. Ou, em termos práticos, de plumas e pingentes de chicotes de crina de cavalo até palmatórias de madeira presas a braceletes de prata. O material, aliás, é recorrente ao lado do ouro – mais sofisticados, fáceis de lavar e poderosos condutores de energia.“Também são duráveis e seguros para o corpo, diferente da maioria dos plásticos usados na produção de sex toys”, explica.

Para Betony, estética e sofisticação são tão importantes quanto os atos que foram deturpados pela indústria pornográfica.“Antes de mais nada, sou uma joalheira”, afirma. Seu interesse pelo ramo surgiu após os estudos em História da Arte e Religião na Virginia Commonwealth University. Foi então que se mudou para Florença e depois para Milão, onde fez mestrado em Design Industrial, na Domus Academy, e colaborou com Missoni, Gianfranco Ferré e Jean Paul Gaultier. O voo solo veio só em 1992,“época em que tudo que tinha a ver com S&M e sexo era considerado pervertido, obscuro e sujo”. As primeiras peças eram para uso pessoal e para algumas poucas clientes.

“Minha saída do armário, por assim dizer, foi em Paris, alguns dias depois dos atentados de 11 de setembro, em 2001”, diz, sobre a primeira vez que usou suas joias eróticas em público. “Foi um momento em que percebi que, se fosse para continuar desenhando, seria em nome do amor, do entendimento sexual e do bem-estar.Aquele acontecimento mudou o mundo e serviu para me convencer de que a única coisa que faltava era mais amor e respeito mútuo.” Começava ali um de seus principais trabalhos – muito além dos objetos que cria para coleções contínuas (“sempre trabalhei no meu tempo e com a durabilidade em mente”).

Apesar da maior abertura para assuntos sexuais, fetiches e o universo sadomasoquista permaneciam tabu. Educar e desmistificar o sexo e o universo fetichista tornaram-se suas prioridades.“Percebei que, para continuar com meu trabalho de design erótico, teria de assumir a função de educadora. Então, comecei a ministrar cursos de bem-estar sexual e, em 2005, me dei conta que não faria nenhuma mudança se não atingisse um público maior.”Nascia assim o livro A Bíblia do Prazer (disponível na amazon.com), verdadeiro tratado sobre sua visão sexualmente empoderadora para mulheres e homens.“Vinte e quatro anos atrás, quando desenhei minha primeira coleção, a Sado-chic, não tinha a menor ideia de que meus produtos se tornariam minha vida, trabalho e missão para desmontar o tabu sobre os prazeres.”