por Luigi Torre

A semana de alta-costura terminou na última quarta-feira (06/07), em Paris, jogando luz em temas dos mais quentes (e polêmicos) na moda de hoje. Ombros marcados e salientes, preto e branco, comprimentos mídi e sandálias rasteiras são algumas das principais ideias que devem migrar para o prêt-à-porter e, em breve, para seu guarda-roupa. Mas, na verdade, estamos falando de conceitos mais amplos. Assuntos que já começam a abalar as estruturas da indústria. São questões como tecnologia vs. tradição artesanal; imediatismo e amplo acesso vs. horas (as vezes até semanas) de trabalho manual e máxima exclusividade; colaboração criativa vs. a figura centralizadora de um único diretor criativo ou couturier.

Qualquer semelhança com dilemas da vida fora das passarelas não é mera coincidência. A máxima de que a moda é um espelho dos humores e vontades de uma sociedade em determinado período de tempo é ainda mais verdadeira quando inexistem as pressões e demandas comerciais comuns ao ready-to-wear. E assim, os primeiros sintomas já podiam ser sentidos no próprio line-up: superlotado! E não apenas de marcas de alta-costura, mas supostos intrusos, refugiados do caos que se tornaram as fashion weeks do prêt-à-porter e atraídos pelo bom timing para vendas durante couture (que garante entregas antecipadas e mais tempo em lojas).

 Foi o caso da Vetements, marca mais cool e desejada do momento, que, ao tomar de assalto (ok, foi à convite de Chambre Syndicale de la Haute Couture) a abertura da semana de alta-costura, deu um choque de realidade street num mundo mais acostumado a portas fechadas. O que se viu na passarela foi um pouco mais daquele estilo de rua repaginado, desconstruído e reconstruído com proporções máxi. Desta vez, porém, à assinatura coletivo, comandado Demna Gvasalia, juntam-se mais 18 marcas, como Levi’s, Hanes, Reebok, Comme des Garçons, Juicy Couture, Brioni, Manolo Blahnik e Mackintosh, que colaboraram na produção de peças, dos jeans e camisas, aos moletons e botas acetinadas. Em tempos conservadores e separatistas, a mensagem de união sem fronteiras foi mais clara impossível.

 E bem quando o mundo começa a se dar conta de algumas mazelas da tecnologia digital (da desigualdade social e cultural, às ameaças de privacidade e rapidez com que o novo descarta o velho) as maiores maisons de alta-costura decidiram fazer de seus desfiles e coleções verdadeiras homenagens aos seres humanos de mãos habilidosas responsáveis por dar vida a alguns dos vestidos e peças mais exclusivos e exuberantes do planeta.

Na Dior, com releituras suavizadas do New Look em tecidos superleves e toda em preto e branco, a dupla de estilistas Serge Ruffieux e Lucie Maier dedicou a coleção (provavelmente a última do duo à frente da marca) aos profissionais que dão corpo aos ateliês da casa. Karl Lagerfeld, na Chanel, numa coleção quase toda sobre estrutura e construção focada nos ombros (achatados ou angulares, mas sempre proeminentes), transformou o Grand Palais num grande ateliês de alta-costura, com direito aos próprios artesãos de marca trabalhando in loco. Até Donatella Versace deixou de lado sua sensualidade hiperglamourizada para se debruçar sobre drapeados, pregas e plissados. O resultado: uma desfile que se destaca mais pela feminilidade do que pelo sexy.

 Feminilidade, aliás, foi outro tópico recorrente nas coleções de couture. Ainda que uma não muito óbvia e bastante histórica, com referências vitorianas, renascentistas e imperiais. O que revistou os desfiles com um certo ar de realeza e nobreza – algo que até faz sentido em se tratando de alta-costura e de quem ela veste. Melhor exemplo encontra-se no inverno shakespeariano da Valentino (no que foi a última coleção de Maria Grazia Chiuri ao lado de Pierpaolo Piccioli – ela assumirá a Dior) já com suas golas elisabetanas, ombros bufantes (olho neles!) e cortes de extrema pureza e sobriedade. Dramático? Um pouco, mas quem está livre de dramas hoje em dia?