Balmain inverno 2018 - Fotos: Getty Images
Balmain inverno 2018 – Fotos: Getty Images

Por Silvana Holzmeister

Na passarela do inverno 2018 masculino da Balmain, uma das camisetas estampava “Fashion is not evolution, but revolution”. Segundo o diretor criativo da marca francesa, Olivier Rousteing, é a inversão de uma frase de Pierre Balmain, atualizando para os dias de hoje o papel da moda.

 

Mais do que apontar evolução, Rousteing destaca a importância do visual em traduzir uma revolução que sacode a sociedade contemporânea em várias frentes, como as incertezas diante da escalada do digital e o comportamento dos novos consumidores que passa, invariavelmente, pelo exercício bem mais democrático do vestuário.

 

Comme des Garçons inverno 2018 - Fotos: Getty Images
Comme des Garçons inverno 2018 – Fotos: Getty Images

Nessa caminhada, o vestido ocupa posição emblemática. Sem assumir bandeiras, o diretor criativo vem cada vez mais homogeneizando as coleções da Balmain, resgatando um decorativismo banido do universo masculino há mais de dois séculos e que sempre foi seu trunfo no feminino. Junto com bordados, plissados, metalizados e detalhes de correntes com pegada rocker, ele vem alongando t-shirts e blazers para serem usados sobre calças skinny. A conexão vem com equivalentes usados por garotas, que, há tempos, temperam sua passarela no menswear.

 

O contraponto dessa pegada mais sexy ganha expressão com a tendência dos vestidos amplos e austeros, bem ao estilo camisolão. A proposta aparece no Pre-fall 2018 de marcas com perfis totalmente diferentes, de Giambattista Valli a Roberto Cavalli.

 

Gucci inverno 2018 - Fotos: Getty Images
Gucci inverno 2018 – Fotos: Getty Images

Cabe à Gucci, porém, o mérito de dar o pontapé inicial na estética. Para o Verão 2018, a versão de Alessandro Michele veio ricamente decorada com cristais. Jeremy Scott também lançou mão do brilho no modelo tubular usado sob parka de nylon na consistente coleção fetichista da Moschino para o Inverno 2018.

 

Para a mesma estação, Demna Gvasalia reforçou seu discurso inclusivo em looks repletos de camadas na coleção batizada de The Elephant in the Room, enquanto soluções minimalistas surgiram nas passarelas da Comme des Garçons Homme e de Rick Owens.

 

Se, no passado, versões semelhantes a túnicas foram itens indispensáveis na indumentária masculina, hoje o vestido parece ser a fronteira que de fato vai diminuir as diferenças de gênero. O professor de história da moda João Braga lembra que, até a Idade Média, não havia distinção de gênero na vestimenta – todos usavam túnica e manto. Foram as armaduras incorporadas às cruzadas no período gótico que deram início à distinção do visual, tornando a roupa masculina mais articulada e evoluída do que a feminina.

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Vetements inverno 2018 - Fotos: Getty Images
Vetements inverno 2018 – Fotos: Getty Images

A era industrial tratou de lhe dar praticidade, com a alfaiataria. O movimento unissex, iniciado nos anos 1960, acrescenta Braga, vem, desde então, devolvendo o enfeite ao visual masculino. Hoje, o ato de um homem usar vestido ainda é associado ao cross-dressing, mas é aqui que mora a grande sacada da moda. Ao valer-se de corpos andróginos em desfiles mistos, muitas vezes é bem difícil apontar o gênero. O ato de rotular, tão comum ao ser humano, acaba ficando em segundo lugar e o que sobressai é a liberdade de cada um usar o que bem quiser.

 

E, aos poucos, a gente começa a ver um fluxo nas ruas. Como decretava Madonna há quase 30 anos: “Express yourself”! O cenário respalda, com razão, a decisão tomada pela Gucci no ano passado de unir masculino e feminino no mesmo show. E mais: além de reduzir custos, a mensagem chega de maneira bem mais coesa ao consumidor.

 

A ideia, entretanto, não é recente. A Vetements nasceu com essa proposta, assim como a À la Garçonne por aqui. A diferença é o burburinho, que promete virar barulho equivalente ao do see now, buy now. Outras marcas, como Salvatore Ferragamo, Balenciaga, Etro e Jil Sander começam a seguir o mesmo caminho, independentemente de adotarem posicionamento genderless. Mesmo assim, este pode ser o grande impulso para avançarmos um pouco mais rumo a uma vestimenta, de fato, mais democrática.