Vívian usa camisa de seu acervo pessoal, pantalona Herchcovitch; Alexandre e sandálias Vitorino Campos - foto: Harpers Bazaar
Vívian usa camisa de seu acervo pessoal, pantalona Herchcovitch; Alexandre e sandálias Vitorino Campos – foto: Harpers Bazaar

É a primeira vez, em toda a minha vida, que me vejo desejando calçar sapatos flat. E o ‘em toda a minha vida’ não é exagero – até outro dia, não existia um único modelo sem salto no meu closet. Ando em busca, mais precisamente, de uma sandália tipo birken. Culpa, claro, das passarelas internacionais, que, em favor da descontração que domina atualmente a moda, decidiram, de repente, abolir os tradicionais saltos vertiginosos, regra das recentes estações. Para acompanhar os longos étnicos, luxuosamente bordados, do verão 2014 da Valentino? Flats de couro, adornadas com escaravelhos dourados. O que as glamorosas tribalistas da Givenchy usavam nos pés? Flats de plástico. As surfistas sombrias de Marc Jacobs? Quando não tênis, sandálias esportivas, ao melhor estilo papete. Na coleção de estreia da Tod’s? Flats franjadas.

Uso high heels, todos os dias, desde os meus 13 anos – tenho 26. Ganhei meu primeiro salto aos 12, quando finalmente atingi a numeração “de adulto”, e, um ano de treino depois, já me equilibrava sobre saltos estratosféricos, diariamente, pelos corredores do colégio, para desespero da minha mãe. Culpo minha avó paterna, a fonte do tal presente e feliz proprietária de umas das maiores coleções de sapatos de que tenho notícia. Até hoje, a palavra sapatilha me dá pavor total.

Por isso, quando a Céline desfilou a birken com pele de marta, no verão 2013, nunca imaginei que aquilo, de alguma forma, pudesse chegar ao meu dia a dia. Fonte de algumas das discussões mais acaloradas que já presenciei na redação, do tipo ame ou odeie, mal sabíamos que ela estaria por todos os cantos no verão seguinte. Fato é que, ao trocar o salto alto de suas meninas por algo tão, digamos, espirituoso, Phoebe Philo elevou o termo cool a outro patamar. A imagem era elegante, mas um pouco desleixada ao mesmo tempo. Surgia ali, talvez, o embrião do dress down – termo que, aliás, é a perfeita tradução do mood que define esta edição de Harper’s Bazaar.

Meses atrás, me vi diante do look que despertou minha real vontade de descer das alturas. Por baixo de um casaco oversized marinho, a francesa radicada em Londres Camille Charrière usava uma microssaia de croco preta, com quilômetros de gambitos à mostra em pleno inverno. Nos pés, uma birken preta de couro. Despretensiosa, cool, chic, zero previsível.

Logo descobri que sua BFF, a dinamarquesa Pernille Teisbaek (ambas stylists, ambas low profile e ambas estilosas até o último fio de cabelo loiro), também é fã devota de birkens e flats do tipo – que ela costuma revezar com mules (minha obsessão pré-birken!) e slip-ons. Fui hipnotizada por um de seus looks, composto de blazer de smoking e pantalona de cavalo baixo, ambos de seda, com uma flat Balenciaga nos pés. Com saltos altos, seria um black tie fashionista; de flats, virou a epítome do cool. Passei um fim de semana completamente obcecada com o Instagram das duas.

Após a longa temporada de desfiles do verão 2014 internacional, na qual passarelas tão distintas quanto Prada (rasteiras esportivas de velcro, superdecoradas) e Proenza Schouler (huaraches artesanais tingidos de metalizados) provaram que, sim, flats eram absolutamente necessárias para trazer frescor ao look desta estação, meu ultimato pessoal chegou em abril: durante o showroom de Vitorino Campos, quando pude conferir mais de perto o verão 2015 do estilista.

Eu havia debutado no universo pé no chão alguns meses antes, com um loafer de veludo e brasão à la Stubbs & Wooton. Uma das minhas preferidas da última semana de moda paulistana, a coleção de Vitorino me encantou justamente pela elegância relaxada, e muito, muito cool. Nos pés – bingo! –, uma flat tipo Rider (sim, o chinelo). Vitorino contou que havia passado as férias de verão em uma casa de praia com amigos, cujos pés abusavam do modelo – e a imagem vinha martelando em sua cabeça.

No dia seguinte, voltei aos meus high heels habituais. Mas eles já não tinham a mesma graça. Me achei séria, meio apagada, quase cafona até. Experimentei todos os meus sapatos preferidos… e nada. Aceitei, finalmente, que havia chegado o tal momento. Já escolhi minha flat preferida (a nova da Céline, com um nó no peito do pé, que vi, justamente, nos pés da Pernille; além do modelo minimalista de Vitorino, claro) e planejo trancar todos os meus saltos a sete chaves no fundo do armário. Pelo menos até a próxima estação.