Por Paula Jacob
É impossível passar incólume de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”. O filme, que dividiu opiniões desde a sua estreia no Festival de Berlim, é intenso – e excelente. Agora, em destaque nas premiações do começo do ano, como Critics Choice Awards e Globo de Ouro pela atuação excepcional de Rose Byrne, o drama escrito e dirigido por Mary Bronstein ganha novos públicos.
A história tem um recorte temporal de uma semana, quando tudo na vida de Linda parece desmoronar. Entendemos na primeira cena que a sua filha tem uma situação de saúde delicada e necessita de cuidados ainda mais próximos, o que irá exigir ainda mais da protagonista. Além disso, ela divide a rotina desses dias com os pacientes do seu consultório de psicologia e um imprevisto em casa: o teto do quarto desmorona após uma infiltração severa, obrigando ela e a criança a ficarem hospedadas em um desses hoteis de estrada, típicos dos Estados Unidos. Tudo isso com o marido viajando a trabalho.
Quando achamos que não poderia piorar, uma de suas pacientes desaparece e a relação com o próprio analista (Conan O’Brien) fica cada sessão mais tensa. Nesse malabarismo de vida real, a personagem entra numa espiral de cinismo, falta de perspectiva e desespero em dar conta de tudo. Um peso que recai sobre a maioria das mulheres, sobretudo das mães. E para deixar a atmosfera da história bem particular, a cineasta colaborou com o diretor de fotografia Chris Messina para uma linguagem visual claustrofóbica e uma montagem frenética. Refletindo na audiência a experiência quase sem ar dessa mulher.
“Esse foi, de fato, um dos destaques criativos, Mary estava tão preparada. Gravamos o filme em apenas 27 dias, então teve todo um trabalho prévio de um ano com Chris para alcançar essa linguagem idealizada por ela”, conta Rose Byrne em entrevista à BAZAAR, que entrou no processo de preparação seis semanas antes das gravações começarem. “Eram três dias na semana só revisando o roteiro, passando por cada página de diálogo. Quando finalmente fomos para o set, nós nos jogamos na experiência. Por termos pouco tempo, eram dois, três takes por cena, havia espaço para a espontaneidade.”
O interessante, além do visual, é o tom da história. Num misto de drama com elementos de comédia, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” equilibra muito bem os momentos de alívio cômico para podermos respirar – caso contrário, seria impossível aguentar até o final. “Essa foi a parte mais difícil, era uma corda bamba encontrar a comédia sem perder a essência do filme. Era uma aposta alta e arriscada, mas o humor era essencial para a audiência ficar com a protagonista”, explica Rose. “Mary foi magistral no jeito que ela conduziu isso.”
Segundo ela, o personagem vivido por A$AP Rocky, hóspede do mesmo hotel de Linda, é um ótimo exemplo disso. “Ele é tão receptivo e charmoso, qualidade que você não pode dirigir. Só de aparecer na tela, traz seu magnetismo. Isso deixa o espectador relaxado.”
Acostumada com papeis desafiadores – quem lembra de Sheila na série “Physical” (Apple TV)? –, Rose Byrne encontra um fluxo criativo impressionante neste drama. É uma performance de tirar o fôlego não só pelo ritmo da narrativa, mas porque ela não teme entrar nas zonas cinzentas da personagem e como ela se sente em relação à maternidade. “As pessoas ficam desconfortáveis com mães que não são típicas ou estão descontentes. Se uma mulher não é amável, ela não é palatável”, afirma. “Os homens, por sua vez, podem fazer o que quiserem na tela e isso é ok – frequentemente ganham prêmios por isso.”
Ao longo de quase um ano desde a estreia em Berlim, Rose compartilha que tem sido revelador como as pessoas se sentem em relação a Linda. “Para mim, é extraordinário que uma personagem como ela existe, sendo honesta, e que eu esteja aqui falando sobre isso.” O que não significa que o processo de desenvolvimento tenha sido fácil, mesmo com seu talento indiscutível. “Não tinha como negar o projeto, mas eu temia estragá-lo por ser assustador. Ela é uma protagonista muito além de qualquer outra coisa que eu tenha feito, principalmente num longa-metragem.”
E se as reflexões acerca da maternidade vista pelas lentes do cinema – historicamente sempre romantizada e idealizada – rondam o espectador, em Rose Byrne ressoou ao quadrado. “Ela me mudou enquanto atriz, enquanto artista, de maneiras que ainda estou refletindo. Foi a oportunidade de uma vida.”




