Chanel Haute Couture 2026 – Foto por Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

Matthieu Blazy leva o lúdico às passarelas da Chanel e retoma a herança de Karl Lagerfeld, que costumava transportar o espectador para outros mundos. Ao apostar na mesma estratégia, Blazy vem construindo universos próprios: sua estreia nos levou a galáxias e ao cosmos; o desfile de hoje, por sua vez, trouxe territórios fantásticos para a passarela.

Desde o convite até o cenário montado no Grand Palais, o cogumelo se impôs como figura central das inspirações. Blazy imaginou o espaço como uma floresta encantada, cercada por cogumelos gigantes que faz referência ao trabalho Upside Down Mushroom Room do artista Carsten Höller, uma instalação com cogumelos gigantes.
Em meio ao contexto atual do mundo, a coleção foi pensada quase como uma pausa: um convite ao sonho e à poesia. O mundo lúdico de Blazy ganhou pequenos spoilers com o teaser da coleção, que mostrava pássaros azuis animados ao estilo Branca de Neve sobrevoando os telhados de Paris, causou certa estranheza antes do desfile, afinal, Coco Chanel nunca foi adepta da fofura. Ainda assim, Blazy transformou essa impressão inicial em um truque de mágica elegante e surpreendentemente sofisticado.

Chanel primavera- verão 1992 -Foto por Daniel SIMON/Gamma-Rapho via Getty Images

Esse imaginário também dialoga com um movimento recorrente entre os novos estilistas: revisitar os acervos das maisons e trabalhar a partir de memórias afetivas, honrando grandes nomes da história da moda. Não por acaso, Karl Lagerfeld já havia se inspirado nos cogumelos na coleção Chanel primavera-verão de 1992.
Assim, o cogumelo deixa o convite e o cenário para ganhar forma em bordados e aplicações. Psicodélico ou absolutamente inocente, ele atravessa a coleção inteira — das silhuetas aos scarpins. E Gabrielle Chanel, onde entra nessa história? Em seu apartamento, havia um cervo de cristal de rocha que segurava na boca um ramo de lírios-do-vale, conhecidos como “o cogumelo da imortalidade”.

Chanel Haute Couture 2026 – Foto por Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty Images

Para onde quer que o olhar se voltasse, surgiam detalhes sedutores e de extrema delicadeza: criaturas mágicas da floresta esmaltadas transformadas em botões, fungos moldando os saltos dos sapatos. Como os pássaros ocupavam o centro do imaginário da coleção — com aves de todas as espécies espalhadas em painéis pelo ateliê da Chanel — as penas apareciam tanto em versões literais quanto reinterpretadas.

O interesse de Blazy pelas aves vem de seu simbolismo: seres livres, viajantes, vindos de todos os lugares — uma metáfora que ele associa às mulheres contemporâneas. Essa ideia se materializou em um vestido flapper dos anos 1920, facilmente reconhecível aos olhos de Coco Chanel, construído como uma composição elaborada de diferentes padrões de pássaros bordados sobre algodão simples.

As peças translúcidas, em tons candy, trazem uma doçura fresca que transita entre a ingenuidade e a sensualidade, sem abrir mão dos cortes precisos e da modelagem marcante imediatamente reconhecível como Chanel. A brincadeira se estende à experimentação têxtil, aos shapes e ao trabalho minucioso da tecelagem, onde o lúdico se encontra com o mais alto nível de sofisticação.