
Por Hermés Galvão
A ressignificação de uma história não se dá apesar de uma perda, mas através dela, como se a cisão abrisse também outra forma de vida. Esse atravessamento estrutura o presente de Humberto Campana, eclodindo em uma das fases mais intensas de sua produção, sem Fernando, seu irmão e parceiro de quatro décadas, morto em novembro de 2022. Entre o vazio do luto e uma série de novos projetos que ampliam sua atuação, o designer de 73 anos segue em plena potência criativa e existencial. Não há recomeço nem renascimento; o que está no campo energético é o sonho da continuidade de uma trajetória livre, intuitiva e irremediavelmente rebelde. Não se trata de defender a individualidade ou a busca de afirmação, mas da conquista da individuação e a celebração da simbiose criativa que um dia uniu os irmãos e que hoje se desdobra. Humberto Campana sempre foi muito, falo de quantidade e intensidade — e das suas complexidades brota o ímpeto quase selvagem de não só de criar, mas de procriar belezas em um mundo cada vez mais bruto.
Nesse mesmo impulso, a parceria com a Tiffany & Co. surge como consequência natural de uma jornada profissional que sempre atravessou o caminho de autoconhecimento e do rigor estético. Como em sua arte, Humberto joga luz sobre a própria sombra para revelar não o inexplicável ou o misterioso, mas o assombroso que nasce a partir do cru. “Já existia em mim uma afinidade com a marca, uma coisa meio espiritual que vem dos anos 1970”, conta. “Aquelas lâmpadas com plantas e raízes [o abajur em mosaico de vitrais coloridos criado em 1895 por Louis Comfort Tiffany] me inspiraram a criar molduras para espelhos feitas com conchas que eu catava nas praias da Bahia naquela época.” Do hippie ao hype, o trabalho se constrói como tradução entre o imaginário da marca, ligado a luxo, romance e herança, e a linguagem de Humberto. No projeto da flagship do Iguatemi São Paulo, estendido para as lojas de Nova York e Milão, ele cria mobiliário e vitrines que preservam os códigos da joalheria enquanto introduzem sua assinatura por meio de formas orgânicas e irregulares, combinando vime, metal e mármore e incorporando técnicas artesanais e diferentes ofícios. A referência ao barroco brasileiro aparece de maneira indireta, ao mesmo tempo que elementos como alumínio distorcido, vitrines inspiradas em minas de pedras preciosas e materiais que evocam o simbólico Tiffany Blue reforçam o contraste entre sofisticação e matéria bruta. “Quando veio o convite, senti que estava pronto, com maturidade e mais seguro de mim. E aí foi uma explosão de ideias. No fundo, é como realizar algo que já estava lá atrás.”
Na encarnação baiana de Humberto não havia projeto de carreira nem percepção estável de talento. Pelo contrário, existia um descompasso íntimo, uma dificuldade de sustentar uma imagem de si. O artesão que criava espelhos nos moldes de ícones da igreja ortodoxa com búzios e tainhas a partir dos ensinamentos do gênio ceramista Osmundo Teixeira não se via como excepcional, mas como alguém tentando organizar algo ainda disperso, em um impulso mais instintivo do que consciente. “Esse trabalho meu deu garras, base. Estava muito perdido, eu era um loser! Achava que ia morrer cedo, que não tinha futuro.” Humberto formou-se na Faculdade de Direito da USP (São Francisco), aceitou um convite para trabalhar com advogados em uma cooperativa de Itabuna, mas nunca chegou a procurá-los. O terno não saiu do armário, Humberto sobreviveu àquela verdade tropical, e sua carreira no direito morreu na praia. No raiar da década de 1980, o paulista criado no interior de Brotas saiu da concha e foi à luta na cidade punk, São Paulo.
Hoje, a lembrança retorna com outro peso. Longe de ser prenúncio de grandeza, mas como entendimento de um percurso que vem ganhando diferentes dimensões ao longo do tempo. O que era tentativa se expande em uma trajetória construída ao lado de Fernando, consolidando uma das linguagens mais genuínas do design contemporâneo. Entre esses dois pontos, não há linearidade, mas acúmulo, insistência e fricção. Há também um pensamento compartilhado, em que a autoria se dilui e o fazer deixa de ser expressão individual para se tornar construção conjunta. A morte de Fernando interrompeu uma dinâmica que estruturava esse pensamento. Durante décadas, a obra dos irmãos se desenvolveu a partir de um diálogo contínuo, alimentado por diferenças. Fernando, mais próximo do campo da arte e articulado conceitualmente, tensionava um pensamento que Humberto mantinha ancorado na matéria e na intuição. “Eu precisava da ajuda intelectual do Fernando”, lembra. Essa complementaridade também se estendia ao cotidiano. Nos primeiros anos em São Paulo, quando o trabalho ainda se organizava de forma precária, era Fernando quem lidava com contas, encomendas e a estrutura mínima que os permitia seguir em frente. “A gente se completava de um jeito muito profundo. O Fernando viveu intensamente, ele queria tudo, tinha uma curiosidade enorme.” A morte não elimina essa relação, apenas a desloca. “Agora, isso está dentro de mim, de alguma forma.”
A primeira coleção desenvolvida integralmente sem o irmão, On the Road, apresentada em 2024 na galeria Friedman Benda, em Nova York, torna esse deslocamento visível. A série reúne peças que exploram estruturas mais orgânicas e abertas, com desenhos que evocam fluxos, ramificações e sistemas em formação, aproximando-se de uma dimensão mais introspectiva e processual. Não há ruptura formal, mas uma alteração na organização das ideias. “Ou você sucumbe, ou começa a reunir forças que não conhecia.” Humberto fala menos em trajetória e mais em tempo, entendido como algo a ser trabalhado. “Sinto urgência em fazer muita coisa ainda.” Extremamente tímido, ele reconhece no fazer uma forma de comunicação, e o desenho, antes visto como etapa do processo, torna-se resultado e finalidade, terapia e catarse. De seu lado onírico e levemente caótico surgem imagens recorrentes como artérias, organismos em formação, estruturas que lembram raízes, embriões, sistemas vivos em transformação. O contato direto com aquilo que tem diante de si orienta o processo. “Meu olhar vai fotografando… e aí começa um diálogo”, diz. Esse movimento ocorre em paralelo a uma percepção mais aguda do que está ao redor. “O mundo está ficando feio”, afirma a partir de observações diretas, do lixo nas ruas à indiferença cotidiana. “Mas não gosto de brigar, de convencer, de entrar em rede social para engrossar ou causar polêmica.” O trabalho fala por si só, o silêncio é arma e a contemplação, a estratégia de luta. “E eu quero contaminar.”
Há também uma leitura mais clara da própria posição. Durante muito tempo, ocupou um lugar deslocado entre design, arte e artesanato, operando com improviso, mistura e precariedade para os olhos de um mercado acostumado a linhas precisas e raciocínios lineares. “A gente era meio enfant terrible.” O que antes gerava desconforto, hoje, se transforma em liberdade. “A minha grande riqueza é não saber o que eu sou.” Essa condição se intensifica. “Eu me sinto mais despudorado mesmo, não tenho mais medo de errar.” Desde o início, o trabalho dos Campana transforma materiais banais e desloca hierarquias de valor. Papelão, plástico, cordas, retalhos e resíduos industriais passam a operar como matéria de invenção e se articulam com a circulação do design no campo da arte, com presença em acervos como o do MoMA, em Nova York, e do Centre Pompidou, em Paris, e no mercado de leilões. A produção se expande para moda, arquitetura e experiências imersivas, em colaborações com Louis Vuitton, Paola Lenti e a marca carioca Farm, por exemplo, sem romper com práticas artesanais brasileiras. Técnicas em risco de desaparecimento, como o capim dourado do Jalapão ou o couro do Mestre Expedito Seleiro, passam a integrar o vocabulário Campana, que leva o regional ao global sem perder caráter e alma. Essa dimensão se amplia também em iniciativas como a Casa da Boneca Esperança, na Paraíba, onde o design atua diretamente na geração de renda e na preservação do saber local.

A mesma lógica segue adiante quando o trabalho ultrapassa o objeto e passa a atuar sobre a terra. O Parque Campana, inaugurado em 2024, em Brotas, com 52 hectares, articula arte, educação e regeneração ambiental em uma área anteriormente degradada, transformando pastagens em floresta. A relação com esse lugar é antiga e atravessada por ambivalência. “Eu odiava Brotas”, conta. “Mas hoje eu vejo que aquilo era um mundo imaginário.” Filho de pai engenheiro agrônomo e mãe professora primária, Humberto cresceu no interior, querendo ser indígena, construindo casas em árvores, inventando mundos próprios. Essa memória não desaparece, reaparece sob outra forma, agora atravessada pela percepção da destruição ambiental. “O cerrado é muito rico, e a gente destruiu isso.” O parque surge como resposta concreta. “É uma forma de devolver.” Ao lado disso, o Instituto Campana, fundado em 2009, reúne um acervo de mais de 6 mil peças e estrutura a preservação dessa produção, garantindo que esse pensamento continue circulando e se desdobrando para além do estúdio. No centro de tudo, permanece a ausência de Fernando. “Minha relação com ele continua em outro plano. Eu tenho a missão de continuar contando nossas histórias.”
Mais do que nunca, o percurso se revela com mais nitidez. O rapaz que um dia catava couraças para fazer espelhos, sem conseguir se enxergar com clareza, hoje se vê no que constrói. A relação com a própria imagem, antes instável, encontra outra consistência ao longo do tempo, atravessada pela experiência, pela perda e pela continuidade. A matriz não desaparece: permanece ativa, reaparece em Brotas, ganha o mundo, integra a paisagem, traz novo sentido à matéria. Fernando não está mais ao lado, mas segue implicado nesse modo de pensar e de fazer, como uma presença que não se fixa em uma única forma de vida. Humberto segue sozinho, mas não isolado. Há uma liberdade mais direta agora, em que o trabalho se sustenta por si e permite que ele se reconheça sem precisar definir quem é. Não há conclusão, nem tentativa de fechar o que se abriu. Há apenas um movimento contínuo, em que tudo retorna e se transforma ao mesmo tempo.
DIREÇÃO CRIATIVA KLEBER MATHEUS
FOTOS JORGE EWALD
STYLING GABRIEL BINOW
BELEZA ERIKA LIVRAN






