Luiza Perote para Schiaparelli – Foto: Divulgação

Nesta semana, Luiza Perote volta às passarelas internacionais durante a temporada de alta-costura, consolidando uma carreira que, há poucos anos, parecia distante até para ela mesma. Descoberta aos 13 anos em um concurso de modelos, a amazonense transformou vídeos gravados no corredor de casa, capa da BAZAAR Brasil em junho de 2024, em uma trajetória que hoje reúne campanhas, dezenas de desfiles internacionais e duas premiações como Modelo do Ano no Brasil. 

Mas, por trás da ascensão acelerada, existe uma história menos conhecida. Antes das passarelas vieram o bullying na infância, a sensação de não pertencer, a pandemia, as cartas escritas para a “Luiza do futuro” e uma rotina de viagens que a obrigou a aprender a lidar com a solidão.

Em conversa com a Harper’s Bazaar Brasil, Perote fala sobre os bastidores da moda, as diferenças entre o mercado brasileiro e internacional, a importância de valorizar o trabalho das modelos e por que acredita que conquistar um sonho nunca é o ponto final da história.

Luiza Perote para Chanel – Foto: Divulgação

Harper’s Bazaar Brasil: Você costuma dizer que sua vida parece um filme. Como essa história começou?

Luiza Perote: Minha vida é uma maluquice, parece um filme mesmo.

Fui descoberta quando tinha 13 anos, em um concurso da Backstage Model Amazônia, em Manaus. Antes disso, eu nunca tinha pensado em ser modelo. Muito pelo contrário: eu me achava o patinho feio da escola.

Sofri bullying durante boa parte da infância. Eu era muito magra, muito alta, meio nerd e nunca me achava bonita. Enquanto via outras pessoas sonhando em ser médicas ou advogadas, eu me sentia perdida, sem saber exatamente o que queria para mim.

Quando participei daquele concurso e ganhei, alguma coisa mudou. Despertou uma paixão que eu nem sabia que existia. Acho que coloquei tanta fé naquele momento que parecia que Deus tinha dito: “Vou mandar essa menina para frente”.

Até hoje penso que tudo aconteceu na hora certa.

Eu nasci em Humaitá, no Amazonas, uma cidade muito pequena. Quando precisávamos ir ao médico ou resolver qualquer coisa, viajávamos duas horas de carro até outra cidade. Não tinha shopping, cinema, McDonald’s… nada.

Naquele dia, por acaso, fomos ao shopping e entregaram um convite para o concurso. Eu já iria embora antes da seleção, mas alguns compromissos atrasaram nossa viagem e conseguimos passar lá. Se aquilo não tivesse acontecido, talvez minha vida tivesse sido completamente diferente.

Antes eu dizia que queria ser médica porque meu pai sempre falava: “Vai ser médica do papai”. Mas, no fundo, eu nem sabia se aquele sonho era meu ou se eu só repetia o que esperavam de mim.

Quando conheci a moda, percebi uma coisa muito importante: justamente aquilo que me fazia diferente na escola passou a ser valorizado. Eu pensei: “Caramba… aqui ser diferente é bom. Eu também sou bonita. As pessoas me enxergam.”

Foi aí que tudo começou.

Capa Harper’s Bazaar Brasil – Foto: Divulgação

HBB: Em vários momentos você fala da “Luiza do futuro”. O quanto acreditar em você mesma fez diferença?

LP: Fez toda a diferença.

Quando nada acontecia, eu criava minhas próprias formas de acreditar.

Eu fazia colagens com lugares que sonhava conhecer. Colava fotos de Manaus quando ainda nem tinha ido para lá. Escrevia “Paris”, “Nova York”, “Hollywood”. Colava a foto de um passaporte que eu nem tinha. Pegava o meu Instagram, que tinha mil seguidores, e escrevia do lado: “50 mil”.

Também escrevia cartas para a Luiza do futuro. Mas eu nunca escrevia dizendo: “Espero conseguir isso”. Eu escrevia como se tudo já tivesse acontecido. Eu dizia: “Querida Luiza, eu não poderia estar mais orgulhosa de você. Hoje você fez capas de revista, campanhas, desfiles e realizou tudo aquilo que sonhou.” Hoje eu olho para trás e penso que tudo o que vivo aconteceu porque aquela menina acreditou.

Em algum lugar dentro de mim eu sentia que tinha nascido para isso. Sempre quis inspirar pessoas, ajudar pessoas. Então tudo sempre foi muito maior do que simplesmente desfilar. Depois me mudei para São Paulo, ouvi muitos “nãos” e percebi que minha beleza não era considerada tão comercial, principalmente porque eu tinha cara de bebê. Mas eu nunca deixei de acreditar que o que fosse meu chegaria na hora certa.

 

HBB: Quando você percebeu que aquele sonho tinha deixado de ser uma projeção e virado realidade?

LP: Foi muito gradual. As pessoas lembram dos vídeos que eu gravava desfilando no corredor de casa, mas entre aquilo e as passarelas aconteceu muita coisa.

Enquanto postava os vídeos, eu também conversava com a minha agência. Aos poucos fui conhecendo a agência de São Paulo, depois Nova York, depois Paris. Nada aconteceu de uma hora para outra.

Depois comecei a mostrar os bastidores dos trabalhos nas redes sociais e as pessoas acompanharam esse crescimento. Elas olhavam e falavam: “Nossa, ela desfilava no corredor de casa e agora está nas passarelas internacionais.” Acho que essa virada aconteceu na minha primeira e segunda temporada.

Na primeira fiz 32 desfiles, veio minha primeira campanha fotografada pelo Steven Meisel para a Fendi, depois vieram revistas, capas e outros trabalhos. Até hoje, às vezes, ainda é difícil processar tudo isso. Mas sou extremamente grata por cada etapa.

Luiza Perote para Chanel – Foto: Divulgação

HBB: Você costuma compartilhar muito dos bastidores da profissão. Existe alguma experiência que mudou completamente a forma como você enxerga a indústria da moda?

LP: Com certeza. Acho que tanto experiências positivas quanto negativas.

Uma coisa que eu adoro lá fora é que existe muito menos essa ideia de hierarquia. Pode ser o maior nome da moda ou alguém que está começando: todo mundo troca de roupa no mesmo lugar, faz prova de roupa da mesma forma, participa do mesmo backstage. As pessoas te tratam de igual para igual, e eu acho isso muito bonito.

Ao mesmo tempo, é um ambiente extremamente competitivo. Todo mundo quer crescer, ser notado, conquistar espaço. Existe uma ambição muito grande, porque cada pessoa está lutando pela própria carreira. Antes de viver isso, eu imaginava apenas o glamour.

Quando eu escrevia aquelas cartas para a Luiza do futuro, eu só imaginava as partes bonitas da profissão. O que eu não imaginava era a solidão.

Viajar sempre parece incrível quando é uma escolha. Mas, quando estar sozinha deixa de ser uma escolha e vira uma obrigação, dói. Foi quando comecei a viajar sozinha para trabalhar que senti isso pela primeira vez.

Eu sentia muita falta da minha família. Pensava: “Caramba, eu não crio raízes. Eu não tenho uma casa.”

Hoje já tenho um apartamento em São Paulo e isso me dá uma base, mas houve uma época em que toda a minha vida cabia dentro de uma mala. Eu passava semanas indo de um país para outro, de um hotel para outro, e isso é muito mais difícil do que as pessoas imaginam.

Foi aí que percebi que precisava aprender a gostar da minha própria companhia.

HBB: E como você aprendeu a lidar com isso?

LP: Acho que foi entendendo que esse vazio não era falta de alguma coisa. Era excesso.

Durante uma Fashion Week, por exemplo, você praticamente não dorme. É prova de roupa, casting, desfile, avião, hotel, mala… Quando tudo termina, você não sabe lidar com o silêncio. Parece que estar em paz virou sinônimo de tédio.

Mas não é. Foi quando comecei a me conhecer melhor.

Passei a ler muito, comecei aulas de piano, procurei hobbies que não tinham relação nenhuma com a moda. Percebi que, se eu não fizesse isso, viveria sempre em uma busca incessante.

Depois dos 32 desfiles, eu queria mais. Depois das campanhas, queria mais. Depois das capas, queria mais. E isso nunca acaba. O problema não é ser ambicioso. O problema é não saber aproveitar o processo.

Hoje eu acredito que o processo foi muito mais gostoso do que chegar lá.

Porque você conquista uma coisa e logo pensa: “Tá… e agora?”

Então tento viver um dia de cada vez.

Se hoje eu estou aqui, eu quero estar presente aqui.

Porque eu sei que sempre vou querer conquistar mais. Faz parte de quem eu sou.

HBB: Você comentou que o mercado internacional costuma apostar na construção de carreiras. Como enxerga o espaço das modelos dentro da indústria hoje?

LP: Acho que toda profissão merece ser valorizada. As pessoas veem o desfile pronto, mas não imaginam tudo o que acontece antes: sair de uma cidade pequena, deixar a família, passar horas em castings, tentar conquistar uma oportunidade em poucos minutos, lidar com documentos, viagens e uma rotina muito intensa.

Por isso, acredito que os modelos precisam ter espaço para exercer o próprio trabalho. Não vejo isso como uma crítica às celebridades — as marcas respondem ao que o público quer consumir. Mas talvez ainda falte um interesse maior em conhecer quem são esses profissionais além da passarela.

Eu senti essa mudança quando comecei a compartilhar minha rotina. As pessoas deixaram de acompanhar apenas os desfiles e passaram a conhecer a Luiza. Hoje também vejo um interesse muito maior pelas modelos brasileiras no mercado internacional, e isso é muito bonito. O apoio do público faz diferença. Sempre que publico um trabalho, vejo comentários cheios de bandeiras do Brasil e mensagens de incentivo. Esse carinho me emociona muito.

HBB: Quais sonhos ainda movem a Luiza Perote?

LP: Eu continuo sonhando muito. Sou uma pessoa extremamente sonhadora e ambiciosa. Ainda existem muitas marcas com as quais quero trabalhar, lugares onde quero chegar e prêmios que espero conquistar.

Ganhar duas vezes o prêmio de Modelo do Ano no Brasil foi muito especial, mas também sonho em ter esse reconhecimento internacionalmente. Este ano fui indicada ao prêmio de Modelo do Ano do Models.com, uma das maiores referências da moda no mundo. Estar ao lado de nomes como Alex Consani e Anok já foi algo gigantesco para mim. Naquele momento, pensei: “Talvez ainda não seja a minha vez”, mas só de estar entre aquelas modelos eu já sentia que estava no caminho certo.

Ainda existe muito trabalho pela frente, e eu gosto disso. Continuo acreditando na mesma coisa em que acreditava quando era aquela menina de Humaitá que fazia colagens de revistas e escrevia cartas para a Luiza do futuro. Os sonhos mu