(Foto: Reprodução/Instagram @donatella_versace)

A moda sempre foi feita de dinastias, mas nenhuma delas queimou como a da família Versace. Em 15 de julho de 1997, o barulho de dois tiros na porta da Villa Casa Casuarina, em Miami, ecoou por toda a indústria. Gianni Versace, o homem que havia transformado passarelas em espetáculo, estava morto. Enquanto o mundo via a tragédia, uma pergunta — cruel e imediata — sufocava a família, a mídia e os investidores: seria o fim da Medusa?

A resposta não veio de um sucessor óbvio de terno e gravata, mas de uma mulher com uma força que nem ela mesma sabia que possuía. Donatella Versace herdou um império e o reconstruiu sob as cinzas de um luto pessoal e público.

Gianni e Donatella Versace (Foto: Reprodução/Instagram @donatella_versace)

O fardo de uma herança

Para entender o triunfo de Donatella, é preciso mergulhar no que Gianni criou. Fundada em 1978, a Versace nasceu para ser o oposto do minimalismo. Gianni fundia o luxo da seda com plástico, borracha e metal; inventou o Oroton, uma malha metálica que flui como líquido pelo corpo, e trouxe o bondage, a pop art e o barroco para o mesmo cabide.

Ele arquitetou o fenômeno das Supermodelos e fez o mundo parar para ver Naomi, Cindy e Linda desfilarem juntas ao som de Freedom! ’90 de George Michael. Ele era amigo íntimo de Madonna, Elton John e da Princesa Diana, e entendeu antes de todo mundo que a “primeira fila” era o novo trono da cultura pop.

Ao lado dele, desde o início, estavam os irmãos: Santo, o cérebro financeiro, e Donatella, a musa e conselheira. Formada em línguas, ela pensou, primeiramente, em ser professora, mas o chamado do irmão foi mais forte. Donatella era quem dizia “isso está sexy demais” ou “isso precisa de mais brilho”. Ela era a alma do branding antes mesmo desse termo existir.

Quando Gianni morreu, a Versace era uma gigante que faturava bilhões, mas que dependia inteiramente de seu criativo. Donatella assumiu a direção em um estado de choque. No início, sua estratégia foi a sobrevivência e, anos depois, confessou à mídia que, por muito tempo, realmente tentou ser Gianni. Mas o esforço para manter a visão dele, enquanto lutava contra batalhas pessoais e vícios, quase levou a empresa ao colapso. 

O visual que o fundador consagrou parecia lutar contra a nova estética minimalista que surgia na virada do milênio. Com a ascensão do estilo boho e uma moda mais contida, o maximalismo da Versace parecia, para alguns, deslocado. 

A pergunta nos bastidores era se a marca conseguiria manter sua relevância comercial ou se tornaria apenas um museu de memórias. Com isso, a empresa enfrentou dívidas e uma forte queda comercial.

 

A virada de chave e a criação do Google Images

A redenção de Donatella veio quando ela parou de tentar ser uma extensão de Gianni e começou a ouvir sua própria voz. Ela entendeu que a mulher Versace precisava de uma atualização: se Gianni desenhava para a mulher que queria ser notada pelo homem, Donatella passou a desenhar para a mulher que queria se sentir poderosa por si mesma. 

(Foto: Reprodução/Instagram @donatella_versace)

Essa transição foi selada no Grammy de 2000, com o icônico Jungle Dress. Quando Jennifer Lopez cruzou o tapete vermelho com aquele vestido verde de estampa tropical e um super decote, o impacto foi tão sísmico que o volume de buscas na internet derrubou os servidores da época. O público não queria apenas ler sobre o look, queria vê-lo. Foi esse momento específico que forçou o Google a desenvolver o Google Images. 

Jennifer Lopez no Grammy 2000 usando o icônico Jungle Dress. (Foto: Getty Images)

 

Ali, Donatella provou que ela seria a arquiteta de uma nova era da cultura pop.

 

Visionária!

Enquanto mantinha os códigos de Gianni — as fendas, o dourado e o couro —, Donatella expandiu os horizontes da grife para a hotelaria (Palazzo Versace), foi uma das pioneiras no e-commerce de luxo e apostou em colaborações que democratizaram a marca, como a coleção com a H&M em 2011, que levou o luxo italiano para as filas quilométricas das lojas de departamento. Além disso, colaborou com ícones da nova geração, como Dua Lipa, e lançou o Medusa Power Talks, uma roda de conversa para discutir o poder sob a ótica feminina e inclusiva.

 

Mas também soube quando honrar o passado. No desfile de Tributo, em 2017, ela reuniu as Supermodelos originais, como Gianni fez na década de 90, em um dos momentos mais emocionantes da história da moda. 

Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford, Helena Christensen e Donatella Versace desfilando durante a Semana de Moda de Milão em 2017. (Foto: Getty Images)

 

Os bilhões de dólares

A prova final de sua competência como gestora veio nas movimentações de mercado. Em 2018, o grupo Michael Kors (Capri Holdings) adquiriu a Versace por US$ 2,1 bilhões. Donatella permaneceu como diretora criativa, garantindo que, mesmo sob controle estrangeiro, a marca nunca perdesse sua alma italiana.

(Foto: Reprodução/Instagram @donatella_versace)

Mais recentemente, em 2025, o mundo assistiu a mais uma reviravolta: a aquisição da Versace pelo Grupo Prada por €1,25 bilhão. Após quase três décadas de comando absoluto, Donatella passou o bastão criativo para assumir o papel de Embaixadora Global, deixando o cargo de diretora de criação para uma nova era liderada, futuramente, por Pieter Mulier, agora, com um cenário de estabilidade e prestígio – o que parecia impossível em 1997.