A ascensão de imagens de crianças geradas por inteligência artificial inaugura um território tão sedutor quanto sensível para a indústria criativa. Em um momento em que tecnologia e eficiência se cruzam, marcas começam a testar campanhas inteiramente sintéticas – substituindo modelos reais por figuras hiperrealistas, controláveis e, sobretudo, livres de custos operacionais e de regulações. À primeira vista, parece uma solução lógica. Na prática, abre-se uma discussão complexa sobre ética, mercado e responsabilidade social.

A infância sempre ocupou um lugar delicado na comunicação. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece diretrizes claras sobre proteção de imagem, trabalho e dignidade de menores. Ao migrar para a criação de “crianças de mentirinha”, empresas acreditam burlar essas normas. Mas o que está em jogo vai além da legalidade; é o esvaziamento de uma cadeia produtiva inteira. Modelos mirins, atores, preparadores, agentes e até núcleos familiares que orbitam esse mercado passam a ser substituídos por algoritmos. Trata-se de uma precarização dos serviços, que desloca oportunidades reais para um ambiente artificial onde não há formação, experiência ou trajetória. “Acredito que o público perde o aspecto humano. Existe uma diferença clara entre um ‘ser digital’ e um ‘ser humano’. Um personagem digital realiza a proposta, mas falta a humanidade. É como assistir a uma peça onde um boneco substitui um bebê real; nós vemos o objeto, mas não sentimos a presença da criança. Criar rápido para acompanhar o mundo globalizado não deve substituir a verdade da atuação infantil”, diz Kátia Ramos, nome no comando da KR Casting.

 

Imagem gerada por IA

 

Há também uma contradição evidente. Nos últimos anos, a indústria da moda e da publicidade foi pressionada a rever práticas relacionadas à exploração da imagem infantil, à hipersexualização e à falta de diversidade. A resposta veio em forma de códigos de conduta, casting capacitado e valorização da autenticidade. Ao adotar crianças geradas por IA, corre-se o risco de inventar um “corpo ideal” infantil, livre de imperfeições, sempre disponível, sempre obediente, que ignora justamente os avanços conquistados. É uma regressão disfarçada de inovação. “Vejo como um ponto de atenção, não como uma ameaça absoluta. A tecnologia sempre chega trazendo novas possibilidades, mas o mercado infantil tem uma camada que não é substituível: a presença real da criança. Existe algo na espontaneidade, no olhar, no tempo da infância, que nenhuma imagem fabricada consegue reproduzir de verdade. A IA pode até ocupar espaços mais técnicos ou ilustrativos, mas quando a gente fala de conexão com o público, de emoção, de verdade na campanha, a criança real ainda é insubstituível. A sustentabilidade do mercado passa por entender onde cada coisa faz sentido, sem perder o valor humano”, frisa João Pedro Sampaio, da NIT Models Agency.

Casos recentes ajudam a dimensionar esse risco. Campanhas que recorreram à IA sem transparência enfrentaram reações negativas do público, acusadas de artificialidade e desconexão emocional. Ainda que nem sempre envolvam crianças, exemplos como experimentações visuais de grandes varejistas ou grifes de luxo que testaram modelos sintéticos evidenciam um problema recorrente: quando o consumidor percebe a substituição do humano pelo artificial, a confiança pode se romper. Em segmentos sensíveis como o infantil, esse impacto tende a ser ainda maior. “Como diz a releitura do poema ‘Filtro Solar’, a IA pode fazer quase tudo, mas o ‘sentir’ é intrínseco ao ser humano. No casting infantil, a naturalidade e a leveza são fundamentais. Embora o uso de IA possa ser sustentável para as marcas em termos de economia de tempo e pessoal, para o mercado infantil é uma desvantagem. Para as crianças, fotografar e desfilar é diversão, não obrigação, e essa essência se perde com o uso de imagens sintéticas”, reforça Kátia.

Do ponto de vista estratégico, há um equívoco em tratar a IA apenas como ferramenta de redução de custos. Empresas constroem valor a partir da identificação e do afeto – elementos que dependem da vivência humana. Uma criança real carrega contexto, espontaneidade. Uma criança gerada por IA, por mais sofisticada que seja, é uma mera simulação. E simulações, quando mal utilizadas, criam distanciamento em vez de conexão. “Penso que o equilíbrio está na intenção. A tecnologia pode ser usada como ferramenta, mas não como substituição da essência. Marcas que entendem o valor da infância não vão abrir mão da conexão que uma criança real traz. Ao mesmo tempo, podem usar a IA de forma inteligente, complementar, sem apagar o protagonismo dos pequenos artistas. No fim, é sobre lembrar que não estamos falando só de imagem. Estamos falando de pessoas em formação, de histórias começando. E isso tem um valor que vai no muito além de qualquer tecnologia”, diz Sampaio.

 

Imagem gerada por IA

 

Isso não significa rejeitar a tecnologia. A Inteligência Artificial pode – e deve – ser incorporada de forma ética, como suporte criativo, otimização de processos ou até expansão estética. O ponto crítico está na substituição indiscriminada, especialmente em campos onde há implicações sociais diretas. Investir em crianças reais, em formação, proteção e oportunidades, não é apenas uma escolha moral, mas também uma decisão assertiva de longo prazo. É garantir renovação de talentos, diversidade de corpos e legitimidade cultural.

O risco, portanto, é reputacional e estrutural. Ao optar por atalhos tecnológicos (para frear justamente as leis que protegem a infância), companhias podem enfraquecer o ecossistema que sustenta o próprio nicho criativo. “O primeiro passo é tornar o processo de documentação e dos alvarás ainda mais rigoroso, detalhando todas as cláusulas contratuais para garantir os direitos da criança e de seus responsáveis. O equilíbrio reside em casar a inovação com a proteção jurídica e social do menor. Acho também que ter um equilíbrio em porcentagem de um casting real e digital é imprescindível”, endossa Katia. Em um cenário onde autenticidade se tornou ativo central, abandonar o humano em favor do artificial pode representar um desvio perigoso. Um caminho que, se seguido sem reflexão, tende a gerar mais perdas do que ganhos para o mercado, para as marcas e, principalmente, para o futuro que se pretende construir.

 

Imagem gerada por IA

 

O tiro que saiu pela culatra

Um dos casos mais emblemáticos do mal uso da IA foi o da Levi’s, que anunciou o uso de modelos gerados artificialmente em parceria com um estúdio digital para “ampliar a diversidade”. A reação foi imediata: críticas apontaram que, em vez de contratar pessoas reais diversas, a marca estaria simulando inclusão sem gerar oportunidade. A discussão rapidamente saiu do campo tecnológico e entrou no ético. Outro exemplo veio da espanhola Mango, que utilizou imagens criadas por IA em editoriais de moda. Embora visualmente sofisticada, a campanha levantou questionamentos sobre transparência e sobre o impacto na cadeia criativa – de fotógrafos a modelos. Também vale observar o crescimento de “influenciadores virtuais”, como a Lil Miquela (que soma 2,3 milhões de seguidores e tem perfil verificado), idealizada pela Brud. Embora seja uma personagem adulta, seu sucesso abriu caminho para versões mais jovens, o que acende outro alerta: a criação de “crianças perfeitas” digitais pode facilmente escorregar para um território de idealização perigosa e desconectada da realidade.

Imagem gerada por IA

 

Conversamos com a advogada Fernanda Ferrari para entender como o uso indiscriminado da IA pode impactar o trabalho artístico de crianças e de adolescentes.

Como você enxerga o impacto do uso de crianças geradas por inteligência artificial na sustentabilidade do mercado de modelos e atores mirins? O mercado de trabalho artístico infantil é muito mais estruturado do que as pessoas imaginam. Existe toda uma cadeia profissional envolvida, agências especializadas, fotógrafos com experiência no trato com crianças, produtores, diretores de arte, além de um aparato jurídico que protege esses pequenos trabalhadores: contratos, alvarás judiciais, limitações de carga horária, supervisão obrigatória dos responsáveis. Quando uma marca substitui uma criança real por uma imagem gerada por IA, ela não está apenas fazendo uma escolha criativa, está contornando toda essa estrutura. Do ponto de vista econômico, o impacto se distribui por toda essa cadeia de profissionais adultos que sustenta o setor. Agências especializadas perdem contratos, fotógrafos e produtores com expertise no universo infantil veem sua demanda diminuir, e um mercado construído com critério e responsabilidade começa a se esvaziar silenciosamente. Mas há uma dimensão ainda mais profunda, e que me preocupa especialmente: o impacto na formação artística e cultural da própria criança. O ECA não apenas protege a criança de situações de risco. Ele também garante ativamente seu direito à cultura, à arte e à expressão. Participar de uma campanha, de um set fotográfico ou de uma produção audiovisual é, para muitas crianças, uma experiência genuína de descoberta artística, de desenvolvimento da autoexpressão e de construção de repertório cultural. Quando esse espaço é ocupado por uma imagem sintética, priva-se a criança real de uma vivência que pode ser formativa e significativa. A IA não apenas substitui um rosto, ela subtrai uma experiência.

A substituição de crianças reais por imagens sintéticas pode ser considerada uma forma indireta de precarização do trabalho infantil artístico? Por quê? Na minha visão jurídica, sim. E é importante que esse debate ganhe visibilidade. Existe um equívoco muito comum de associar trabalho artístico infantil automaticamente à exploração. Mas quando esse trabalho é exercido dentro do marco legal adequado, com alvará judicial, contrato registrado, respeito aos limites de tempo e à vontade da criança, ele é uma atividade legítima e protegida. O alvará, por exemplo, não é uma mera burocracia. É um instrumento que garante que um juiz analisou aquela situação específica e atestou que ela não representa risco ao desenvolvimento da criança. Ao optar pela imagem sintética por razões puramente comerciais, a marca não só dispensa esse aparato de proteção como normaliza a ideia de que a criança real é substituível. É uma forma de precarização que não aparece nas estatísticas trabalhistas, mas que se acumula silenciosamente, no esvaziamento do setor, na desvalorização das agências especializadas e na mensagem implícita de que a presença humana da criança tem menos valor do que a conveniência tecnológica.

De que forma o uso de IA em campanhas infantis tensiona ou até contorna princípios estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente? Essa é exatamente a questão que me preocupa como operadora do direito. O ECA foi um marco civilizatório na proteção da infância brasileira, e continua sendo. Mas ele foi concebido em um tempo em que criar a representação visual de uma criança sem que houvesse uma criança real envolvida era simplesmente inimaginável. Hoje, isso é feito com poucos comandos de texto, e o Estatuto, tecnicamente, não alcança essa realidade. Na prática, isso significa que toda a estrutura de proteção que o ECA garante, autorização dos responsáveis, supervisão no set, alvará judicial para atividades remuneradas, vedação a horários e condições inadequadas, simplesmente não se aplica quando a criança é gerada por algoritmo. Cria-se um vácuo jurídico relevante e perigoso. Quem responde por essa imagem? Como ela pode ser usada, licenciada, modificada? O que impede que uma representação sintética de criança seja empregada em contextos inadequados? Para dar conta desse cenário, seria necessário acionar o Marco Civil da Internet, a Lei Geral de Proteção de Dados e, muito provavelmente, construir uma regulação específica para o uso de IA com representações de crianças, algo que a União Europeia já começa a endereçar no âmbito do AI Act. No Brasil, esse debate precisa chegar ao Conanda, ao Congresso e ao setor criativo com urgência.

Existe um risco de construção de um “padrão ideal” infantil artificial que comprometa avanços recentes em diversidade e representatividade? É um risco concreto, e ele tem uma dimensão jurídica que pouco se discute. Os modelos de inteligência artificial generativa são treinados com vastos acervos de imagens históricas. E essas imagens refletem décadas de viés estético da indústria: crianças brancas, de traços eurocêntricos, dentro de padrões físicos muito específicos. Sem curadoria intencional, a IA não apenas reproduz esses padrões. Ela os naturaliza, os apresenta como se fossem um dado neutro da realidade. Os avanços em representatividade que conquistamos nos últimos anos tiveram custo real: marcas que assumiram riscos, famílias que lutaram por visibilidade, crianças negras, indígenas, com deficiência ou fora dos padrões tradicionais que ocuparam espaços historicamente negados a elas. Cada uma dessas conquistas teve nome e história. A IA, usada sem consciência política e sem diversidade intencional, pode silenciosamente apagar esse caminho, devolvendo às telas uma criança ideal que nunca existiu e que, justamente por isso, nenhuma criança real conseguirá ser. Do ponto de vista dos direitos da personalidade e da proteção integral, isso não é um detalhe menor.

Na sua visão, como as marcas podem equilibrar inovação tecnológica com responsabilidade social ao trabalhar com a imagem de crianças?
A resposta passa, necessariamente, pelo direito, e não apenas pela boa intenção. A primeira medida é a transparência: toda imagem de criança gerada por IA precisa ser identificada como tal, tanto para o consumidor quanto nos contratos e briefings criativos. Isso já é uma obrigação ética e, em alguns contextos, pode ser enquadrada como exigência legal relacionada à publicidade não enganosa. A segunda medida é tratar a tecnologia como suporte, não como substituta. Usar IA para ambientação, cenários e composições gráficas é muito diferente de usá-la para eliminar a criança real da equação. A terceira, e talvez a mais estrutural, é incluir profissionais especializados em direitos da infância nas decisões criativas desde o início do processo, e não apenas na revisão jurídica final. Quando o advogado só entra para assinar, é porque as escolhas problemáticas já foram feitas. Por fim, é fundamental que o setor não espere a regulação chegar de cima para baixo. Marcas, agências, produtoras e veículos de comunicação têm a oportunidade, e eu diria, a responsabilidade, de construir boas práticas agora, antes que os danos se acumulem.