Foto: Bottega Veneta

 

O calçado que a moda está prestes a transformar em desejo é aquele que os bailarinos guardam assim que a aula termina. Feito de couro macio, com sola fina e estrutura flexível, o jazz shoe acompanha giros, pivôs e toda a articulação natural dos pés sobre pisos de dança. Para caminhar horas seguidas por calçadas e asfalto, porém, ele pode ser um dos menos práticos do mundo.

Foi essa contradição que chegou às ruas. Na coleção de verão 2026 da Celine, Michael Rider repetiu jazz shoes em preto, branco e cores vibrantes, combinados a jeans, vestidos curtos e alfaiataria. O formato também avançou por marcas como Lemaire, Repetto, Mango e Arket, com couro enrugado, cadarços curtos e aparência de um oxford sem rigidez.

A tendência aparece quando o mercado de tênis (em especial, o social e retrô) começa a perder fôlego. Nos Estados Unidos, por exemplo,  a indústria de calçados fechou 2025 com faturamento estável, mas queda no número de pares vendidos. No primeiro trimestre de 2026, as unidades seguiram em retração. A Circana, empresa especializada em dados de consumo e varejo,  também observou uma desaceleração de parte dos modelos inspirados no esporte, enquanto bailarinas, mules e tamancos contribuíram para as vendas.

Não se trata do fim do sneaker, muito pelo contrário. O consumo migra para propostas capazes de entregar conforto sem repetir a mesma aparência esportiva. Depois do boom do Adidas Samba, – que só se falava nisso e era referência pra compras do setor -, o tênis foi ficando baixo, estreito e rente ao chão. O jazz shoe leva esse processo ao limite. Mantém o cabedal fechado e os cadarços, mas troca a estrutura esportiva por uma silhueta moldada sobre o pé.

O modelo usado nas aulas, porém, não atravessa o estúdio sem mudanças. Muitos jazz shoes profissionais têm pouco apoio sob o arco e sola dividida para facilitar a flexão. As versões urbanas preservam sua imagem, mas recebem solado inteiro, palmilha reforçada e materiais preparados para a rua.

Nesse mercado menos disposto a comprar apenas outra variação do mesmo tênis, o jazz shoe funciona como um suspiro. A dança oferece uma nova forma para uma exigência antiga. As mulheres podem ter se cansado da aparência do sneaker, mas não da liberdade que ele trouxe. O tênis não desapareceu, apenas aprendeu novos passos.