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Artista explora presença do corpo negro na Bienal

Conheça o trabalho da artista e curadora sul-africana Khanyisile Mbongwa

by redação bazaar
Performance realizada na abertura da mostra "SINKING: Xa Sinqamla Unxubo", em fevereiro de 2018, na Smac Gallery, Cape Town - Foto: Divulgação

Ação realizada na abertura da mostra “SINKING: Xa Sinqamla Unxubo”, em fevereiro de 2018, na Smac Gallery, Cape Town – Foto: Divulgação

“Eu não sou uma artista performer, e o que faço não é performance.” Essas foram as primeiras definições sobre si e o trabalho que a artista sul-africana Lhola Amira apresenta na 33ª Bienal de São Paulo – Afinidades afetivas, dentro da exposição coletiva “Sempre, Nunca”, que tem curadoria assinada pela artista Wura-Natasha Ogunji.

Lhola divide o mesmo corpo da curadora Khanyisile Mbongwa, e tampouco pode ser definida como uma persona de si mesma. “Nós existimos no plural. Sou uma presença espiritual no corpo de Khanyisile Mbongwa. Apareci e me tornei fisicamente presente”, pontua a artista.

Bazaar Art de setembro de 2018 - Foto: Arquivo Bazaar Art

Bazaar Art de setembro de 2018 – Foto: Arquivo Bazaar Art

Por entender a complexidade inicial de seu trabalho, a artista segue à risca essa introdução em suas falas e entrevistas. Mas como saber distinguir uma presença da outra? “Pelo traje que estamos usando. Amira sempre estará muito bem vestida.” E, realmente, Amira é uma mulher que não passa despercebida no ambiente. Vestindo impecavelmente um macacão vintage dos anos 1980, turbante laranja, batom vermelho e salto alto, é assim que se apresenta durante entrevista com Bazaar Art.

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Performance realizada na abertura da mostra "SINKING: Xa Sinqamla Unxubo", em fevereiro de 2018, na Smac Gallery, Cape Town - Foto: Divulgação

Ação realizada na abertura da mostra “SINKING: Xa Sinqamla Unxubo”, em fevereiro de 2018, na Smac Gallery, Cape Town – Foto: Divulgação

Ao se posicionar dessa forma, Amira questiona sobre como o corpo negro – no seu caso, especificamente, o da mulher negra – é percebido na sociedade. “De forma invisível ou hipervisível”, como diz. “O corpo negro está em plena performance o tempo todo na sociedade, tendo de desempenhar sempre sua negritude.”

Nesse sentido, Amira retoma o livro do caribenho Frantz Fanon, “Pele Negra, Máscara Branca”, quando o filósofo e ensaísta diz: “Eu sou o escravo não da ideia que os outros têm de mim, mas da minha própria aparência”. Ao colocar seu “corpo como presença”, a artista também aborda em fotografias, vídeos, instalações, e mesmo durante aparições fugazes, temas como ancestralidade, violência contra o povo negro e descolonização.

Still do vídeo "LAGOM-Breaking Bread with The Self-Righteous" (2017) - Foto: Divulgação

Still do vídeo “LAGOM-Breaking Bread with The Self-Righteous” (2017) – Foto: Divulgação

Essa existência plural, presente em seu trabalho, expressa – de alguma forma – a própria sobrevivência dos negros durante o período colonial e, contemporaneamente, sobre todas as formas possíveis de desigualdade social sofrida pelo povo negro. O apelo visual invocado por Lhola Amira em seu trabalho diz respeito a um corpo imbuído de poder. Poder de ser, sentir, estar, agir, sonhar, subverter, rir, desejar e tudo mais que couber dentro desse termo, seja ele subjetivo ou não.

Still do vídeo "LAGOM-Breaking Bread with The Self-Righteous" (2017) - Foto: Divulgação

Still do vídeo “LAGOM-Breaking Bread with The Self-Righteous” (2017) – Foto: Divulgação

Lhola Amira não entrega um trabalho fácil. Ela lida diretamente com o outro e, deste embate, nos faz deparar com atitudes que nem sempre são reconhecidas como privilégio. Ao mexer com essa presença, a artista mergulha no passado para recriar novas possibilidades de futuro.

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