Obra de Uyra Sodoma – Foto: Divulgação

Por Camila Martins

Em meio a preconceitos, incêndios recentes e pressões, a 34ª Bienal de São Paulo aquece o tema da resiliência humana que reconhece a urgência dos problemas no mundo atual, enquanto sustenta a necessidade da arte como um campo de resistência, ruptura e transformação em tempos cinzentos. A mostra trabalhou pensando em temas que vão desde os incêndios na Amazônia aos lutos e reclusões, gerados pela pandemia, assim como as crises políticas, sociais, ambientais e econômicas, em sucessão do tempo.

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O título “Faz Escuro Mas Eu Canto” vem de um verso do poeta amazonense Thiago de Mello, publicado em 1965, escolhido pelo curador principal da mostra, Jacopo Crivelli Visconti, cuja curadoria é dividida com Paulo Miyada (curador-adjunto) e os convidados Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Esteves.

Obra de Daiara Tukano – Foto: Divulgação

“Algumas obras serão vistas de forma mais clara, outras mais opacas; algumas mensagens soarão como gritos, outras chegarão como ecos”, afirma Visconti.

Na busca por uma linguagem criada para o encontro de obras produzidas em diferentes lugares e momentos, a mostra destacou alguns trabalhos abordando diversos contextos, como as imagens da arte diáspora negra de Frederick Douglas – conhecido como pai do ativismo negro – que ingressou na política do governo de Abraham Lincoln. Filho de uma escrava negra e um pai desconhecido branco, foi considerado o negro norte-americano mais fotografado do século 19 em uma época em que só aristocratas brancos se fotografavam, empoderando, com seu exemplo, os negros.

Até hoje, suas imagens circulam pelo mundo como símbolo de justiça e resistência, assim como os bordados que outro homem não teria feito se não fosse às escondidas.

Há ainda um conjunto de objetos  como o trabalho pictórico da artista indígena Daiara Tukano (Brasília).

A obra do carioca afro-descendente Arjan Martins é composta pelo mar africano e elementos históricos, que se misturam ao contemporâneo, em contraste coletivo com a paraense  Uyra Sodoma, que associa suas obras ao modo de viver herdado da cultura eurocêntrica.

No mesmo ruído,  as fotografias de Deana Lawson, convidada pela bienal para fotografar e desenvolver seu trabalho em Salvador, se preocupa, principalmente, com intimidade, família, espiritualidade, sexualidade e a estética negra – que deu destaque crescente aos olhos dos visitantes na mostra.

Na sequência, vemos as obras de Paulo Nazareth com histórias afetivas e rituais como agentes de luta e resistência, desafiando preconceitos, que vêm em toada com as obras de Lygia Pape, como. Há ainda Morandi, Antônio Dias e Lasar Segall, que estão entre os 91 artistas expostos.

Segundo o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), existem atualmente entre 370 e 500 milhões de indígenas no mundo, espelhados por 90 países, que representam 5 mil culturas diferentes.

Obra de Jaider Esbell – Foto: Divulgação

Veja a seguir a conversa que Bazaar teve com o curador Visconti.

Como você relaciona o tema da bienal à atualidade social brasileira e como os artistas interpretam a vida real em suas obras?

A nossa ideia não é falar da situação que estamos vivendo, mas a partir dela. Temos uma visão consciente da gravidade do momento histórico que estamos vivendo, mas ao mesmo tempo, conseguir falar de outras coisas, seja talvez a moção que a bienal perpassa como um todo. Voltando ao título, a ideia  “Faz Escuro”, temos a  consciência deste escuro e quanto sombrio estão os tempos, mas também defendemos a possibilidade de “cantar”, de falar de outras coisas.  No entanto,  dizer como queremos  a arte, ou, como hipoteticamente consertar o tempo que estamos tentando mostrar mais, a diversidade de proposta de posições e visões do mundo que existem neste momento, que é, muito mais polarizado, que estende-se a  uma visão maniqueísta das coisas. O bem ou o mal, o claro ou o escuro. Defendemos que há uma infinidade de possibilidades para entender o mundo, e, neste contexto de adversidade, a arte indígena é muito potente. Quando você está tentando se aproximar de outras visões do mundo; de entender como outras pessoas se relacionam com a natureza; o eco sistema, as artes indígenas são ferramentas indispensáveis, como diz  Jaider Isabell que acabou tendo proeminência para uma bienal.

Obra de Abel Rodriguez – Foto: Divulgação

Por que a arte indígena só está sendo mais falada agora, como, por exemplo,  em 2020, foi a primeira vez que a Pinacoteca do Estado de São Paulo incorporou em seu acervo obras indígenas brasileiras?

É uma questão em falta que vai além da presença da arte indígena. As lutas dos povos vêm de vários séculos, originários dos grupos arrudiacorpos no Brasil e no resto do mundo nos últimos meses, pelas condições ainda mais graves devido à pandemia. Tornou-se um alvo fundamental à ser falado, discutido, combatido e defendido – como assunto urgente na sociedade como um todo. Portanto, a presença destas condições artísticas, tanto na bienal, quanto nas outras instituições, vão muito além. Vem da consciência de que a sociedade tem que começar a olhar para os indígenas  e tentar corrigir injustiças e violências históricas absurdas que ainda permanecem. Também porque, como você falou – em 2020 foi a primeira exposição indígena na Pinacoteca. Temos, por exemplo, uma exposição coletiva curada pelo Jaider Isabell no MAM (Museu de Arte Moderna de Sao Paulo), assim como uma exposição prevista no Masp ( Museu de arte de São Paulo Assis Chateaubriand ), que foi adiada no contexto da pandemia, mas que deve acontecer ainda, olhando para a arte indígena contemporânea. No nosso caso, o esforço foi um pouco em outro sentido, foi de mostrar quanto os indígenas podem e devem ainda ser vistos  e conhecidos pelo grande público, mas também precisa começar a colocá-los com outras profissões para que surjam flexões e iluminações especificas que são muito importantes, assim como posicioná-los em relação com obras de artistas  contemporâneos de outros lugares , que são produzidas de formas diferentes. Em todos os momentos, o que se vê é a potência daquela obra e  produção, mas também percebe-se o quanto as obras iluminam o quê, de repente, a gente achou que já conhecia e que já havíamos compreendido de forma histórica. Os “Cantos Maxakali”, que são cantos rituais com um valor simbólico, permitem ler outros trabalhos produzidos em diferentes contextos, com visões de mundos diferentes de uma maneira totalmente distinta e, muito mais rica,  se não tivéssemos estes elementos da cultura indígena  reverberando tudo de forma única.

Obra de Sebastián Calfuqueo – Foto: Divulgação

O senhor acha que a arte indígena e a Amazônia estão em pauta, também, por conta do aquecimento global?

Sim, acho que não é só o aquecimento global. É uma postura, uma relação com o sistema de uma maneira geral que nós, digamos, brancos, ocidentais e capitalistas devemos entender que está cada vez mais claro que é absolutamente errado e insustentável a longo prazo. Espero que cada vez mais gente perceba que é fundamental começar – ou voltarmos – a olhar para a forma que outras culturas se relacionam com seus sistemas, que conseguem interagir de forma sustentável, e assim, aprender com isso. A produção artística indígena contemporânea tem um conjunto muito forte de valores e de sistemas ecológicos, são indissociáveis as produções artísticas em si e da visão de mundo que eles trazem, que, certamente, são ligadas a tudo isso e é absolutamente saudável. Acredito que a bienal é um lugar que o grande público entra em contato com visões de mundos distintos e, a longo prazo, é muito importante para a construção de uma sociedade mais justa, mais respeitosa e, também, mais integrada com o ambiente que vivemos. Portanto, ouvir estas vozes é fundamental e acho que há um interesse ou uma atenção, talvez, redobrada para isso, por conta das transformações que estamos causando.

O senhor considera o Brasil um dos principais núcleos da arte na América Latina?

Eu acho que o Brasil tem, historicamente, uma produção muito rica porque é um Pais muito grande, portanto, tem uma grande diversidade de produção, mas quando você olha para outros países que têm áreas na Amazônia, por exemplo, você encontra uma produção instigante. Temos na bienal uma forte linhagem cultural dos Andes, que é extraordinária. Em um ponto de vista geral e macro, o Brasil pode ter uma produção, pelo menos, mais rica, mas, quando você olha para as obras dos artistas de forma especifica, é difícil dizer que um artista brasileiro é mais ou menos interessante do que um artista colombiano, equatoriano ou peruano, é muito difícil generalizar.

Muitos dizem que, no contexto da arte, São Paulo é praticidade, Rio de Janeiro é criatividade, e, a Amazônia, agressividade. Procede?

Eu, pessoalmente, não concordo com este dizer, mas eu também sempre tive muita resistência sobre esta visão, de que o Rio seria o “dionisíaco” e São Paulo seria o “apolínea regrado”. Tendo a resistir a qualquer tipo de catalogação ou classificação. Você pega, por exemplo, um artista que está na bienal como o Juraci Dórea, que é baiano, e que você não imaginaria ser do sertão baiano, pois manifesta uma paisagem que a gente não associa muito à Bahia.

Foto: Divulgação

Atualmente, fala-se muito da arte indígena e da arte afro-descendente, assim como da africana. O senhor acha que hoje esses são os  principais pilares quando o assunto é arte?

Acho que são locais historicamente que perpassam sobre o percurso da arte. São lugares que, na verdade, sempre tiveram produções muito ricas, mas para as quais a gente olhou menos, então, certamente, são locais que neste momento estão muito em pauta, pois há, finalmente, uma percepção de quão rica e instigante é a produção artística que sobrevive neste contesto. Temos que abolir este pensamento de pensar em qual lugar é o mais importante e menos importante; é a junção de todos estes lugares distintos que fazem com que tenhamos uma Bienal única, com uma produção artística e de forma distinta em geral. Eduardo Glissant – que é uma das referencias para a gente – fala perante todas as línguas do mundo, dizendo que não existe uma língua mais importante do que outra, e se você não fala uma língua, ela morre, ou seja, é a sua língua que fica mais pobre e é isso que defendemos  com esta bienal. Não tem um artista mais importante e menos importante, a gente não depende do que nunca foi visto até agora, cuja obras valem mais que outras, que, aliás, é tentar superar essas concepções que não são fáceis.

Saiu uma critica sobre a bienal que define que a mostra está composta por artistas mais importantes, e, menos importantes. Como você entende esta crítica, ou qual é o seu ponto de vista? 

É um pouco a visão convencional, porque, se você acha que um artista que vende uma obra por mais de US$1 milhão vale mais do que a obra de uma pessoa que não tem essa inserção no mercado, não é a visão que a bienal quer ter.