Foto: Loewe campanha 2023 com Paula Ulargui

Quando pensamos em moda sustentável, o debate costuma se concentrar no início da cadeia: matérias-primas menos poluentes, processos produtivos mais limpos, transparência e consumo consciente. Mas existe uma etapa fundamental que ainda recebe pouca atenção: o fim da vida útil de uma peça de roupa.

Afinal, o que acontece com as roupas que doamos, descartamos ou simplesmente deixamos de usar?

Para muitos consumidores, a doação representa o encerramento de uma responsabilidade. A peça sai do armário e, com ela, desaparece também a preocupação sobre seu destino. A realidade, no entanto, é mais complexa. Todos os anos, milhões de toneladas de roupas usadas são descartadas ao redor do mundo, contribuindo para problemas ambientais e sociais que vão muito além dos aterros sanitários.

Nesse contexto, especialistas preferem utilizar o termo resíduo têxtil em vez de lixo. A mudança de nomenclatura não é apenas semântica: ela revela uma possibilidade de transformação. Diferentemente do lixo, o resíduo pode voltar para a cadeia produtiva por meio de processos de reciclagem, reutilização e reaproveitamento.

Existe uma frase recorrente entre pesquisadores e profissionais da sustentabilidade que resume bem essa lógica: a peça mais sustentável é aquela que já existe. Antes mesmo da reciclagem, prolongar a vida útil das roupas por meio do uso contínuo, da revenda, da troca ou da doação é uma das formas mais eficazes de reduzir impactos ambientais.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Um estudo publicado no Journal of the Circular Economy acompanhou a trajetória de uma camiseta de algodão ao longo de dois ciclos de vida e concluiu que aproximadamente 44% das fibras são perdidas ainda nas etapas iniciais da cadeia produtiva. Ou seja: quase metade do material desaparece antes mesmo de chegar ao consumidor.

O dado evidencia um desafio estrutural da indústria da moda, frequentemente apontada entre as atividades econômicas de maior impacto ambiental devido ao elevado consumo de recursos naturais, energia e água. Mas enxergar moda e sustentabilidade como conceitos incompatíveis talvez seja justamente parte do problema.

Embora o setor dependa historicamente de ciclos constantes de novidade e consumo, especialistas defendem que a solução não está em abandonar a moda, mas em repensar seus sistemas. Em “Nossa Vida Como Gaia”, Joanna Macy e Molly Brown propõem uma visão integrada das relações entre produção, consumo e meio ambiente, defendendo práticas capazes de reconectar indivíduos e comunidades aos impactos de suas escolhas.

Na moda, essa reconexão passa por compreender que cada peça possui um ciclo de vida completo — da extração da fibra ao descarte. É justamente nesse ponto que conceitos como economia circular e ecodesign ganham relevância.

O ecodesign propõe que produtos sejam concebidos considerando todas as etapas de sua existência. Isso significa pensar não apenas na estética ou na comercialização de uma roupa, mas também em sua durabilidade, facilidade de reparo, potencial de reciclagem e destino final.

Ao mesmo tempo, iniciativas brasileiras mostram que resíduos têxteis podem se transformar em oportunidades sociais e econômicas. Projetos apresentados na FebraTêxtil 2026 demonstraram como as aparas de tecidos, sobras de produção e peças descartadas podem voltar ao mercado por meio do upcycling. Um dos destaques foi o trabalho do Instituto SUSTEXMODA, que capacita refugiados e pessoas em situação de vulnerabilidade social para transformar resíduos em novos produtos e fonte de renda.

Outro exemplo veio da aplicação da técnica Line Flow, desenvolvida para aproveitar integralmente resíduos gerados no corte industrial. O método permite transformar sobras têxteis em novos materiais destinados à produção de roupas, acessórios, calçados e objetos de design.

A mensagem por trás dessas iniciativas é simples, mas poderosa: resíduo têxtil não é o fim da cadeia. Pode ser o começo de outra.

Em um momento em que o consumo acelerado mostra seus limites, talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que estamos comprando, mas o que acontecerá com cada peça depois que ela deixar de fazer parte do nosso guarda-roupa. A BAZAAR conversou com Marina de Luca, Coordenadora de Mobilização no Fashion Revolution Brasil sobre a importância de olhar para o resíduo têxtil 

 

HARPER’S BAZAAR BRASIL: Qual é hoje a principal urgência quando falamos sobre o descarte de roupas?

Marina de Luca: A quantidade. Hoje o cenário é de superprodução com meta de crescimento constante, diminuição do tempo de uso e descarte de peças que ainda poderiam ser usadas por muito tempo. A produção de roupas, que dobrou entre 2000 e 2014, onde mais da metade das peças de fast fashion são descartadas em menos de um ano (Ellen Macarthur Foundation, 2017), e segundo a Oxfam (2026), até 2050 a quantidade de roupas não usadas no mundo seria quase suficiente para ir da Terra a Marte e voltar.

A roupa carrega matéria-prima, água, energia, trabalho humano, território e história. Quando descartamos uma peça sem pensar, estamos descartando também todos os recursos naturais e sociais que foram mobilizados para produzi-la.

O problema não é apenas “o que fazer com a roupa depois”, mas por que estamos produzindo, comprando e descartando tanto, e saber responsabilizar a indústria têxtil e o marketing que pressiona e induz ao consumismo, antes de focar no comportamento do cidadão consumidor. A urgência é reduzir o volume de descarte, ampliar a vida útil das peças e criar uma cadeia de responsabilidade compartilhada entre marcas, poder público, consumidores, cooperativas, costureiras, brechós, recicladores e organizações sociais.

HBB:Quais são os impactos ambientais e sociais mais preocupantes desse processo?

ML: Antes do descarte, a produção atual causa consumo excessivo de recursos naturais, poluição, degradação e desequilíbrio ambiental. O envio de roupas para aterros e lixões provoca também a contaminação por fibras sintéticas e microplásticos, o desperdício de água e energia embutidos na produção e a emissão de gases de efeito estufa ao longo de toda a cadeia. A dependência de combustível fóssil permeia toda a cadeia, tanto nas fibras sintéticas como poliéster, quanto no algodão que é cultivado utilizando fertilizantes e agrotóxicos produzidos a partir de combustíveis fósseis., e que também geram intensas emissões de Gases de efeito Estufa (GEE). 

Já os impactos sociais aparecem na invisibilização de quem costura, coleta, separa, revende, recicla ou reaproveita esses materiais. Muitas vezes, quem lida com o resíduo da moda trabalha em condições precárias, sem reconhecimento, remuneração justa ou infraestrutura adequada.

O dinheiro da cadeia produtiva hoje está concentrado nos donos das marcas e indústrias, e mal distribuído entre trabalhadores de base e da cadeia de pós consumo.

HBBO que acontece com a maior parte das roupas descartadas pelos consumidores?

ML: A maior parte das roupas descartadas pelos consumidores ainda vai para o lixo comum, aterros, lixões ou para circuitos informais de revenda e doação. O Brasil gera 4 milhões de toneladas/ano de resíduo têxtil, que corresponde a 5% de todos os resíduos produzidos no país (Abrelpe), sendo 170 mil toneladas de sobras industriais (resíduos pré-consumo, como retalhos e aparas da confecção). Das sobras industriais,  80% vai para aterros sanitários ou são incinerados e 20% são reciclados (Sebrae, 2018).

Quando a peça está em bom estado, ela pode ser recuperada através de upcycling, reparo, revenda, doação ou reaproveitamento. Quando nenhuma dessas opções é viável, o destino pode ser reciclagem, porém ainda temos grandes desafios neste setor, por exemplo mistura de materiais, contaminação, aviamentos difíceis de separar e principalmente a logística de recolhimento e triagem.

Por último há a opção de coprocessamento (queima para geração de energia) evitando disposição em aterro.

HBB:Quais são os principais gargalos para aumentar o reaproveitamento têxtil?

ML: Na minha visão, no Brasil, ainda falta uma política ampla e estruturada para resíduos têxteis. Há projetos de lei e iniciativas privadas, mas os acordos setoriais de logística reversa ainda não consolidaram uma solução nacional robusta para o setor. 

Os principais gargalos para aumentar o reaproveitamento têxtil são a falta de logística reversa (coleta seletiva específica para têxteis, ausência de triagem em escala, baixa rastreabilidade das peças), a falta de destinações adequadas mesmo se tivéssemos essa logística nacional, como dificuldade técnica para reciclar tecidos, falta de dados reais, atualizados e constantes do setor, informalidade e um modelo de negócio que ainda estimula a superprodução e o consumo acelerado. 

O Fashion Revolution já vem chamando atenção para esse ponto: reciclar é importante, mas não resolve sozinho um sistema baseado em produzir demais e descartar rápido. 

HBB: Como avaliar se uma peça terá uma vida útil mais longa?

ML: Para avaliar se uma peça terá vida útil mais longa, eu observaria alguns pontos como qualidade do tecido, costuras bem feitas, reforço em áreas de atrito, possibilidade de conserto, modelagem ou estética atemporal, conforto, facilidade de lavar, resistência da cor e composição do material. Uma peça mais durável também é aquela que a pessoa realmente vai usar muitas vezes. Por isso, antes de comprar, vale perguntar: “Eu vou usar isso quantas vezes? Combina com o que eu já tenho? Consigo cuidar dessa peça? Ela pode ser ajustada ou consertada?”

HBB:Existem hoje iniciativas, centros de coleta ou programas de logística reversa capazes de dar um novo destino aos resíduos têxteis?

ML: Sim, hoje existem iniciativas e programas capazes de dar novo destino aos resíduos têxteis, mas eles ainda não dão conta da escala do problema. Alguns exemplos são:

Urnas de entrega voluntária em lojas de fast fashion, ainda presentes apenas em parte do país, que recebem roupas usadas, limpas, de qualquer marca, e através de empresas terceirizadas fazem as destinações citadas acima.

O app da Cotton Move+Retalhar , uma plataforma circular que atua com pontos de coleta e soluções de reciclagem têxtil, com geolocalização para encontrar pontos próximos. 

O programa Repense Recuse da Humana Brasil que recupera roupas de segunda mão para reutilização e venda, gerando benefícios ambientais e sociais. A organização informa presença na Bahia, Sergipe, Pernambuco e Distrito Federal, com mais de 500 contêineres. Em Salvador e região, há pontos em shoppings, supermercados, universidades e vias públicas. (repensereusebrasil.org.br)

O Exército de Salvação que recebe roupas, calçados e outros itens em bom estado, com pontos de coleta e possibilidade de agendamento de retirada em algumas cidades, incluindo Salvador. (exercitodoacoes.org.br)

Mas é importante dizer: doar não pode ser uma forma de aliviar a culpa do consumo excessivo. A pergunta central continua sendo: quem fez minhas roupas, do que elas são feitas, por quanto tempo eu vou usá-las e para onde elas vão depois de mim?