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Com um timbre suave, a galerista Jaqueline Martins pronuncia repetidas vezes “feliz”, “incrível”, “orgulho”, “timing” e “sorte” –palavra que corrige de cara, diminuindo o peso do acaso em um trabalho que se mostra cada vez mais sólido. Há quem diga que a mineira de 35 anos, à frente da galeria que leva seu nome desde 2011, demonstrou coragem –alguns, segundo ela, afirmavam no início que o foco de seu espaço, com uma linha histórica que possibilitou o resgate da produção de artistas das décadas de 1970 e 1980, ainda a levaria a fechar as portas ou morrer de fome. Depois de cinco anos de funcionamento, Martins contraria a definição de forma delicada. “Acho que, mais do que coragem, foi romantismo.” Sem formação acadêmica, até hoje com vontade de cursar história, ela diz ter começado a carreira “quase por acaso”. Aos 22 anos, aceitou a indicação do pai de um amigo para organizar a biblioteca de um escritório voltado ao mercado secundário –nomenclatura para a venda de obras de arte que já passaram pelas mãos de outros colecionadores.

O estágio, que proporcionou contato direto com o marchand, era coisa de três meses, mas durou cinco anos. Para Martins, foi a experiência que possibilitou definir seu nicho de mercado. “O secundário é um lugar sem preconceitos, onde o artista não é considerado ruim quando não obteve reconhecimento. Lá enxergam a falta de projeção como oportunidade de comprar uma peça boa por um preço em conta e depois trabalhar para que seja valorizada”, explica. Foi essa a tarefa, de certa forma, que a galerista se colocou. Antes de inaugurar a sede própria, Martins pesquisou durante um ano os arquivos do Museu de Arte Contemporânea da USP, mapeando artistas que participavam com frequência de exposições. Pela primeira vez, tomou conhecimento da carioca Regina Vater, integrante da primeira geração de videoartistas no Brasil, e do paraibano Genilson Soares, artista que trabalhou com a interatividade e teve seu trajeto associado à arte de vanguarda. Da lista de nomes históricos que hoje representa, o único de que havia ouvido falar era Hudinilson Jr., que apesar de ter exposto na 1ª Bienal de Havana e na 18ª Bienal de São Paulo, entre outras mostras importantes, encontrava sua produção obscurecida.

“Os trabalhos são muito bons, não há como contestar, mas meu maior medo era conseguir explicar como aquele artista viveu dez, 15 anos produzindo e ninguém nunca tinha ouvido falar”, diz Martins, que ganhou no ano passado o prêmio de estande mais inovador no braço nova-iorquino da feira Frieze –sua aposta foi na exibição de documentos históricos de obras produzidas pela alagoana Martha Araújo na década de 1980. “Acho que estou fazendo um trabalho de instituição”, desabafa, demonstrando o primeiro sinal de cansaço na trajetória de meia década. Diz ter percebido que lida com a venda de produções pequenas, finitas e que contém em si pedaços da história –o que aumenta sua responsabilidade. “Precisamos organizar o material de forma sistemática e definir por fatias o que pode ser vendido no Brasil, no exterior ou apenas para instituições.”

Até o fim do ano, como exemplo do extenso trabalho de pesquisa, ela pretende publicar catálogos de Martha Araújo e da Equipe 3 e Arte/Ação, grupos dos quais Soares fez parte. “De verdade, acho que essa tarefa é exigir demais de mim mesmo”, a galerista continua, cercada por obras de Bill Lundberg, norte-americano pioneiro da videoarte cuja produção ela se empenha em reavivar. “A lista de nomes históricos sempre continuará, pois é o nosso DNA, mas acho que começará a ficar mais discreta e aumentaremos a presença contemporânea”, diz a galerista, que também tem em seu elenco realizadores jovens como Lais Myrrha, artista mineira escalada para a próxima Bienal de São Paulo.