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Sonia Gomes cria esculturas a partir de tecidos

Obras da artista estão em exposição no Masp e na Casa de Vidro, em São Paulo

by Felipe Stoffa
Foto: Divulgação

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Os armários da residência-ateliê de Sonia Gomes, em São Paulo, vivem abarrotados de vestidos, roupas de cama, toalhas – dela e de outros. A artista mineira, de 70 anos, já não sabe mais como chegam e nem quantos tem.

Todo dia, no começo da tarde (Sonia não é de acordar cedo), suas mãos dão vida ao material que, por meio de corte e costura, são entrelaçados, misturados e se tornam belíssimas esculturas. “Acordo e vejo meus seres lá. Meus objetos, minhas companhias. Acho ótima essa experiência de trabalhar em casa”, diz ela, que, recentemente, se mudou de Belo Horizonte para a capital paulista.

Sonia fala que seu trabalho chega por uma grande catarse. Mas essa ebulição é difícil de ser percebida quando deparamos com as obras prontas, que transmitem enorme sensação de leveza. Elas carregam memórias e vestígios dos antigos donos daqueles tecidos, base de toda sua produção, além da paixão pelo bordado.

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Há dias também em que Sonia vai à Praça da República atrás de lojas do material, e os compra aos montes. Alguns viram roupas. Outros, obras. Acontece muito de a roupa virar obra. É um processo contínuo de reúso. “Sempre gostei de tecido. Minha terra (Caetanópolis) tem fábrica de tecido, foi a segunda do material no Brasil e a primeira de Minas Gerais. O material também é muito forte na cultura africana. E o meu trabalho tem essa linguagem. Mas é instintivo, não forço isso”, conta a artista.

Até os 5 anos, foi criada pela avó, depois foi entregue à família do pai. Essa memória nunca mais a abandonou. “Trabalho muito com afeto, e acho que é isso que busco para mim mesma: afeto”, reflete. “Minha obra demorou para ser aceita, por causa da linguagem que carrega. Adoro a estética africana, amarrações, tudo. Mesmo que nunca tenha ido à África, sempre gostei de ver imagens daquelas mães carregando filhos nas costas com amarrações.”

De um ano para cá, Sonia esteve ocupada entrelaçando tecidos com outro material: a madeira. Da mistura surgiram esculturas de distintos formatos, agora reunidas para a nova individual da artista, “Ainda Assim me Levanto”, que acontece no Masp e na Casa de Vidro, ambos em São Paulo.

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Ela reuniu desde galhos pequenos até enormes troncos, retirados do sítio de um amigo próximo. Todos vieram do chão, o que a natureza lhe reservou e entregou, e já chegaram prontos e até mesmo esculpidos. “Queria agregar um elemento novo ao trabalho, no caso, troncos de árvore e galhos, coisas que achamos por aí. Já tinha feito alguns menores, que foram expostos em Nova York. O resultado deu certo. Gostei da brincadeira de misturar o orgânico, encontro que ficou muito bom. Quando recebi o convite do Masp, pensei: ‘Quero causar surpresas’. E gosto de desafios.”

Moldar algo maleável como o tecido na estrutura fixa da madeira foi uma grande batalha. A artista precisou de tempo para entender como juntar os dois materiais. “O tecido tinha de obedecer aquela forma da natureza”, explica. “As últimas peças chegaram como satisfação, a conversa entre eles foi boa.”

O belo é algo de suma importância para a mineira. Ela gosta de viver perto de coisas bonitas, sejam as roupas que usa ou o que cria. No caso das esculturas, a última palavra é apenas sua. “Meu processo de trabalho é trabalhar. Se estou triste, quero trabalhar; se estou alegre, quero trabalhar, sou compulsiva. Mas sou também uma pessoa livre, não faço nada que não gosto”, diz, aos risos.

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“As pessoas me entregam o vestido da avó, uma colcha de retalhos que dormiu a vida inteira. Me sinto responsável pela história daquilo e do doador. Mas, a partir do momento em que me entregam aquela história, crio outra. Esse material chega para eu dar vida nova”, conta.

Com o passar do tempo, ela ganhou mais reconhecimento, e as entregas aumentaram. E já aconteceu de gente que, ao passar por sua obra, reconheceu o tecido doado. Todas as doações lhe tocam da mesma forma, a troca de afetos é intensa em qualquer caso.

Outro dia, chegou uma caixa via Fedex da Suíça. “Me aproprio dos tecidos porque acho as histórias bonitas”, enfatiza a artista sobre seu processo criativo.

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Essas histórias, para ela, formam mitologias, assunto que ama, pesquisa e lê muito, principalmente contos e lendas africanos. “Sinto também que incentivo pessoas que gostam de bordar. Vi no Facebook que, em Belo Horizonte, teve um trabalho social chamado Bordando no Banquinho, e a referência era meu próprio trabalho! Essas respostas são muito boas”, completa.

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Após a abertura das exposições, neste mês, Sonia pretende descansar um pouco para, depois, retomar suas pesquisas em torno da madeira. “Tenho a impressão de que a madeira vai ser uma fonte inesgotável, então, vou respeitar o tempo do material. Sou uma artista que gosta muito da experimentação, mas não fico ansiosa, a coisa vem. Fechei a exposição há pouco tempo, né? E aí falei para mim mesma: ‘Agora quero brincar’. Ano que vem vou só brincar”, avisa.